teses

Quadriênio 2016 - 2013

Total de teses defendidas: 72

TESES DEFENDIDAS EM 2016

Total de dissertações defendidas: 27

Ana Carla Pacheco Lourenço Ferri

Título: Fernando Namora: o homem pela voz do escritor

Orientador: Monica do Nascimento Figueiredo 

Páginas: 126

Resumo

Este trabalho pretende observar o processo de evolução da obra do escritor português Fernando Namora. Uma obra que parte de um contexto humanista mais voltado para o coletivo, afetado pela urgência de uma arte mais interveniente no tocante aos problemas sociais, até chegar a uma fase em que se volta mais para si como estrutura estética, seguindo uma linha mais subjetiva que refletiu as mudanças no contexto histórico, a partir da década de 1950, em Portugal e no mundo. Para isso, o trabalho propõe cotejar cenas de narrativas de cariz mais social, tendo como eixo norteador o romance Fogo na Noite Escura (1943), que marca a convergência do autor ao Neorrealismo, e cenas de perfil mais psicológico, tendo como principais referências O Homem Disfarçado (1957), romance de viragem para uma sondagem mais subjetiva na escrita do autor, Domingo à Tarde (1961) e O Rio Triste (1982), seu último romance. A análise das diversas passagens narrativas intenciona demonstrar que, independente das vertentes ideológicas com as quais dialogou, Fernando Namora soube manter uma postura autônoma, construindo uma escrita que jamais se descuidou da forma nem tão pouco obliterou suas preocupações com o resgate da dignidade humana e de tantos outros valores imanentes ao homem: liberdade, solidariedade, fraternidade, o desejo de pertencimento.

Caio Cesar Castro da Silva

Título: A prosódia da negação no português brasileiro: as realizações do não

Orientador: Carolina Ribeiro Serra e Dinah Maria Isensee Callou

 Páginas:231

Resumo


Investigamos, nesta tese, as realizações do item de negação com ditongo nasal pleno (não) e com ditongo nasal reduzido (num), com o objetivo de definir o estatuto fonológico das variantes e sua prosodização no português brasileiro. Temos por base a hipótese de que ocorre um processo de cliticização fonológica que faz com que as palavras funcionais não e num tenham comportamentos prosódico e entoacional distintos.
A variação entre as duas formas é percebida na fronteira inicial do sintagma entoacional e também em posição interna, enquanto na fronteira direita do mesmo constituinte é categórica a manutenção da variante plena. A hipótese de que o processo de redução envolva a perda do acento lexical é baseada na frequência com que o operador de negação ocorre no discurso e na própria caracterização do processo de cliticização em várias línguas naturais. Para analisar essa consideração, utilizamos dados de fala espontânea retirados do Projeto Concordância e baseamos nossas assunções teóricas na Teoria da Variação e Mudança, na Teoria da Hierarquia Prosódica e na Fonologia Entoacional Autossegmental e Métrica. Propomos que num tenha status de clítico e sua prosodização seja adjungida ao verbo (que funciona como hospedeiro fonológico), formando um grupo de palavra prosódica; o item não, por sua vez, é analisado como uma palavra prosódica, que pode ocorrer no mesmo sintagmafonológico que o verbo, ao final do enunciado, ou isoladamente, como uma resposta a uma questão total.
A observação de condicionamentos fonológicos, como a distância entre sílabas acentuadas, a análise acústica das médias de duração, a ocorrência de eventos tonais e a comparação com outras palavras prosódicas que tenham estrutura fonológica semelhante contribuíram como indícios para a confirmação da hipótese de haver uma cliticização fonológica, e não sintática.

Carina Ferreira Lessa

Título: Graciliano Ramos: o desarranjo interior e a estética da memória

Orientador: Alcmeno Bastos 

Páginas: 191

Resumo

O presente trabalho estuda a narrativa pelo filtro da memória em Graciliano Ramos. Aqui, a memória é entendida sob dois ângulos: uma involuntária – que move os narradorespersonagens à escrita –, e outra voluntária – que pauta-se pela necessidade de rememoração. Com isso, a memória involuntária vem como tema: a enfermidade de Adrião, a morte de Madalena, a obsessão por Marina, a vida seca, o trauma de infância e os resquícios de prisão. A voluntária representa o estado psicológico dos personagens por meio da estrutura narrativa. Subdividi a voluntária em duas partes: a memória binocular e a memória esfumaçada. Ambos os termos foram retirados de romances do autor e demonstram o ato de tecer uma linguagem que reflita os pensamentos e desarranjos dos personagens-narradores.
Espera-se trazer um autor que não só tinha preocupações sociais e políticas, mas também com a estética da literatura e com a vida miserável da alma. Mostrar, ainda, como o processo de rememoração parece ser o foco principal de sua obra completa, refletindo a ideia de que Graciliano Ramos é um romancista da solidão, voltado para dentro de si com a realidade profunda da alma, como afirmou José Lins do Rego.
Pretende-se comprovar que o autor não estabeleceu limites entre ficção e não ficção. Entre reminiscências de Graciliano, Luis da Silva, Fabiano, Paulo Honório ou João Valério se vale sempre das mesmas técnicas e expressões que desequilibram a verdade. Todos são romances. Todos os personagens estão marcados por um “desarranjo interior” e uma despreocupação com a realidade cronológica.

Cintia Cecilia Barreto

Título: O riso e o grito na ficção de Lívia Garcia-Roza, Ivana Arruda Leite e Claudia Tajes

Orientador: Godofredo de Oliveira Neto 

Páginas: 180

Resumo

Esta Tese de Doutorado objetiva apresentar o humor presente na ficção contemporânea de Lívia Garcia-Roza, Ivana Arruda Leite e Claudia Tajes. Por meio das obras selecionadas, contos, novelas e romances, será possível desenvolver a tese de que as autoras utilizam o humor provocando o riso e o grito das personagens femininas. As ficcionistas selecionadas apresentam um olhar voltado a temas ligados à família, ao casamento, às relações amorosas, de gênero e à busca da identidade. Dessa forma, denunciam o patriarcalismo e as imposições de papéis e padrões de conduta estabelecidos pela sociedade. Esta é uma pesquisa pautada nas teorias de gênero, de humor e da literatura, a fim de evidenciar as estratégias utilizadas pelas autoras para deslocarem as personagens femininas das amarras sociais. A ficção contemporânea contribui, assim, por meio do riso, o grito necessário para as mulheres se fazerem ouvir.

Dedilene Alves de Jesus

Título: A modificação adjetival privativa em língua portuguesa: a perspectiva da linguística cognitiva

Orientador: Maria Lúcia Leitão de Almeida e Verena Kewitz

 Páginas:171

Resumo

O adjetivo privativo foi conceituado por Kamp (1975) como um tipo de adjetivo que estabelece relações de propriedades para propriedades, isto é, exerce função modificadora das propriedades intensionais do N. Para identificação do adjetivo privativo, partimos da disposição de que tal adjetivo é marcado discursivamente pela paráfrase “o que não é N”, quando associado a um nome ou construção nominal. Enquadramos o adjetivo privativo nas questões concernentes à modificação adjetival, amparados em estudos descritivos do português e da Linguística Cognitiva, no intuito de identificarmos os traços característicos da construção modificada privativa. Além disso, procuramos vincular a noção de propriedades intensionais ao conceito de affordance (propriedade invariante do ambiente provida ao indivíduo), termo emprestado pelas teorias de percepção visual (GIBSON, 1979), em uma perspectiva corporificada da língua (LAKOFF, 1987). Assim, fizemos uso de dados coletados pelas ferramentas de busca Google e WebCorp, analisados dentro dos critérios distribucionais produtivos postulados por Casteleiro (1979) para a distinção entre adjetivos predicativos e não-predicativos, além da noção de frames e espaços mentais (FAUCONNIER, 1985) e também do processo de mesclagem conceptual (FAUCONNIER E TURNER, 2002), para verificarmos as alterações nas affordances do N em construções A+N/N+A e N+N a partir dos adjetivos falso, suposto, antigo, provável, possível e postiço.

Elaine Brito Souza

Título: Lima Barreto e a memorialística: sujeito e autobiografia

Orientador: Godofredo de Oliveira Neto e Carmem Lúcia Negreiros de Figueiredo 

Páginas:212

Resumo

Esta tese analisa os textos memorialísticos de Lima Barreto, a saber Diário íntimo, Diário do hospício e O cemitério dos vivos, com base no conceito de sujeito como multiplicidade desenvolvido por Friedrich Nietzsche. O surgimento dos gêneros memorialísticos, como o diário e a autobiografia, está diretamente relacionado ao nascimento do sujeito moderno, cuja expressão encontra sua forma paradigmática em Confissões, de Jean-Jacques Rousseau, publicado pela primeira vez em 1782. Cerca de cem anos depois, Friedrich Nietzsche escreve Ecce homo, a autobiografia com a qual encerra sua obra. Ao questionar os principais pressupostos autobiográficos, como a integridade do sujeito e a possibilidade de comunicação de sua verdade interior por meio da linguagem, o projeto autobiográfico do filósofo alemão estabelece um contraponto conceitual ao do pensador genebrino. Por sua vez, os textos memorialísticos de Lima Barreto, ao buscarem uma resposta para a crise do sujeito e da representação no início do século XX, revelam uma concepção de sujeito que, assim como a de Nietzsche, se afasta dos parâmetros de unidade da tradição memorialística. O trabalho abordará, então, como a multiplicidade do sujeito produz fissuras nas formas memorialísticas, o que pode ser observado nos textos autobiográficos de Lima Barreto. Ao apresentarem uma maneira inovadora de falar de si, o Diário íntimo, o Diário do hospício e O cemitério dos vivos permitem pensar questões relativas à subjetividade e as consequências de seu declínio para o pensamento e a escrita memorialística.

Dennis da Silva Castanheira

Título da tese: Anáforas encapsuladoras e contrução do gênero Entrevista: análise Textual-Funcional

Orientador(a): Leonor Werneck dos Santos

Coorientador(a): Maria Maura da Conceição Cezario

Ano da defesa: 2020

Páginas: 255

Resumo

Esta Tese discute o uso de anáforas encapsuladoras e seu papel na construção do gênero entrevista a partir da análise dos seus planos temático, estilístico e composicional (cf. BAKHTIN, 1997[1979]). Utilizamos, para fundamentá-la, a interface entre a Linguística de Texto e o Funcionalismo norte-americano, abordagens sociocognitivas e interacionais. Metodologicamente, partimos de uma abordagem qualitativa e quantitativa, selecionando 24 entrevistas publicadas nas revistas Exame e Veja nos anos de 2018 e 2019 sobre três temas: cultura, economia e política. Nossa análise envolve, além dos temas, as partes da entrevista e o mapeamento dos encapsulamentos funcional (organização/ interação textual, grau de subjetividade, grau de novidade, natureza fórica e multifuncionalidade) e formalmente (posição na oração e tamanho do SN). Os resultados indicaram que tais elementos são usados a partir do entrelaçamento entre discurso e gramática e que podem ser relacionados à construção do gênero, pois eles apresentam diferentes tendências de uso a depender do tema e da parte da entrevista. Por fim, sugerimos propostas pedagógicas de abordagem dos resultados encontrados, a partir da interseção da interface teórica aqui defendida com o ensino.

Palavras-chave: anáforas encapsuladoras; gênero entrevista; Linguística de Texto; Funcionalismo norte-americano; ensino de português.

Abstract

The Thesis investigates the use of encapsulating anaphors and their role in the construction of the genre interview by the analysis of its thematic, stylistic and compositional plans (cf. BAKHTIN, 1997 [1979]). The theoretical interface between Text Linguistics and North American Functionalism, socio-cognitive and interactional approaches, is used to support the research. We selected 24 interviews published in Exame and Veja magazines in the years 2018 and 2019. The interviews were on three themes: culture, economics and politics. Our analysis also involves the study of parts of the interview and the mapping of the functional (organization / textual interaction, degree of subjectivity, degree of innovation, phoric nature and multifunctionality) and formal (position in the sentence and size of the NP) aspects of encapsulations. Results indicated that such elements are used according to the intertwining between discourse and grammar and that they can be related to the construction of the interview genre, as they present different usage trends depending on the theme and part of the interview. Finally, based on the results, we suggest pedagogical interventions in line with the chosen theoretical interface.

Keywords: encapsulating anaphors; genre interview; Text Linguistics; North American functionalism; Portuguese teaching.

Eliane Mello Lima

Título da tese: A orientação argumentativa em textos literários: estratégias de persuasão e sedução

Orientador(a): Maria Aparecida Lino Pauliukonis

Ano da defesa: 2020

Páginas: 161

Resumo

Esta pesquisa visa a ressaltar a importância do estudo da argumentação no discurso, a partir da análise dos recursos linguístico-discursivos responsáveis pela patemização em textos literários. Com base na teoria Semiolinguística, serão analisados o contrato de comunicação estabelecido e as marcas linguísticas da enunciação encarregadas de suscitar emoção e provocar efeitos patêmicos que levam o destinatário a aderir à tese defendida. Serão estudados os índices responsáveis pela persuasão e sedução, assim como a força desses elementos no convencimento do destinatário, envolvendo-o emocionalmente. Espera-se que esta pesquisa contribua com os estudos do discurso, apontando como a análise dos elementos linguísticos coopera para uma melhor interpretação de textos literários, enfatizando, por conseguinte, que a orientação argumentativa é uma construção textual e não é exclusividade de textos tipicamente argumentativos, mas parte da língua, independente do gênero textual analisado.

Palavras-chave: Semiolinguística, argumentação, patemização, texto literário.

Abstract

This research focused on investigating the importance of studying argumentation in discourse departing from the analysis of linguistic-discursive resources which are responsible for pathemization in literary texts. Based on the Semiolinguistic Theory, the objects of the analyses will be the established communication contract and the linguistic marks of enunciation which arouse emotion and provoke pathemic effects that lead the recipient to adhere to the advocated thesis. The indices in the texts which are responsible for persuasion and seduction will be studied, as well as the strength of these elements in convincing the recipient by involving him emotionally. This research will hopefully contribute to discourse studies by pointing out how the analysis of linguistic elements can contribute to a more efficient interpretation of literary texts, thus showing that argumentative orientation, as a textual construction, is not limited to argumentative texts. Instead, it is part of the language and is independent of text genres.

Keywords: Semiolinguistic Theory; argumentation; pathemization; literary texts.

Fábio Gusmão da Silva

Título: A construção de um ethos discursivo por meio de recursos intertextuais

Orientador: Lúcia Helena Martins Gouvêa 

Páginas:162

 

Resumo

Esta pesquisa tem como objetivo estudar a construção de um ethos, por meio de recursos intertextuais, em crônicas produzidas pelo colunista Diogo Mainardi. O corpus é composto de 213 textos escritos, entre os anos de 2006 e 2010, e publicados na revista semanal Veja. O recorte teórico da pesquisa baseia-se em preceitos da Semiolinguística do Discurso, de Patrick Charaudeau, em pressupostos da Linguística Textual, de Ingedore Koch e de postulados da Análise do Discurso desenvolvidos por Dominique Maingueneau. O que se pretende evidenciar é a construção de uma determinada imagem expressa por Mainardi a partir da intertextualidade, considerando o intertexto uma marca explícita desse articulista na construção de seu estilo, que é analisado em sua relação enunciativa com o ethos discursivo. O conceito de ethos está em consonância com o da Análise do Discurso, especificamente com as pesquisas de Patrick Charaudeau e Dominique Maingueneau, em que se leva em consideração a posição enunciativa do enunciador, ou seja, uma das imagens de si que o enunciador Mainardi projeta em seu discurso. As análises, de natureza qualitativa e quantitativa, revelam a imagem de um enunciador com um repertório cultural bastante vasto que contribui para a formação de um ethos de inteligência. A construção desse ethos resulta do emprego de intertextos presentes em seus escritos, de seus dizeres, que são recorrentes em seu modo singular de enunciar.

 

Gesieny Laurett Neves Damasceno

Título:A transitividade de processos materiais em notícias jornalísticas

Orientador: Violeta Virginia Rodrigues e Mônica Maria Rio Nobre

 Páginas:248

Resumo

Para a Gramática Sistêmico-Funcional, as línguas, de um modo geral, são organizadas em torno de três tipos principais de significados: o ideacional, o interpessoal e o textual. Esses significados, chamados de metafunções, são a manifestação no sistema linguístico dos três objetivos principais que fundamentam todos os usos da linguagem: representação, interação e mensagem. Na perspectiva sistêmica, os papéis principais do sistema de transitividade fornecem o quadro de referência para que a experiência da realidade seja interpretada. Tendo em vista essa concepção, este trabalho objetiva investigar o modo como os componentes do sistema de transitividade são articulados em textos pertencentes ao gênero notícia jornalística, a fim de que os propósitos sociocomunicativos desse gênero discursivo sejam mais eficazmente alcançados. Como aporte descritivo-metodológico, elegeram-se oito parâmetros, que visaram a abarcar tanto as propriedades sintáticas e semânticas dos elementos envolvidos na transitividade, como as propriedades pragmáticas e discursivas que atuam nas escolhas efetuadas. São exemplos desses parâmetros: caracterização dos fazeres transitivos e intransitivos, número de Participantes na cláusula, formas de expressão do significado, objetivos pragmático-discursivos das configurações clausais e expansão dos Processos Materiais. O corpus da pesquisa constitui-se de 31 notícias jornalísticas, retiradas do corpus Varport. O recorte de análise compreende 131 cláusulas construídas em torno de Processos do tipo Material. Para o reconhecimento dos padrões de transitividade codificados nas notícias9 jornalísticas e a estimativa das correlações entre os parâmetros arrolados, utilizamos como ferramentas os Mapas Auto-Organizáveis (do inglês, Self-organizing Maps – SOM), que se constituem em um tipo de Rede Neural não supervisionada, e a estimativa da correlação de Pearson. Tendo em vista a relação de similaridade entre os sinais de entrada, foi possível identificar quinze importantes padrões linguísticos, que sintetizam, com bastante eficácia, as escolhas efetuadas no âmbito do sistema de transitividade e os significados construídos nas notícias jornalísticas a partir dos arranjos estabelecidos. O estabelecimento da correlação entre os parâmetros analisados permitiu entrever, por exemplo, (i) a relação existente entre as expressões metafóricas e a ocultação do real agente da ação verbal, (ii) a tendência de os fazeres intransitivos codificarem experiências mais concretas, (iii) a importância das expressões metonímicas no processo de construção de face de instituições empresariais e (iv) o alto grau de importância dos elementos circunstanciais na representação dos fazeres intransitivos.

Gregory Magalhães Costa

Título:Ressonâncias da literatura brasileira em Grande Sertão: Veredas

Orientador: Adauri Silva Bastos 

Páginas: 341

Resumo

Esta tese entende Grande sertão: veredas de João Guimarães Rosa como síntese da literatura brasileira. Tanto por absorção e transformação quanto por palimpsesto, Rosa recria o ponto de vista, práxis, temas, motivos e tons literários barrocos, árcades, românticos, até tendências modernas. A práxis literária nacional encontra-se não misturada, mas como ressonância da universal. Rosa busca os pontos de contato entre elas, como uma ancestralidade contida nos genes primordiais de nossa literatura: as ressonâncias da Antiguidade na modernidade. Essas absorções e transformações também são responsáveis por unir em um único espaço literário os mitos dos quatro cantos do mundo, inaugurando a visão mitopoética do Grande sertão, de indissociabilidade entre passado, presente e futuro, unidos rapsodicamente numa narrativa original e originária.

Luana Maria Siqueira Machado

Título: A patemização em crônicas de Zuenir Ventura

Orientador: Lúcia Helena Martins Gouvêa 

Páginas:221

Resumo

O presente trabalho propõe-se a analisar e sistematizar as estratégias de patemização presentes em crônicas de Zuenir Ventura. Essa pesquisa fundamenta-se em estudos de Análise do Discurso, apoiando-se, principalmente, nas contribuições da Teoria Semiolinguística de Patrick Charaudeau e suas considerações a respeito do conceito de patemização. Acrescentam-se à teoria estudos de Christian Plantin, nos quais defende a completa integração entre razão e emoção e a possibilidade de se argumentar por meio da emoção. Com base nesses autores, a análise visa a detectar as estratégias linguístico-discursivas utilizadas pelo cronista para, na construção do texto, suscitar emoções no auditório. Essas emoções têm propósito argumentativo, orientando o leitor para a tese defendida no texto. O corpus dessa investigação é composto por 77 crônicas escritas por Zuenir Ventura no ano de 2013 e publicadas no jornal O Globo. Pretende-se, dessa forma, comprovar a tese de que o cronista utiliza variadas estratégias para construir uma argumentação via pathos. Além disso, busca-se confirmar que a crônica jornalística é um gênero aberto a uma visada patêmica; que o uso do modo enunciativo de organização do discurso ocorre por meio de dois comportamentos discursivos distintos: elocutivo e delocutivo, oscilando entre as modalidades da opinião e da asserção; e que o autor, dentre as variadas estratégias, utiliza com mais frequência expressões modalizadoras para construir sua argumentação via pathos.

Maíra Contrucci Jamel

Título: Uma loja comunal: a questão do plágio de Eça de Queirós e Aluísio Azevedo

Orientador: Monica do Nascimento Figueiredo 

Páginas:158

Resumo

A presente tese pretende discutir como a ideia de plágio pode ter maculado a obra de dois importantes escritores da língua portuguesa, Eça de Queirós e Aluísio Azevedo. Será realizada uma leitura comparada entre os autores que foram considerados plagiadores, sem deixar de levar em conta o fato de o brasileiro ter sido acusado de plagiar o português. Para tanto, serão exploradas as mudanças de significado que o termo plágio sofreu ao longo do tempo, bem como suas implicações para o fazer literário. O enfoque será especificamente no século XIX para entender como o plágio começa a ter um valor diferenciado num tempo essencialmente burguês, no qual as ideias de posse e propriedade influenciavam a vida da sociedade. Dessa forma, analisaremos o contexto e a repercussão que O Crime do Padre Amaro e O Mulato tiveram por meio da observação de periódicos brasileiros do final dos oitocentos. Por fim, as narrativas serão analisadas comparativamente buscando entender as trocas que estabelecem entre si.

Licia Rebelo de Oliveira Matos

Título da tese: Vinte e Cinco de Abril no rastro do tempo

Orientador(a): Ângela Beatriz de Carvalho Faria

Ano da defesa: 2020

Páginas: 152

Resumo

A Revolução dos Cravos (Portugal, 25 de abril de 1974) é um tema caro aos ficcionistas portugueses, que frequentemente revisitam a história, os mitos e a ruína que a envolvem. Por se tratar de um acontecimento recente, é notável que existe ainda uma memória forte sobre o levantamento militar que instaurou a democracia no país após 48 anos de ditadura. No romance Os memoráveis (2014), Lídia Jorge resgata essa memória e o testemunho dos participantes da revolução tantas vezes relegados ao esquecimento pela narrativa histórica oficial. Em entrevistas fictícias, feitas trinta anos após o levante, personagens inspirados em revolucionários verídicos transparecem a ruína da revolução que não conseguiram levar até o fim. Já Maria de Medeiros, no filme Capitães de abril (2000), recupera o próprio 25 de Abril, numa narrativa mais comprometida com a memória e a ficção do que com uma pretensa veracidade dos fatos apresentados na tela. Cada uma das obras, a seu modo, aborda a paixão revolucionária pelo momento único de libertação do país e os problemas que se seguiram a ela, revelando uma revolução corrompida e uma libertação incompleta. Em ambas, ficam claros o comprometimento da literatura com a análise histórica e a importância da ficção como força de resistência da memória contra o esquecimento. Nesta tese, falaremos sobre o romance e o filme a partir de temas como tempo, história e revoluções, lidos em Arendt (2011), Benjamin (2012) e Duby (1989); abordaremos testemunho e memória com base em Seligmann-Silva (2003, 2006), Gagnebin (2009) e Halbwachs (2003); sobre a importância histórica dos documentos, leremos Le Goff (1996). Abordaremos a Revolução dos Cravos, o salazarismo e a identidade lusitana especialmente a partir de Rosas (2013, 2016, 2018), Secco (2004) e Lourenço (1988, 2016). Didi-Huberman (2010, 2019) será uma referência recorrente sobre imagem e alegoria. Ainda, para tratar de teoria sobre narrativa literária e fílmica, traremos Reis e Lopes (2011), bem como Vernet (2012). Por fim, sobre as obras estudadas, serão trazidas entrevistas a Jorge (2014) e Medeiros (2000, 2013), além de trabalhos acadêmicos de Amorim (2017) e Silva (2017, 2018).

 

Palavras-chave: Revolução dos Cravos; Lídia Jorge; Maria de Medeiros; memória; testemunho; documento.

Abstract

The Carnation Revolution (Portugal, April 25, 1974) is a recurring subject in Portuguese fiction, in which authors often revisit the history, myths and desolation surrounding it. This military coup that reinstated democracy in Portugal after 48 years of dictatorship is part of the country’s recent history and, thus, still vividly remembered. In the novel The Outstanding (Os memoráveis, 2014), Lídia Jorge revisits the memories and testimonies of participants that are often forgotten by history’s official narrative. In fictional interviews held 30 years after the coup, characters inspired by real-life revolutionaries tell the tales of desolation behind the revolution that they couldn’t bring to fruition. In a similar way, in her movie April Captains (Capitães de Abril, 2000), Maria de Medeiros uses a more memory-based narrative to paint a picture of April 25 that is more fictional than documental. In their own ways, both works talk about the revolutionary passion behind this singular moment of liberty and the problems that followed it, revealing a failed revolution and incomplete freedom. Both also highlight literature’s crucial role in historical analysis and the importance of fiction as a force against oblivion. This thesis discusses themes such as time, history and revolution in the aforementioned novel and movie as per works by Arendt (2011), Benjamin (2012) and Duby (1989); concepts of testimony and memory are discussed based on Seligmann-Silva (2003, 2006), Gagnebin (2009) and Halbwachs (2003); the historical importance of documents is discussed based on Le Goff (1996). This work also examines the Carnation Revolution, the Salazar dictatorship and the concept of Portuguese identity based on Rosas (2013, 2016, 2018), Secco (2004) and Lourenço (1988, 2016). Didi-Huberman (2010, 2019) is often referenced in regards to image and allegory. Literary and cinematographic narratives are debated based on Reis e Lopes (2011) and Vernet (2012). Lastly, in regards to the works studied, interviews with Jorge (2014) and Medeiros (2000, 2013) are referenced, as well academic papers by Amorim (2017) and Silva (2017, 2018).

Keywords: Carnation Revolution; Lídia Jorge; Maria de Medeiros; memory; testimony; document.

Lucca de Resende Nogueira Tartaglia

Título da tese: Por “um verbo de sangue para o silêncio arder”: as etapas do fazer poético na obra de Daniel Faria

Orientador(a): Sofia Maria de Sousa Silva

Coorientador(a): Helena Franco Martins

Ano da defesa: 2020

Páginas: 156

Resumo

Partindo da leitura dos poemas publicados em Poesia (2012) e dos diálogos (intratextuais e intertextuais) por eles suscitados, a presente tese tem, por objetivo geral, a proposta de analisar o fazer poético de Daniel Faria, através da voz, dos recursos e mecanismos ensejados pelos versos, e, de maneira específica: 1) destacar as características principais da persona poética fariniana, ou seja, de uma voz abrangente, um sujeito lírico-discursivo que, composto no e a partir do texto, povoa e repercute por todos os escritos do autor, salientando, também, como a conferência de 1998 alinhava uma espécie de arte poética, favorecendo a compreensão dos estados, estágios, processos e procedimentos que envolvem a escrita; 2) analisar, no decorrer da obra, a importância do “mecanismo secreto do amor”, ou seja, das diferentes dimensões do sentimento amoroso – que compõem os estados “de locomoção” –, como parte axial do fazer poético de Faria, agindo como força motriz, como impulso garantidor do movimento e, por conseguinte, da transmutação do verbo silente; 3) verificar os estágios de composição que os poemas tracejam, investigando, na escrita do poeta, hereditariedades e aproximações importantes com outros nomes da poesia portuguesa e ocidental. Para melhor embasarmos os nossos apontamentos, para além da teoria-base de Löwy e Sayre acerca de uma “visão de mundo romântica”, recorreremos a pensadores e poetas que, direta ou indiretamente, fazem presença durante a leitura dos poemas, como São João da Cruz (2002), Rilke (2013), Octavio Paz (1994), Herberto Helder (1987), Georges Bataille (1987), Heidegger (2008), Agamben (2013), Blanchot (2011), Sophia de Mello Breyner Andresen (2018), Ruy Belo (2002), entre outros.

Palavras-chave: Literatura portuguesa, Poesia contemporânea, Daniel Faria, poética, composição.

Abstract

Starting from the reading of the poems published in Poesia (2012) and the dialogues raised by them, the present thesis has, as a general objective, the proposal to analyze Daniel Faria’s poetic making, through the voice, resources and mechanisms provided by the verses, and, in a specific way: 1) to highlight the main characteristics of the Farinian poetic persona, that is, of a comprehensive voice, a lyrical-discursive subject who, composed in and from the text, populates and reverberates through all the author’s writings, also emphasizing how the 1998 lecture aligned a kind of “poetic art”, favoring the understanding of the states, stages, processes and procedures that involve writing; 2) to analyze, in the course of the work, the importance of the “secret mechanism of love”, that is, of the different dimensions of loving feeling – which make up the “locomotion” states -, as an axial part of Faria’s poetic making, acting as driving force, as an impulse that guarantees movement and, therefore, the transmutation of the silent word; 3) to verify the stages of composition that the poems trace, investigating, in the poet’s writing, heredities and important similarities with other names of Portuguese and Western poetry. To better base our notes, in addition to the basic theory of Löwy and Sayre about a “romantic worldview”, we will turn to thinkers and poets who, directly or indirectly, are present during the reading of poems, such as São João da Cruz (2002), Rilke (2013), Octavio Paz (1994), Herberto Helder (1987), Georges Bataille (1987), Heidegger (2008), Agamben (2013), Blanchot (2011), Sophia de Mello Breyner Andresen (2018 ), Ruy Belo (2002), among others.

Keywords: Ana Martins Marques, Penélope, love, home, memory, metapoetry.

Luiz Herculano de Sousa Guilherme

Título da tese: Comparação estruturada por conectores nos manuais de Português Língua Estrangeira(PLE): uma proposta de revisão à luz do funcionalismo

Orientador(a): Violeta Virginia Rodrigues

Co-orientador(a): Marcelo da Silva Amorim

Ano da defesa: 2020

Páginas: 164

Resumo

A demanda por ensino de Língua Portuguesa no mundo aumentou bastante nos últimos quinze anos. Tal fato favoreceu o crescimento de pesquisas e trabalhos na área do ensino de Português Língua Estrangeira (PLE) direcionados à descrição linguística e cultural em torno do Português. Nesse cenário, insere-se este trabalho que tem como tema central a comparação estruturada por conectores, à luz das pesquisas realizadas por Rodrigues (2001, 2009, 2010, 2013 e 2014) e Rodrigues e Tota (2013), contrastando-as ao tratamento dado à comparação pelas gramáticas normativas (GT). Constitui-se também como aporte teórico deste estudo a teoria funcionalista, que leva em conta a visão de língua em uso; para tal abordagem usamos como base a proposta de Moura Neves (1997). Assim, esta tese objetiva propor uma descrição do fenômeno linguístico da comparação estruturada por conectores a partir daquilo que encontramos nos manuais de PLE. A análise realizada tem como corpus vinte e cinco manuais de PLE, comercializados e oriundos de projetos acadêmicos, nos quais se verificaram a presença e/ou ausência destas estruturas, estratégias e trechos que abordassem a comparação. Com base nesta análise, pudemos confirmar que nossa hipótese inicial de que os manuais não abordam este tema de modo a vê-lo como uma ferramenta linguística, discursiva e interacional confirmou-se, reforçando a necessidade de propor novas estratégias e/ou abordagens para o tema, de forma a construir uma nova perspectiva centrada no uso das estruturas comparativas.

Palavras-chave: comparação, Funcionalismo, PLE.

Abstract

The demand for the teaching of Portuguese language around the world has greatly increased in the past fifteen years. This fact promoted the development of studies in the area of teaching of Portuguese as a Foreign Language (PFL), the purpose of which is to linguistically and culturally describe the environment of Portuguese language. In this scenario is to be regarded this doctoral dissertation, which holds as its main subject the phenomenon of comparison as structured by connectors, in light of the research projects conducted by Rodrigues (2001; 2009; 2010; 2013; 2014) and Rodrigues e Tota (2013), contrasting them to the treatment given to comparison by normative grammar handbooks. This dissertation is also based on the functionalist theories, which take into account the perspective of the language in use; for such an approach, we lay our foundations on the proposals by Moura Neves (1997). Thus, this work aims at the description of the linguistic phenomenon of comparison as structured by connectors, taking descriptions found in PFL handbooks as a point of departure. The analysis undertaken here scrutinizes a corpus comprised of twenty-five PLE handbooks – which are the outcome of academic project and available for purchase – in which the presence/absence of such structures, strategies and procedures addressing comparison can be found. Therefrom we could find evidence to confirm our initial hypothesis that the aforementioned handbooks do not approach the phenomenon of comparison in a way that addresses it as a linguistic, discursive and interactive tool. That reinforces the need to propose new strategies to approach this theme, in order to construct a new perspective centered on the use of comparative structures.

Keywords: comparison, functionalism, PFL.

Maria Elenice Costa Lima Lacerda

Título da tese: A prenhez da linguagem: desdobramentos da maternidade em Clarice Lispector

Orientador(a): Anélia Montechiari Pietrani

Ano da defesa: 2020

Páginas: 188

Resumo

A maternidade é temática cara na obra de Clarice Lispector e apresenta desdobramentos até mesmo em sua falta. Ademais, a autora constrói tramas imagéticas plurissignificativas, que ampliam as conceituações sociais até então vigentes sobre o tema e produz múltiplas representações que colocam em xeque o patriarcado. É o que ocorre, por exemplo, em Perto do coração selvagem (1943), romance inaugural da escritora. Nele, a maternidade e suas variáveis são destacadas a partir de personagens, tais como o pai, a mãe e a tia de Joana, a mulher da voz, Lídia e a própria Joana, que, mesmo não conseguindo gerar um filho, é a grande mãe da narrativa, pois todos os demais personagens “nascem” dela. Além do livro supracitado, o presente trabalho contempla ainda uma seleção de contos dos livros Laços de família (1960) e Felicidade clandestina (1971) e culmina no texto de Água viva (1973), através de uma leitura crítico-interpretativa tanto da obra clariciana quanto da fortuna crítica pertinente à discussão proposta. Portanto, a base bibliográfica da pesquisa parte dos principais estudos acerca da obra de Clarice, entre eles os realizados por Antonio Candido (1977; 2006), Benedito Nunes (2009), Hèlene Cixous (1995), entre outros; passando por investigações que dialogam com a Sociologia, a Psicanálise, a Antropologia, a História, como as realizados por Simone de Beauvoir (2019), Elisabeth Badinter (1985; 2011), Elódia Xavier (1991; 2007), Lucia Helena (1997) e outras. Assim, o uso de diferentes máscaras narrativas na encenação da(s) maternidade(s) na obra de Clarice Lispector é um desafio instigante que possibilita ao leitor e ao crítico uma leitura diversificada da palavra e do mundo, que só é possível a partir de uma linguagem em constante estado de prenhez.

Palavras-chave: maternidade; tramas imagéticas; linguagem; Clarice Lispector

Abstract

Motherood is a beloved topic in Clarice Lispector’s work and shows developments even in its lack. Furthermore, the author builds image plots of multiple meanings that widen the social conceptualization in effect about the theme and produces multiple representations, calling into question the patriarchy. It is what occurs, for instance, in Perto do Coração Selvagem (1943), writer’s debut novel. In this work, the motherood and its variables are remarked since some characters, as the father, the mother and Joana’s aunt, the voice’s woman, Lídia and Joana herself who, although she could not give birth to a baby, is the great mother of the narrative, because all the characters “are born from” her. Beyond the book previously mentioned, the present research still beholds a selection of tales from the books Laços de família (1960) and Felicidade clandestina (1971) and culminates in the text of Água viva (1973), through a critical- interpretative reading, as of the clariciana work as with the critical fortune regarding the proposed discussion. Thus, the bibliographical basis of the research starts from the main studies about Clarice’s work, among them the ones produced by Antonio Candido (1977;2006), Benedito Nunes (2009), Hèlene Cixous (1995), among others; going under investigations that dialog to Sociology, Psychoanalysis; Anthropology, History, as the produced by Simone de Beauvoir (2019), Elisabeth Badinter (1985;2011), Elódia Xavier (1991;2007), Lúcia Helena (1997) and others. Therefore, the use of different narrative masks in the acting of motherhood(s) in Clarice Lispector works is an instigating challenge that provides a diversified reading of the word and the world to the reader and the critic, which is only possible from a language in constant status of pregnancy.

Keywords: motherhood, image plots, language, Clarice Lispector.

Marcelo Villela Fabiani

Título: A ressonância do discurso polifônico na poética de Autran Dourado

Orientador: Godofredo de Oliveira Neto

Páginas:175

Resumo

Este trabalho abordará a influência do discurso polifônico na formação do universo ficcional de Autran Dourado, tendo como principal referência os estudos empreendidos por Mikhail Bakhtin sobre polifonia (BAKHTIN, 2008 [1929]). A fim de desbastar o princípio composicional responsável pela urdidura da trama de efabulação do escritor mineiro, no intuito de verificar a transgressão do modelo tradicional de representação literária, adotar-se- ão fundamentalmente, como suporte teórico, as reflexões empreendidas por Dourado sobre a criação artística, tomando, para isso, seus ensaios Uma poética do romance: matéria de carpintaria (DOURADO, 1976) e O meu mestre imaginário (DOURADO, 1982), assim como os trabalhos realizados por Ronaldes de Mello e Souza (SOUZA, 2006-2007-2009- 2010). Como corpus para análise, os romances Confissões de Narciso e Os sinos da agonia serão utilizados com o propósito de legitimar a filiação da prática narrativa do ficcionista brasileiro a um matiz discursivo peculiarizado pela valorização irrestrita do fenômeno da alteridade, tencionando a elaboração de uma novelística fundamentada na consecução do drama de paixão de personagens mortas em vida. Nesse sentido, institui-se um texto dessacralizante, cujo narrador assume máscaras diversas, consubstanciadas em perspectivas e funcionalidades várias, com o objetivo de promover a construção e a desconstrução do universo de agonia e morte no qual os caracteres autranianos encontram-se insertos. Logo, visando imputar ao texto ficcional maior ritmo, privilegiando não somente as diversas vozes presentes, mas também possibilitando múltiplas montagens e leituras, Dourado emprega invariavelmente a técnica dos blocos narrativos na composição da estrutura arquitetônica de sua novelística, fomentando uma trama de efabulação plurissignificativa e dialógica, responsiva pela incessante interação dialética estabelecida entre leitor e obra invencionada. A busca pela isomorfia entre forma e conteúdo se compraz no engendramento de uma trama imagética, cujas imagens estabelecem a íntima correspondência entre mundo e homem agônicos, propiciando às personae fictae, tanto de Confissões de Narciso, como de Os sinos da agonia, a encenação de seus dramas existenciais em um ambiente regido pela força tanática, que encontra ressonância na adoção do tempo coagulado no passado e na constituição do espaço estagnado, numa evocação permanente à memória dos mortos. Com relação a este romance, faz-se ainda mister o minucioso exame do processo de carnavalização literária imputado ao ritual de morte em efígie, a fim de se compreender como ocorre a construção da mundividência de uma personagem morta em vida, Januário..

Maria de Fatima Vieira

Título: A ordem tos clíticos pronominais nas variedades urbanas europeia, brasileira e são-tomense: uma análise sociolinguística do português no início do século XXI

Orientador: Silvia Rodrigues Vieira 

Páginas:238

Resumo

Com o objetivo de investigar a colocação dos clíticos pronominais na modalidade oral da Língua Portuguesa, a presente tese utiliza dados do Português Europeu (PE), do Português Brasileiro (PB) e do Português de São Tomé (PST). A pesquisa tem como base (i) a Sociolinguística Variacionista (WEINREICH, LABOV & HERZOG, 1968); (ii) o tratamento dado aos temas gramaticais, como a colocação pronominal, a noção de complexos verbais, em estudos anteriores; e (iii) questões relacionadas a situação de contato linguístico. Pretende, assim, verificar se a regra de colocação pronominal nas três variedades é categórica, semicategórica ou variável (LABOV, 2003), além de mostrar, com base em análise comparativa dos dados, as semelhanças e diferenças entre os padrões verificados na língua do país colonizador (PE) e na dos países colonizados (PB e PST).
Para tanto, foram analisadas as estruturas com um constituinte verbal – lexias verbais simples – e com mais de um – complexos verbais. O corpus pertence ao banco de dados do projeto “Estudo comparado dos padrões de concordância em variedades africanas, brasileiras e europeias”. Todos os dados são de variedades urbanas do início do século XXI e podem ocupar, em relação às lexias verbais simples, as posições: proclítica (Não se senta), enclítica (Senta-se) ou mesoclítica (Sentar-se-á). Nos complexos verbais, os dados poderão aparecer antes do complexo verbal (Não se pode sentar), no interior, em ênclise a v1 ou em próclise a v2 (Pode(-)se sentar / Pode-se sempre sentar / Pode sempre se sentar) ou depois (Pode sentar-se).
Com o auxílio computacional do GOLDVARB-X, determinam-se as variáveis linguísticas e extralinguísticas importantes, em caso de regra variável. Foi possível, verificar que, no PB, a regra é semicategórica– variante pré-verbal/próclise a v2. No PE e no PST, há ênclise categórica em início absoluto de oração. Nos demais contextos, há variação nessas duas variedades, com preferência pela próclise em contextos com atratores; no PST, essa preferência ocorre em meio a maior oscilação nos mesmos contextos sintáticos – típica de uma língua em formação sobretudo em situação de intenso contato linguístico. Mesmo com a presença de proclisadores clássicos, a próclise não ocorreu de forma categórica no PE nem no PST e, nesta variedade, ocorreram alguns dados semelhantes aos brasileiros, como a próclise com sujeitos e conjunções coordenativas. Nos complexos verbais, a colocação pronominal nas duas variedades é sensível à forma do verbo principal: com gerúndio e particípio, ocorre a próclise ou a ênclise a v1; com infinitivo, há variação sensível ao tipo de complexo, ao tipo de clítico e ao elemento antecedente ao complexo.

Matheus Odorisi Marques

Título: Homofobia e referenciação: um estudo de caso

Orientador: Leonor Werneck dos Santos 

Páginas:197

Resumo

O propósito do trabalho é investigar como a identidade homossexual é construída no discurso do pastor da igreja neopentecostal Vitória em Cristo, Silas Malafaia, e a partir dessa análise, apontar o uso ideológico das estratégias referenciais. A escolha desse estudo de caso justificase pelo considerável espaço na mídia brasileira e notável incursão na política do pastor, que está constantemente envolvido em discussões polêmicas relativas a direitos da população LGBT. Em seus discursos, como demonstramos, a identidade homossexual é posta como prática, é desumanizada, categorizada como doença e o indivíduo é categorizado como inimigo e ameaça. Baseados no marco teórico da Linguística de Texto, com especial enfoque na referenciação, observaremos nas transcrições de pregações realizadas por Malafaia as estratégias utilizadas para fazer emergir a ideologia homofóbica. Além disso, abordaremos a Análise Crítica do Discurso, teoria que tem especial interesse em discursos de ódio, este inserido em uma relação intrínseca com sociedade e cognição. A construção da identidade homossexual no discurso de Malafaia é descrita por meio da investigação dos processos referenciais e da própria estrutura construtiva do texto. Dessa maneira, analisamos as escolhas lexicais na referenciação, assim como os movimentos referenciais que relacionam as predicações, e também a estruturação polarizada do discurso, que opõe os grupos sociais homossexuais e evangélicos. Percebemos e descrevemos, assim, a orientação realizada por meio dessas estratégias, que nos levam para a ideologia homofóbica, que por sua vez, aponta para crenças que excluem o indivíduo que diverge da heterossexualidade compulsória, marginalizando-o e criando uma realidade em que não há espaço para a sua existência.

Mayara Nicolau de Paula

Título: A ordem VS/SV e as interrogativas-Q no PE e no PB: uma análise diacrônica

Orientador: Maria Eugenia Lammoglia Duarte 

Páginas:147

Resumo

À luz do modelo de Princípios e Parâmetros (Chomsky, 1995), esta tese apresenta uma investigação diacrônica das interrogativas-Q no português europeu (PE), com base em uma amostra constituída de dados coletados em peças teatrais portuguesas, escritas ao longo dos séculos XIX e XX. Paralelamente, foi elaborada uma breve análise dos padrões de interrogativas Q encontrados entrevistas orais contemporâneas e em textos jornalísticos. Os resultados são comparados com os obtidos para as interrogativas Q do português brasileiro (PB), a partir de Duarte (1992) e Pinheiro e Marins (2012). Como o PE exibe comportamento de língua de sujeito nulo consistente, trabalho com a hipótese de que os sujeitos de primeira e segunda pessoas, bem como os anafóricos de terceira, devem exibir a preferência por sujeitos nulos. Em relação aos sujeitos expresso (DPs lexicais e pronomes), a gramática do PE deve apresentar a ordem V(erbo) S(ujeito) ativa e a ocorrência de S(ujeito) V(erbo) será condicionada pela presença da clivagem. Tomando o modelo de Competição de Gramáticas (Kroch, 1989, 2001) para a interpretação da mudança linguística, os resultados confirmam minha hipótese inicial: o PE exibe uma competição que envolve a ordem QVS, resquícios de uma gramática V2, que passa a QSV em consequência da entrada e generalização da clivagem, que vai se tornar o padrão mais frequente não apenas nas interrogativas QSV, mas também em QV (interrogativas com sujeito nulo). Já, o PB, que exibe resíduos de uma gramática V2, tal como o PE, nas três primeiras sincronias analisadas (século XIX e primeiro quartel do século XX), passa a exibir uma nova gramática, igualmente desencadeada pela entrada da clivagem, mas, a partir de então, generalizar a ordem QSV independentemente da clivagem, ao mesmo tempo que remarca o valor do Parâmetro do Sujeito Nulo. As evidências empíricas aqui encontradas sustentam a hipótese de que a ordem QSV no PE não está relacionada à perda do sujeito nulo, como ocorreu no PB. Uma discussão seguida da sistematização formal dos padrões de interrogativas Q atestados finaliza a análise.

Neide Higino da Silvaira e Silva

Título: Diferentes perspectivas sobre o formativo agro-: aspectos históricos, morfológicos e semânticos

Orientador: Carlos Alexandre Victorio Gonçalves 

Páginas:187

Resumo

O objetivo desta pesquisa é analisar o estatuto do formativo agro-, por meio de diferentes enfoques: histórico, morfológico e semântico. Essas perspectivas são utilizadas, uma vez que, pela observação dos dados, são reconhecidas, na Língua Portuguesa, duas formas de diferentes origens, agro- e agri-, do grego e do latim, respectivamente, com significados comuns, coexistindo no Português, a exemplo de agricultura e agronomia. Por isso, as implicações históricas dessas origens são verificadas na atual sincronia. A análise do estatuto morfológico dos formativos é feita a partir do continuum composição e derivação, como proposto por Bauer (2005) e Kastovsky (2009) e, posteriormente, implementado, para o português, por Gonçalves (2011b) e Gonçalves e Andrade (2012). As características do formativo são examinadas, a fim de encontrar seu posicionamento no referido continuum. Os dois elementos morfológicos, embora de origens distintas, possuem o mesmo significado genérico, campo, nas palavras advindas das línguas clássicas, como agrícola e agrônomo, ou em formações classificadas como “compostos neoclássicos”, a exemplo de agricultar e agrologia. No entanto, em novas construções, agro- assume diferentes sentidos, a exemplo de agricultura em agropecuária e produtos de origem agrícola em agrocombustível. O significado dos formativos relaciona-os a processos distintos: composição neoclássica ou recomposição. Por isso, os sentidos instanciados nas construções são examinados. O modelo baseado no uso (BYBEE, 2005, 2010), (LANGACKER, 2008) é o referencial linguístico que orienta esta pesquisa, uma vez que as estruturas investigadas são compreendidas como resultado de atividades cognitivas e sociais que se manifestam em mudanças linguísticas.

 

Paula Crespo Halfeld

Título: O modo de organização enunciativo no gênero blog: um estudo sobre subjetividade e diversidade contratual

Orientador: Maria Aparecida Lino Pauliukonis 

Páginas:212

Resumo

A pesquisa examina como o modo de organização enunciativo se manifesta em textos publicados em diferentes tipos de blog, agrupados nas seguintes categorias: blogs pessoais, jornalísticos, de entretenimento, de utilidades e de humor. Busca-se identificar e analisar quantitativa e qualitativamente as diversas modalidades enunciativas presentes nos textos, segundo elenco proposto por Charaudeau (2009b), bem como as categorias de língua que as materializam e os efeitos de sentido produzidos. Além disso, em um segundo momento, a tese investiga as diferentes classes de adjetivos subjetivos empregadas nos textos, com base em classificação de Kerbrat-Orecchioni (1997), e analisa sua relação com o quadro enunciativo delineado anteriormente. Para integrar o corpus do trabalho, foram selecionados vinte blogs brasileiros, quatro de cada categoria elencada. O estudo pretende responder às seguintes questões: 1) Qual a relação estabelecida entre o emprego de determinadas modalidades e categorias enunciativas e os diferentes tipos de blog, considerando o contrato de comunicação firmado entre autor e leitor? 2) Uma única categoria modal é capaz de produzir efeitos de sentido diversos a depender do tipo de blog ou dos objetivos específicos dos textos? 3) De que maneira as particularidades enunciativas observadas nos diversos tipos de blog se refletem na seleção lexical, propriamente na escolha dos adjetivos subjetivos? Para fomentar a pesquisa, são adotados, sobretudo, os postulados teóricos da Análise do Discurso, notadamente da Semiolinguística. De modo geral, pretende-se jogar luz sobre a diversidade de estratégias discursivas presentes no gênero digital blog e sobre as particularidades da relação de coautoria estabelecida entre autor e leitor nesse espaço.

Rachel de Oliveira Pereira Lucena

Título: Pronomes possessivos de segunda pessoa: a variação teu/seu em uma perspectiva histórica

Orientador: Célia Regina dos Santos Lopes 

Páginas:220

Resumo

O presente estudo objetiva analisar a variação existente entre as formas simples de pronomes possessivos de segunda pessoa do singular, isto é, teu/tua/seu/sua, diacronicamente, no português brasileiro, buscando explicar o que o motiva tal variação e observar em especial o comportamento do pronome seu. Para a realização deste trabalho, pretende-se realizar duas etapas distintas de análise da variação possessiva. Primeiro, será realizado um estudo de longa duração (1870 a 1970), com base em cartas pessoais, verificando os contextos linguísticos e extralinguísticos que influenciam na variação entre os pronomes possessivos referentes à segunda pessoa. Para tanto, a análise quantitativa e qualitativa dos dados baseia-se nos pressupostos da sociolinguística variacionista (LABOV, 1994; WEINREICH; HERZOG; LABOV, 1968). Além disso, na análise dos pronomes possessivos serão observadas também as situações comunicativas em que os pronomes estão inseridos, observando as relações de poder na ótica da teoria de Poder e Solidariedade proposta por Brown e Gilman (1960). Assim sendo, o presente estudo possui duas hipóteses norteadoras. A primeira é a de que a forma você é um fator condicionante para o emprego de seu como forma possessiva de segunda pessoa. Assim, acredita-se que o pronome possessivo acompanhou a utilização do sujeito até ter seu uso generalizado. A outra hipótese que orienta o estudo é a de que o pronome possessivo de segunda pessoa seu/sua é extremamente dependente do contexto comunicativo em que ele está inserido. Em síntese, a tese mostra que a utilização de seu como estratégia de referência à segunda pessoa está intrinsecamente relacionada à inserção de você no quadro de pronomes do português brasileiro. Além disso, a categoria pronome possessivo mostra-se com comportamento diferenciado dos demais subtipos pronominais.

Rafael Barbosa Julião

Título: Infinitivamente pessoal: a verdade tropical de Caetano Veloso

Orientador: Eucanaã Ferraz 

Páginas: 387

Resumo

Observa-se no conjunto das produções de Caetano Veloso (tanto no cancioneiro, quanto nas publicações em prosa) uma peculiar aptidão para fundir questões privadas com discussões públicas. Em Verdade tropical de 1997, obra em que o autor conta a história do tropicalismo a partir de sua perspectiva pessoal, essa combinação resulta em uma forma original de discutir e de interpretar o Brasil e sua cultura. O presente estudo propõe a tese de que a fusão entre o pessoal e o público, projeta-se estruturalmente no caráter híbrido do livro de Caetano Veloso, em que se equilibram autobiografia, história do tropicalismo (e da canção popular brasileira) e ensaio de nacionalidade.

Rafael Loureiro de Almeida

Título: Martins Pena: a tragicomédia de um dramaturgo brasileiro

Orientador: Adauri Silva Bastos 

Páginas: 212

Resumo

Diante da perspectiva de expor a história e a obra de Martins Pena (1815-1848) de maneira aprofundada, debruçamo-nos sobre diversos documentos, manuscritos e publicações do século XIX. O objetivo era fortalecer a posição de um dos maiores comediógrafos brasileiros, mediante a refeitura de partes de sua biografia de maneira crítica, ou seja, perscrutando os dados úteis ao entendimento de sua obra. Nesse sentido, foram de especial valia as documentações encontradas na Biblioteca Nacional, nos arquivos nacionais do Brasil e da Inglaterra, entre outros acervos.
Vimos com especial interesse os registros de leitura de Martins Pena na Biblioteca Nacional, nos quais são listadas algumas das publicações com que ele teve contato. Também valorizamos o estudo dos periódicos da época, entre os quais descobrimos dois contos de nosso autor. Além disso, repensamos sua trajetória desde o nascimento, passando pela infância, a formação na Aula do Comércio e a carreira de jornalista, dramaturgo, comediógrafo e colunista. Esperamos, assim, ter criado uma base melhor para compreender o contexto em que Martins Pena criou a mais bem-sucedida obra teatral entre seus contemporâneos brasileiros.

Regina Simões Alves

Título: Construções sufixais de aumentativo: uma análise com base na gramática das construções

Orientador: Carlos Alexandre Gonçalves e Maria Lucia Leitão de Almeida Páginas:170

Resumo

Este trabalho surge do questionamento sobre o porquê de se ter na língua portuguesa tantos afixos com sentido de aumento, a exemplo de -ão, -aço, -ada, -aria, -eiro (a), -udo, -ento e -oso. Estamos diante de diferentes sufixos que podem ser adjungidos a uma mesma base e cujos produtos não compartilham, na maioria das vezes, da mesma interpretação, como em “cabelão”, “cabelada”, “cabeleira”, “cabeludo”, “piolhão”, “piolhaço”, “piolhento”, “piolhada”, “piolhudo” etc. Alguns afixos passaram a imprimir o sentido de aumento, de acordo com a sua história, mesmo quando a língua já dispunha de outros formativos para esse fim. O trabalho visa a apresentar abordagens históricas desses afixos que figuram em construções de aumento e observar a inflexão aumentativa adquirida por eles ao longo da história através dos dados coletados em compêndios de gramática histórica (SAID ALI, 1966; COUTINHO, 1968; MACHADO, 1967) e, principalmente, em dicionários etimológicos e eletrônicos. Boa parte dos dados provém da consulta à base de dados de “Corpus do Português”. A partir da constatação da afinidade semântica entre esses sufixos, é possível observar a relação semântica de aumento existente entre eles no processo de formação de palavras e defender que, de acordo com os princípios de Poder da Força Expressiva Maximizado e do Princípio de Não Sinonímia de Goldberg (1995), essas formas não são sinônimas e surgiram para atender as necessidades comunicativas dos falantes, fato que explicaria a mudança que os dotou da capacidade de atualizar essa noção de aumento numa mesma base, ora com especificidades semânticas, ora com diferenças pragmáticas. Também propomos a formalização da construção genérica de aumentativo e uma rede das construções de aumentativo, bem como os links de herança dessas construções.

Renata Quintella de Oliveira

Título da tese: Argumentação e

Título: Um olhar “perverso”: percorrendo O Reino, de Gonçalo M. Tavares

Orientador: Ângela Beatriz de Carvalho Faria 

Páginas:341

Resumo

Na tetralogia O Reino, de Gonçalo M. Tavares, também denominada pelo próprio autor de Livros Pretos e composta pelos romances Um homem: Klaus Klump, A Máquina de Joseph Walser, Jerusalém e Aprender a rezar na era da técnica, a “Estética da Crueldade” está fortemente presente, seja através dos temas, que exploram a violência, a maldade e a desumanização, seja através da forma com que o autor elabora a tessitura narrativa. Em nossa análise, filiamos esse grupo de livros à “Estética da Crueldade”, como veremos através das discussões esboçadas por diversos ensaístas que compõem a coletânea Estéticas da Crueldade, organizada por Ângela Maria Dias e Paula Glenadel, assim como através de menções a Antonin Artaud e Clément Rosset. Também serão fundamentais para este trabalho a alusão às reflexões propostas por Theodor Adorno e Hannah Arendt, em relação aos mecanismos que conduziram aos regimes totalitários e Michel Foucault, quando este se dedica ao estudo dos mecanismos de vigilância e punição. Assim como a crueldade, é flagrante nesses romances também a abordagem em torno da abjeção, outro ponto fundamental nas obras selecionadas. Estabelece-se, também, um diálogo original com Atlas do Corpo e da Imaginação, obra tavariana que alia criação literária com reflexões teóricas do próprio Gonçalo M. Tavares e que, até o presente momento, ainda não fora incluída em Dissertações de Mestrado e/ou Teses de Doutorado incorporadas ao presente trabalho, fundamentais para iluminar as nossas reflexões críticas.

Rodrigo Carvalho da Silveira

Título: A poética do réu em Marília de Dirceu, de Tomás Antonio Gonzaga

Orientador: Godofredo de Oliveira Neto 

Páginas:131

Resumo

Pensar, falar, argumentar, persuadir, convencer. O escritor ao lidar com a palavra passa por diversos processos de construção de discurso. O poeta recolhe os elementos, recorta-os, seleciona-os, dá luz a determinados objetos, empalidece outros, escamoteia outros mais e dá papéis de protagonista a determinados detalhes. Ele escolhe o que nos deseja apresentar e através de sua organização e de seu olhar, é possível analisar e perceber os segredos do texto.
Desta forma, Tomás Antonio Gonzaga, em seus poemas que compõem Marília de Dirceu, utiliza como mecanismo estruturador de seu livro a retórica de gênero judiciário, transforma a linguagem retórica do direito em linguagem literária, reunindo em sua poética ambas as linguagens. Aristóteles define o gênero judiciário como uma ação que “comporta a acusação e a defesa”, neste caso, o que importa ao poeta é a defesa, que é dividida em duas grandes partes: defesa como noivo ideal e defesa como inocente da acusação de participante da Inconfidência Mineira. Estas formas de defesa correspondem à Parte 1 e à Parte 2, respectivamente, do livro de poemas Marília de Dirceu.
Diante disso, o trabalho pretende estudar Marília de Dirceu, de Tomás Antônio Gonzaga, através da visão das duas partes como componentes de um todo orgânico, portador de um sentido e organizado através de um eixo estruturador: a retórica de gênero judiciário, que engloba em si o “lirismo amoroso tecido à volta de uma experiência concreta” e “o roteiro de uma personalidade, que se analisa e expõe, a pretexto da referida experiência”. A esta forma lírica de Tomás Antonio Gonzaga chamaremos de “A poética do réu”.

Talita Silveira Coriolano

Título: As performances do narrador em Lygia Bojunga

Orientador: Godofredo de Oliveira Neto 

Páginas: 159

Resumo

Lygia Bojunga, escritora gaúcha com 21 livros publicados, é conhecida e reconhecida como autora de livros infanto-juvenis. Basta observar algumas das premiações a ela concedidas, como o Hans Christian Andersen, mais tradicional prêmio internacional para crianças e jovens, obtido em 1982 pelo conjunto da obra. Mas uma análise de seu trajeto literário revela que seu processo criativo foi se modificando, a ponto de atualmente ser questionável o direcionamento ao referido público. Identificamos a chamada trilogia do livro (LIVRO: Um Encontro com Lygia Bojunga, Fazendo Ana Paz e Paisagem) como o divisor de águas, a partir dessa trilogia observamos a presença de uma primeira pessoa híbrida, indecisa, ambígua, oscilando entre o referencial e o ficcional. Nosso corpus abarca justamente os seus livros em que a narração está em primeira pessoa, são eles: a trilogia acima mencionada, Feito à Mão, O Rio e Eu e Retratos de Carolina. Abordaremos alguns aspectos presentes em sua narrativa que a tornam singular, como os jogos de equívoco, o desdobramento em camadas e a simbologia das máscaras, bem como refletiremos acerca da relação da narrativa com o leitor. Por fim estudaremos as performances desse narrador ambíguo, que desvela o seu processo criativo ao mesmo tempo em que desnuda a ficção como ficção, oscilando nessa tensão entre o referencial e o ficcional.

Tiana Andreza Melo Antunes

Título: Estados de alma e suplementos televisivos: uma análise semiótica

Orientador: Regina Souza Gomes 

Páginas:232

Resumo

Nosso trabalho analisa as paixões presentes nos suplementos televisivos de três jornais impressos que circulam no Rio de Janeiro (O Globo, Extra e O Dia), a partir da teoria semiótica de base francesa. O estudo das paixões permite compreender a complexidade das narrativas, observando não somente o fazer dos sujeitos, mas também o ser. Ao recair sobre o ser, explicam-se as transformações passionais. Dentro da semiótica francesa, as paixões são os estados de alma dos sujeitos analisáveis a partir das modalidades, da aspectualização e da tensividade. A importância deste estudo consiste em tecer, a partir da escolha teórica feita, uma análise das paixões em material ainda não descrito em termos semióticos. O corpus permite delinear as paixões mais recorrentes desse discurso que trata do universo televisivo e, por outro lado, revelar a associação entre paixão e cultura, pois a “dimensão afetiva […] é particularmente sensível aos parâmetros culturais em vigor”, de acordo com Fontanille (2012, p. 214). Pode-se afirmar, após a análise do corpus, que há determinados efeitos passionais que ganham maior relevo nos textos estudados, compondo uma verdadeira “configuração discursiva” (Fiorin, 2011, p. 107). Além disso, é possível atrelar certas paixões, como o amor, a temas como proteção (o amor parental) e submissão (amor romântico), por exemplo. Com os textos de tais suplementos, é possível desvelar também como o observador social julga e sanciona os comportamentos dos sujeitos e a presença de um narrador desprovido de um dizer apaixonado.

 

Silvio César Santos

Título:Antes Tarde do que Nunca – Analisando a Construção Comparativa de Preferencialidade

Orientadora:Maria Lúcia Leitão de Almeida 

Páginas: 199

Resumo

O tema dessa pesquisa se enquadra no âmbito analítico das construções do Português do Brasil (PB) e toma por objeto de estudo uma construção que se encontra em um nódulo da rede construcional comparativa. A Construção Comparativa de Preferencialidade [Antes tarde do que nunca] caracteriza-se principalmente por apresentar a semântica comparativa adjungida e integrada à semântica de preferencialidade, em que a função discursiva se traduz em um aprendizado adquirido a partir de um evento, mormente, uma pequena narrativa. Essa construção não possui uma descrição efetiva nos manuais gramaticais abordados na revisão da literatura e também não foi encontrada nenhuma análise, seja de viés Funcionalista, Gerativista ou Cognitivista. A construção possui forma e significado diversos das construções comparativas prototípicas, uma vez que seu elemento graduador se encontra sempre à esquerda e, quando integrado à estrutura composta comparativa, forma um conglomerado semântico que reúne os conceitos de comparação e preferencialidade. A construção analisada se difere dos provérbios prototípicos por não apresentar sua estrutura cristalizada, podendo ter alguns de seus componentes permutados [Antes ele do que eu]. A pesquisa adota a metodologia qualitativa, privilegiando, dessa maneira, as estruturas semânticas e sintáticas da construção, pois o objetivo principal será a descrição e atualização de uma nova construção da rede construcional comparativa. O aporte teórico utilizado nessa pesquisa consiste, principalmente, na abordagem construcional de Langacker (2008) e os Esquemas Imagéticos (JOHNSON e LAKOFF, 1980; JOHNSON, 1987).

Abigail Ribeiro Gomes

Título da tese: Mitigando a dor dos irreconciliáveis: Leite Moraes e Macunaíma

Orientador(a): Godofredo de Oliveira Neto

Ano da defesa: 2019

Páginas: 220

Resumo

Esta tese aborda dois heróis: duas personagens que empreenderam sagas, fizeram trajetos, encenaram ações, pintaram cenários. De tudo isso surgiram ‘relatos’, narrativas sobre eles, deslocados, integrantes e/ou protagonistas de seus espaços e contextos. As duas personagens são Joaquim de Almeida Leite Moraes, autor e protagonista de Apontamentos de Viagem, e Macunaíma, protagonista da rapsódia homônima de Mário de Andrade. Macunaíma é, sabidamente, uma obra que estabelece relações com diversas outras obras, como o próprio autor mostrou nos prefácios da obra e como muitos estudiosos da rapsódia também já demonstraram. Porém, pouco se escreveu acerca da relação estabelecida entre as obras de avô e neto, além da menção ao parentesco. Assim, esta tese verifica em que termos se estabelece a relação-diálogo entre os livros de Leite Moraes e de Mário de Andrade. As observações se dão em dados comparativos das obras, considerando: a formulação de uma historicidade não existente em termos de tradição e cultura literária nacional anterior às referidas obras e ao forjamento de um ‘herói’; o posicionamento de cada um desses ‘heróis-protagonistas’ nos espaços e nas culturas apresentadas nas obras, nas suas condições de inseridos em uma cultura diversa e reinseridos em suas culturas de origem, porém modificados; a narração das ações e dos ‘causos’, observando em especial como os cenários são pintados e as ações são encenadas, os recursos estéticos utilizados para a realização da pintura-encenação e como se deu o processo narrativo de cada obra. Desta forma, a tese apresenta a relação entre Leite Moraes e Macunaíma prioritariamente, entre protagonistas e condutores dos fatos da narrativa; propõe, além disso, uma outra forma de diálogo estabelecida por Mário de Andrade na composição de sua rapsódia e insere nos estudos literários a obra de Leite Moraes, ainda não observada neste campo do conhecimento.

Palavras-chave: Alunos(as). Livro didático. Ideologias. Processo de ensino-aprendizagem. Inglês como língua adicional.

Abstract

This research approaches two heroes: two characters who lived sagas, passed trajectories, staged actions, painted sceneries. From all of that reports emerged, narrations about those men who were displaced, protagonists and/or part of their spaces and contexts. The two characters are Joaquim de Almeida Leite Moraes, author and protagonist of Apontamentos de Viagem, and Macunaíma, protagonist of the homonym rhapsody written by Mário de Andrade. Macunaíma is known as a work which stablishes relations with many other works, as its author presented in its prefaces and as many studies have also demonstrated. However, it has been written very little about the relation between the works made by grandfather and grandson, beyond the family relationship. Therefore, this thesis checks the aspects of the relation-dialogue between the books written by Leite Moraes e Mário de Andrade. The observations are made to stablish comparisons, considering: the formulation of a historicity, non-existent in terms of tradition and national literary culture before both books and the formulation of a ‘hero’; the places and the postures of these ‘protagonist-heroes’ in the places and the cultures presented during the stories, their conditions as inserted in a diverse culture and reinserted in their own culture after being modified; the narrations of actions and ‘stories’, considering specially the way the sceneries were painted and the actions were performed, the aesthetic resources used to make the paintingperformance and the way the narrative process happened in each work. This way, the thesis presents the relation between Leite Moraes and Macunaíma primarily, between protagonists and conductors of the facts of their narratives; the thesis also proposes another way of dialogue stablished by Mário de Andrade for the composition of his rhapsody and it includes the work made by Leite Moraes in the literary studies , which has not been observed in this field of knowledge yet.

 

Vanderney Lopes da Gama

Título: A narrativa insólita em Murilo Rubião: um fantástico inquietante e moderno

Orientador: Alcmeno Bastos 

Páginas:170

Resumo

Esta tese tem por objetivo a narrativa insólita de Murilo Rubião, estudada sob óptica existencialista. No entanto, nela, serão discutidas desde as ideias mais tradicionais da narrativa fantástica, seguindo a linha de pensamento de T. Todorov e de Filipe Furtado, até as contribuições mais contemporâneas sobre o tema. Contudo, dentro dessa nova abordagem possível da literatura fantástica moderna, a teoria existencialista de Jean Paul Sartre será elencada como aquela que melhor se aplica às narrativas do escritor mineiro, uma vez que, para o filósofo, o único ser realmente fantástico na atualidade é o homem. Segundo ainda Sartre, o fantástico contemporâneo não necessita de seres sobrenaturais, mortos-vivos, fantasmas, nem de castelos mal-assombrados ou cemitérios, porque o elemento fantástico está preso ao cotidiano do homem [e no homem] que vive tanto nas grandes cidades como nas do interior. Ele é o indivíduo no qual se manifestam as crises pelas quais a humanidade tem passado, as consequências diretas do progresso e da vida tal qual é conhecida.
Dos trinta e quatro contos apresentados aqui, apenas trinta e dois foram publicados quando Murilo Rubião ainda estava vivo. ―A diáspora‖, conto esquecido em um banco de taxi, só foi publicado depois da morte do autor e depois de uma extenuante procura. O conto ―As unhas‖ só chegou recentemente ao conhecimento do público graças à doação da família do escritor ao Centro de Estudos Literários da Faculdade de Letras da UFMG, sendo selecionado pela Profª. Vera Lúcia Andrade, atual diretora do CEL, e pela bolsista de Iniciação Científica Ana Cristina Pimenta da Costa Val

TESES DEFENDIDAS EM 2015

Total de teses defendidas: 20

Alessandra de Paula Santos

Título: Variação e mudança no vocalismo postônico medial em português

Orientador: Silvia Figueiredo Brandão 

Páginas: 228

Resumo

No português brasileiro, o processo de alteamento que atinge as vogais médias átonas implementa-se em contexto postônico medial plenamente no que se refere à vogal posterior (abób/o/ra > abób[u]ra) mas encontra resistência no âmbito da vogal anterior (pêss/e/go > pêss[e]gu ~ pêss[i]gu). Câmara Jr (1977) e Wetzels (1992) defendem a assimetria no processo de neutralização que atinge, de um lado, as médias e altas posteriores /ç, o, u/ e, de outro, as médias anteriores /E, e/, o que acarreta um sistema de quatro fonemas – /i, e, a, u/. Bisol (2003) afirma que processo é simétrico com a flutuação entre dois sistemas, o de cinco vogais – /i e a o u/ – e o de três vogais – /i a u/ – típicos, respectivamente, dos contextos pretônico e postônico final. A pesquisa sociolinguística variacionista investigou o fenômeno nas fala culta e popular do Estado do Rio de Janeiro e da região de Lisboa, comparando amostras levantadas nas décadas de 1970 e 1980 e na primeira década de 2000, nas duas regiões. Os resultados indicam que, na fala fluminense, as vogais médias anteriores e posteriores estão em plena variação com as altas nas duas sincronias. O alteamento é praticamente categórico na fala espontânea de pessoas que estudaram até o Ensino Fundamental, mas é inibido no âmbito de /e/ com o aumento da escolaridade e do monitoramento do discurso, que foi controlado com a aplicação de um questionário e um teste de leitura. A observação pontual dos dados demonstrou que o fenômeno é lexicalmente restrito e pode ser implementado ou refreado no nível individual dos falantes fluminenses. Já na fala lisboeta, a redução das vogais é categórica em [ˆ, u], refletindo a proposta de muitos autores, especialmente Mateus & Andrade (2000), para o português europeu. Os resultados da fala fluminense, conjugados com outras pesquisas, levam à conclusão de que a instabilidade na implementação do alteamento no Brasil só existe no nível fonético, pela variação entre [e] e [i], e a mudança já está prevista no nível subjacente, que apresenta os fonemas /i a u/, à semelhança do contexto postônico final.

Clarisse Fukelman

Título: Roupas, objetos e espaços: a cultural material em Clarice Lispector

Orientador: Antonio Carlos Secchin 

Páginas:237

Resumo

A proposta da tese é desenvolver uma leitura da obra de Clarice Lispector, considerando o objeto e o espaço ficcionais, conceitos estabelecidos a partir do diálogo com a antropologia, as artes Visuais e a comunicação Social. Na antropologia, o objeto e o espaço visível e tangível são concebidos como campos de mediação em que se desenvolvem experiências sociais, culturais, sensoriais e afetivas. As artes visuais oferecem parte substantiva do referencial teórico sobre espaço e objeto, desde a inserção do objeto cotidiano nas obras até as buscas de novas formas de interatividade no processo criativo. Teorias da comunicação desenvolvidas por expoentes da Teoria Crítica (especialmente Walter Benjamin), dão subsídios para observar a forma pela qual a autora discute o homem moderno e pós-moderno – a fratura na comunicação, a memória, a mercantilização de valores, a infância, a velhice e a subjugação da mulher. A convocação de operadores de leitura de outros domínios valoriza a arquitetura fluida do texto e os movimentos andarilhos dos personagens claricianos – o que pede, a nosso ver, um tratamento prismático.
São estudados diversos tipos de texto da escritora (contos, cartas, romances, crônicas, entrevistas) em que objetos ficcionais expressam e elaboram subjetividades (individuais e coletivas) em momentos de crise, reflexão ou ruptura com o tempo cotdiano e/ou com laços afetivos.

Elaine Alves Santos Melo

Título: Construções de tópico sujeito: um caso de mudança na expressão da posse externa do PB

Orientador: Silvia Regina de Oliveira Cavalcante 

Páginas: 181

Resumo

Esta tese examina a sintaxe das construções de tópico sujeito no PB, tais como “o celular acabou a bateria”, com o objetivo de discutir: (i) a descrição das construções de tópico sujeito que envolvem um DP [+possuidor] na posição de sujeito; (ii) a origem dessas construções; (iii) e uma proposta de análise teórica, considerando os pressupostos da Teoria Gerativa em sua versão Minimalista (CHOMSKY, 1995; 1998, 2001). Os dados analisados advêm de uma amostra constituída por buscas on line e falas espontâneas e por um corpus formado por peças de teatro e Sermões e Cartas, escritos por autores portugueses e brasileiros, nascidos entre os séculos XVI e XX.
Neste trabalho, defendo que nas construções de tópico sujeito do português brasileiro que envolvem um DP [+possuidor] na posição de sujeito, há a estrutura de posse externa (PAYNE e BARSHI, 1999), que ocorre quando há posse inalienável ou meronímica, com verbos inacusativos que indicam mudança de estado. A análise diacrônica mostra que a emergência desse tipo de construção está relacionada a uma mudança na sintaxe da posse externa que deixa de ser expressa pelo clítico dativo “lhe” e passa a ocorrer com um DP [+possuidor] Nominativo que ocupa a posição de [SpecTP]. A análise diacrônica, que considera também fatores sócio históricos do Brasil do século XIX, permite discutir se a emergência do tópico sujeito está relacionada à influência das línguas bantu, conforme proposto por Avelar e Cyrino (2008), Avelar e Galves (2013), Avelar (2015) ou à mudança no paradigma pronominal do português brasileiro (KATO, 2015). Defendo ao longo da tese, que a emergência do tópico sujeito tem como gatilho a mudança no paradigma pronominal. Proponho que, na derivação do tópico sujeito, a numeração não contém a preposição capaz de checar o Caso genitivo do DP [+possuidor] e é a ausência dessa preposição que torna necessário o alçamento deste DP para [Spec-TP] para que o Caso seja checado e o traço de EPP satisfeito

Fabiana Esteves Neves

Título da tese: Sena do Mundo

Título: Letramento linguístico acadêmico de estudantes universitárias/os: gerenciamento metalinguístico na leitura e na escrita

Orientador: Ana Flávia Lopes Magela Gerdhardt 

Páginas: 326

Resumo

A leitura e a escrita acadêmica no Ensino Superior constituem tema controverso tanto para estudantes quanto para professoras/es universitárias/os. Das queixas sobre os textos produzidos à falta de uma orientação realmente efetiva para a produção, os diversos problemas acabam por desvelar consequências das lacunas no ensino de língua em nível Fundamental e Médio, além de inadequações em torno da concepção de leitura/escrita no próprio contexto universitário. Em uma perspectiva cognitiva e metacognitiva, a qual privilegia o enfoque da pessoa que (meta)cogniza (GERHARDT, 2013), esta pesquisa parte dos gêneros textuais artigo teórico e par pergunta-resposta para investigar e descrever o perfil de letramento linguístico acadêmico de estudantes universitárias/os. Dentre os objetivos, está o de pormenorizar o que se está chamando de cognição escolar definicional, por meio da qual é privilegiada a apresentação apenas de conceitos, em respostas a questões discursivas que requerem a relação entre conceitos e fenômenos – portanto, que demandam a atuação de uma cognição relacional (GENTNER e LOEWENSTEIN, 2002). Propõe-se o delineamento do quadro teórico acerca do letramento linguístico acadêmico: o fundamento desta investigação é o arcabouço conceitual proposto por Ravid & Tolchinsky (2002), segundo o qual o letramento linguístico é um aspecto do conhecimento linguístico específico da escrita, configurado tanto pelo (re)conhecimento de uma diversidade de recursos de linguagem quanto pelo acesso consciente a esses recursos (o aspecto meta), para utilizá-los conforme convier. Essa consciência metacognitiva se especifica no conhecimento metalinguístico, que consiste, segundo Gombert (1992), no monitoramento e planejamento intencionais das estratégias pessoais de processamento linguístico na compreensão e na produção de textos. Completam o quadro teórico os quatro níveis de leitura de Applegate e cols. (2002) – literal, inferencial baixo, inferencial alto e inferencial global – e a proposta de ações com a escrita (BRITTON e COLS., 1975; NEWELL, 2006): reportar, sumarizar, analisar e teorizar. Quanto à metodologia, foram aplicados dois roteiros de leitura sobre um artigo acadêmico teórico a turmas da disciplina Teoria das Relações Internacionais I, do 3º período de Relações Internacionais de um centro universitário privado em Niterói, RJ. Pretendeu-se, com esses roteiros: detectar os níveis de leitura atingidos; compreender e contextualizar a percepção das/os estudantes acerca das ações com a escrita na organização do texto acadêmico; compará-la às características do letramento linguístico acadêmico aqui propostas. Verificou-se que o nível de leitura 4, inferencial global, é o menos contemplado, e que as ações mais reconhecidas são reportar e sumarizar, por meio das quais as/os estudantes também constroem suas respostas. Por isso, é frequente a ocorrência de interpretações fragmentadas e pouco abrangentes, assim como de conceituações e descrições apenas, nas quais falta a percepção do caráter analítico-teórico do artigo lido. Identificou-se que essa dificuldade resulta da pouca familiaridade das/os estudantes com as estratégias metacognitivas e metalinguísticas inerentes às atividades com a leitura e a escrita, estratégias que o ensino escolar, em geral, não explora. Pretende-se, assim, chamar atenção para a importância de fundamentar as propostas de ensino da escrita acadêmica no conhecimento sobre a forma como as pessoas (meta)cognizam quando leem e escrevem no contexto universitário.

Gabriela Machado Ventura

Título: Sobre jardins, cavernas e estrelas: vida, arte e morte em Gémeos, de Mário Cláudio

Orientador: Teresa Cristina Cerdeira da Silva 

Páginas: 243

Resumo

Gémeos, do escritor português Mário Cláudio é um romance que se constrói a partir de três imagens primordiais: jardins, cavernas e estrelas. A partir desses três elementos (dois espaços físicos contrastantes e corpos celestes vislumbrados à distância), o escritor discutirá temas como a velhice, a morte, o exílio, a arte versus a destruição da guerra, a potência criadora da maturidade e a potência sexual da juventude. Separados por séculos, um Pesquisador no Museu (que se adivinha ser o Prado) apoia-se no estilo tardio de Goya para a composição de seu atormentado Dom Francisco, dividido entre os últimos estertores de um corpo que não mais o aguenta e uma explosão criativa que preencherá as paredes da Quinta do Sordo com as famosas Pinturas Negras. A proposta desta tese é a de ler o romance Gémeos, a partir de três vieses distintos, mas complementares: a consciência da morte como impulsionadora do fazer artístico; os limites da representação ante a violência e a morte; e a exploração de certas imagens obsessivas do romance, procurando suas múltiplas significações que sabemos, contudo, eternamente metamorfoseáveis.

Jefferson Eduardo Pereira Bessa

Título:“Aparecera em mim o meu Mestre”: a poesia dramática e o Outro em Fernando Pessoa e Alberto Caeiro

Orientador: Jorge Fernandes da Silveira 

Páginas:156

Resumo

O estudo se propõe a ler a relação entre Fernando Pessoa e Alberto Caeiro a partir da afirmação de que este aparece como Mestre daquele. Para tanto, a dramaticidade guiará a leitura. Ressalta-se que a dramaticidade não se restringe ao gênero dramático, pois ela assume uma dimensão que perpassa “essencialmente” a poesia de Pessoa. Ao mesmo tempo, a dramaticidade abrirá ao estudo a compreensão da alteridade presente na ortonímia e na heteronímia (sobretudo, Alberto Caeiro). Ou seja, a dramaticidade se apresenta na despersonalização como o gesto de acolher o Outro. No momento seguinte, lê-se o poema “O guardador de rebanhos”, seguindo questões suscitadas pela obra. A leitura do poema se faz a fim de que se exercitem questões que podem ter sido relevantes para que Caeiro seja considerado Mestre por seus leitores, sobretudo Fernando Pessoa, Ricardo Reis e Álvaro de Campos.

Jorge Fernando Barbosa do Amaral

Título: A literatura brasileira e a monstruosidade negra nos portões da diferença

Orientador: Rosa Maria de Carvalho Gens e Julio Cesar França Pereira 

Páginas:191

Resumo

Este trabalho investiga as três novelas que compõem As vítimas-algozes, de Joaquim Manuel de Macedo, e os romances A escrava Isaura, de Bernardo Guimarães, e O presidente negro, de Monteiro Lobato. O objetivo é examinar as formas de retratar o negro como monstro na produção oitocentista pró-abolição e na literatura simpática aos movimentos eugênicos, que tiveram força no Brasil nas primeiras décadas do século XX. Inicialmente, o estudo investiga os traços do pensamento iluminista que ajudaram a criar uma visão negativa da África e de sua diáspora, e analisa como esse pensamento influenciou o processo de formação do cenário ideológico brasileiro. A partir daí, o trabalho passa a investigar os mecanismos que fizeram com que esse cenário ideológico pudesse possibilitar o desenvolvimento tanto de uma produção literária abolicionista – que reivindicava a liberdade do escravo ao mesmo tempo em que reconhecia a sua suposta inferioridade como ser humano –, quanto de uma literatura eugênica – que vislumbrava que o Brasil, em algumas décadas, se veria livre de qualquer vestígio de sua ascendência africana. A pesquisa toma como base teórica os estudos sobre a categoria estética do Grotesco, de Mikhail Bakhtin e Wolfgang Kayser, e a teoria cultural da Monstruosidade, de Jeffrey Jerome Cohen, no sentido de se compreender como se pode atribuir qualidades grotescas e monstruosas a um determinado grupo humano, com base apenas na fronteira estabelecida pelas diferenças culturais.

José Filipe Mendonça da Conceição

Título:O erotismo na poesia de Armando Freitas Filho

Orientador: Eucanaã Ferraz 

Páginas: 203

Resumo

O erotismo na poesia de Armando Freitas Filho. A cidade na formação da cena e dos protagonistas das relações eróticas, o amor na esfera da violência e da violação, vida e morte, prazer e realidade, eros e civilização como princípios em conflito na consecução amorosa, afeto e agressividade na esteira dos sentimentos tabus, amar em tempos de consumo e a memória e a imaginação na construção de uma biografia amorosa e familiar, bem como do devir erótico.

Lilian Ribeiro Furtado

Título:Explicação e restrição: uma perspectiva cognitivista

Orientador: Maria Lúcia Leitão de Almeida 

Páginas: 272

Resumo

O presente trabalho analisa as orações relativas explicativas e restritivas presentes no corpus do grupo de estudos Discurso & Gramática sob a perspectiva semântica e pragmática das construções relativas na interação comunicativa. Para isso, consideramos que os interlocutores têm a necessidade de produzir um efeito real da mensagem no momento de elaboração dos seus textos (escrito ou oral), viabilizando o compartilhamento do mesmo nível de conhecimento no mesmo intervalo de tempo. Assim, considerando que a informação é uma composição de informações velhas com informações novas, podemos entender a codificação do falante em uma oração relativa explicativa ou restritiva. Do ponto de vista semântico, as orações relativas são diferentes e selecionadas a partir do nível de conhecimento compartilhado entre os interlocutores sobre determinado assunto. Vamos verificar, no decorrer do trabalho, que as orações relativas restritivas são introdutoras de informação dada e que as orações relativas explicativas são introdutoras de informações novas. Com isso, a necessidade ou não de detalhamento das informações vai surgindo à medida que o falante percebe, no decorrer do discurso, a necessidade de ajustar as informações para um mesmo nível informacional. Após esse entendimento, será possível entender como o falante identifica e utiliza com maestria as construções relativas, levando em conta os princípios da teoria multissistêmica relacionada ao dispositivo sociocognitivo.

Márcia de Oliveira Alfama Buser

Título: Imagem e Contra-imagem do Império Português: “Os Trabalhos e os Dias” de Jorge de Sena e de Rui Knopfli

Orientador: Jorge Fernandes sa Silveira e Carmen Lúcia Tindó Ribeiro Secco 

Páginas:197

Resumo

A Tese parte do pressuposto de que a ficção d’Os Lusíadas dá início à imagem do português como um povo conquistador e missionário, cuja identidade social e cultural foi definida por um projeto de expansão histórica calcado no modelo greco-latino de conquista do outro (o bárbaro ou o pagão). Baseio-me na proposta de reescrever Portugal a partir da obra de Jorge de Sena e de Rui Knopfli, poetas que trabalham tanto para desconstruir a imagem de superioridade do colonizador, quanto para resgatar a verdadeira identidade dos povos subjugados pelo Império Português. Considerando o conceito de parresia, defendido por Michel Foucault em A Coragem da Verdade, ressalto o cinismo de Sena e de Knopfli, na construção de uma contra-imagem de Portugal. Definir o conceito de “imagem idílica” e de “contra-imagem”, na concepção de Eduardo Lourenço, analisar o conflituoso relacionamento dos referidos poetas com suas respectivas pátrias e rastrear o sentimento anticolonialista na escrita seniana e na poesia de Rui Knopfli integram as etapas desta pesquisa.

 

Marco Antonio Saraiva

Título: O cosmos da linguagem: entre o mito e a modernidade – a poesia de Fiama Hasse Pais Brandão

Orientador: Jorge Fernandes da Silveira 

Páginas:199

Resumo:

Na obra da poeta portuguesa Fiama Hasse Pais Brandão buscamos estudar e comprovar sua cosmurgia poética, na qual o homem e sua cultura, desde os primórdios até a contemporaneidade, são os pontos centrais. Na poesia de Fiama o ser humano concebido pelo universo através do mundo é, ao mesmo tempo, a criatura que gera o seu criador, quando o cosmos, através dos elementos da natureza, é transformado em múltiplas divindades nas sociedades primitivas e pré-modernas e, após, num ser único nas religiões canonizadas, da mesma forma que, muito depois, o Homo sapiens também desenvolve a ciência na modernidade que recria o mundo e o universo através de concepções teóricas e conceitualmente. Portanto, a humanidade, representada nos poemas, herda duplamente então, a faculdade demiúrgica do espaço universal e do mundo. Relacionando esses dois aspectos, Fiama guia-se pelo referencial da primordialidade, com a visão de um mundo remoto para se contrapor ao olha fixo e obsessivo da metafísica e o pensamento puramente racional, que sob a pele de civilização oculta sutilmente a barbárie. Sua criação poética procura a sapiência das origens, substituída pelos dogmas e os conceitos do intelecto, onde está a completude de nossos antepassados e resguardaria nossa essência, quando os valores do espírito e da matéria não estavam separados, não havia cindido o istmo entre a mente e o coração. Assim Fiama tenta recuperar no único espaço possível, o da poesia, a primeva utopia em que os valores individuais transcendiam naturalmente o sujeito e a ação para a alteridade e seu grupo, a Arcádia de Homero, a Idade de Ouro de Hesíodo, o Paraíso Perdido de Milton, a Utopia de Tomas Morus. A poeta portuguesa traduz literariamente os princípios da formação do universo e o seu desenvolvimento até nossa atualidade, todavia, numa visão individual correlativa a própria singularidade do universo, desde o caos até a constituição do cosmos, do mundo, do homem e a sua história. Para conformar esse processo Fiama Hasse Pais Brandão criou, através de sua linguagem, uma cosmogonia própria, alicerçada, não apenas com os arquétipos, em conjunto com os acontecimentos do mundo, a ciência, os fatos históricos e do cotidiano. As narrativas de um tempo imemorial se entrelaçam em redes de metáforas com aquelas das tradições do mundo Ocidental e da sua herança no mundo atual, confrontando-se tessituras no poema, (re)criando novas e antigas simbologias pela imaginação da poeta, reveladoras do mundo, ou de uma atmosfera, por vezes apenas onírica. Por um lado, percebemos o ser humano e a primordialidade em sua completude e essência, do outro a metafísica, a razão e a lógica que bipartiram o homem em carne e espírito. Toda essa gênese, que se remete a perdida essência primordial, se justifica para regenerar essa fenda nos limites do espírito humano com o seu corpo. O cosmos surge, dessa forma, pela condensação de sua escrita poética, que em vez de reproduzir, cria seu próprio universo de forma original, uma mitologia literária em novas e inéditas formas poéticas, interligando dessa maneira seu processo criativo à concepção de uma physis universal, ou melhor, a geração ininterrupta de tudo que existe no universo. Sua poesia se faria numa gênese formada pela matéria-prima preexistente no universo, no mundo em sua natureza, no homem, na cultura, na arte e na literatura, interligando o passado e o presente

Mário Acrisio Alves Junior

Título:O intertexto bíblico como expressão de um ethos em crônicas de Lya Luft

Orientador: Lúcia Helena Martins Gouvêa 

Páginas:183

Resumo

Esta pesquisa tem o objetivo de estudar a construção de um ethos religioso cristão em crônicas de Lya Luft, expresso por meio de diferentes tipologias e configurações intertextuais que remetem ao texto bíblico. O corpus é composto por 53 crônicas selecionadas entre os anos de 2005 e 2013 e extraídas da revista Veja, em que os textos de Lya Luft são publicados quinzenalmente. O recorte teórico adotado é fruto de uma articulação entre conceitos advindos das teorias da Enunciação e da Análise do Discurso em sua vertente semiolinguística. Os dados revelam três tipologias do fenômeno intertextual: intertextualidade com valor de captação, intertextualidade com valor de subversão e intertextualidade por alusão. As análises, de natureza qualitativa e quantitativa, destacam, entre outros aspectos: a afinidade da cronista com o discurso bíblico; a destreza com a qual emprega fragmentos bíblicos na composição de seus textos; o número extremamente expressivo de casos de alusão ao texto bíblico, os quais, ancorados na memória discursiva, por serem menos explícitos se comparados aos outros dois tipos, transcendem os limites do cotexto, situando-se no nível mais profundo de uma escala de implicitude; e, enfim, uma quantidade menor, porém considerável, de casos de subversão, estes particularmente analisados sob o prisma da Teoria Polifônica da Enunciação. As análises confirmam, então, que o intertexto bíblico expressa um ethos cristão nas crônicas de Lya Luft.

Naira de Almeida Velozo

Título: Usos de mas+cláusula no gerenciamento da conversa: uma proposta de descrição semântico-cognitiva

Orientador: Maria Lucia Leitão de Almeida 

Páginas:150

Resumo

Estudo das ocorrências de mas+cláusula em uma sessão de mediação, etapa de um processo judicial, com vistas a investigar as funções semântico-cognitivas dessa construção no corpus e, por conseguinte, apresentar uma proposta de descrição, segundo os pressupostos da Linguística Cognitiva, que abarque os usos do mas como conector interfrástico e como início acessório. Para tanto, fundamenta-se, sobretudo, nos estudos acerca da linguagem como um Modelo Baseado no Uso (TOMASELLO, 2003a[1999]), na Teoria dos Espaços Mentais (FAUCONNIER, 1997) e no conceito de esquemas imagéticos (CROFT e CRUSE, 2004). Postula-se que a construção mas+cláusula possa ser descrita como uma categoria radial cujos membros se fundamentam em diferentes esquemas de força e criam tipos diversos de espaços mentais. Observa-se que o núcleo da categoria é ocupado pelos usos de mas+cláusula apoiados no esquemas de força contrária, os quais ativam espaços contrários, em relação àqueles que se ligam por meio do mas, quanto às bases de conhecimento que apoiam os espaços mentais, frames e MCIs; às suposições de fundo e implicaturas; e ao tipo de espaço, quando se estabelece a relação entre possibilidade ou representação e asserção, manifestada como realidade. Os usos de mas+cláusula apoiados no esquema de força contrária constroem ainda espaços opositores em nível epistêmico, quando há exposição de argumentos contrários, e em nível conversacional, quando existe disputa entre manutenção e encerramento de tópico. Os membros mais próximos ao núcleo da categoria se referem aos usos de mas+cláusula fundamentados pelo esquema de bloqueio, os quais abrem espaços mentais que operam em nível epistêmico e conversacional. Em nível epistêmico, os espaços visam a invalidar o7 encaminhamento argumentativo apresentado pela rede de espaços anterior ao uso da construção ou a suposição de fundo que sustenta tal rede; e ainda a ajustar o foco dos interlocutores para um mesmo MCI ou elemento de MCI que apoia a rede construída antes do uso do mas. Já em nível conversacional, os espaços construídos pelo uso de mas(bloqueio)+cláusula operam em relação à tomada de turno, a qual pode ser ou não efetivada, o que torna o bloqueio de difícil ou fácil remoção. Um pouco mais afastados do núcleo da categoria, estão os membros apoiados pelo esquema de restrição, os quais ativam espaços que atuam no desvio de foco de uma entidade, representada em um primeiro espaço, para outra, apresentada no espaço aberto por mas; na construção de ressalvas, por meio da inserção ou limitação de uma propriedade no frame ou MCI que apoia o espaço ativado pelo uso de mas(restrição)+cláusula; no ajuste de MCI por anulação de um elemento; ou na construção de uma condição, que, discursivamente, funciona como um limite a um espaço de asserção. Já os membros mais periféricos da categoria, apoiados no esquema de desequilíbrio, constroem espaços epistêmicos que operam em nível argumentativo, causando um desnível entre os argumentos apresentados no espaço construído pelo uso de mas(desequilíbrio)+cláusula e aqueles evidenciados em espaços construídos anteriormente no discurso. Os resultados da pesquisa, portanto, delineiam uma proposta de descrição do conector+cláusula como uma categoria radial cujos elementos atuam na construção, desconstrução e reconstrução de sentidos, orientando a conversa em nível epistêmico e conversacional.

Patricia Ferreira Botelho

Título: Conhecimento prévio e atividades escolares de leitura – uma abordagem cognitiva e metacognitiva

Orientador: Ana Flávia Lopes Magela Gerhardt 

Páginas:249

Resumo

Os livros didáticos (LD) de Língua Portuguesa contêm, em sua maioria, atividades de leitura sob o modelo de reprodução de conteúdo. Esses exercícios têm como fonte de informações apenas o texto; a sua organização bem como a sua realização não se baseiam no emprego do conhecimento prévio dos alunos e, portanto, não consideram as suas subjetividades tampouco a natureza cognitivo-processual da construção de significados em leitura, que é o construto de que trata esta Tese. Com base nesse cenário, delimitamos como questão central a discussão do conceito de conhecimento prévio e a sua relevância para a compreensão e redefinição do ensino de leitura. Na análise das atividades retiradas de alguns livros didáticos, buscamos evidenciar causas e consequências dos problemas descritivos, conceituais e metodológicos decorrentes do não emprego do conhecimento prévio dos alunos e da manutenção do modelo de leitura focado no conteúdo do texto. Propomos uma redefinição do conceito de conhecimento prévio, pois percebemos que seu emprego, em leitura, envolve o uso de outro conceito importante nos estudos em cognição: a ativação do frame correspondente à compreensão do texto; e, relativamente à ativação dos frames, o acionamento de slots, estruturas presentes no conhecimento prévio que instanciam as características dos frames (DUQUE, 2014). Realizamos um estudo que avaliou a atividade de leitura do livro didático de Cereja e Magalhães (2010), comparando-as às novas perguntas que formulamos sobre o mesmo texto, para um teste de leitura em turmas do Ensino Médio. Foram elencados dois testes para o estudo comparativo: o Teste Controle, com aplicação das atividades propostas nos livros didáticos, e o Teste Experimental, realizado para investigação e análise do aparato didático que propusemos. Vale ressaltar que o Teste Experimental baseia-se no modelo de aprendizagem escolar proposto por Nelson e Narens (1994), com o emprego de estratégias metacognitivas para acesso ao conhecimento prévio nos três momentos que envolvem a atividade de leitura: pré-leitura, durante a leitura e pós-leitura. Esses dois testes serão avaliados conforme os parâmetros de enquadramento dos três eixos materiais de observação das atividades de leitura: Os textos selecionados, as perguntas propostas e as respostas sugeridas pelos livros em cotejo com as respostas efetivamente dadas pelos alunos nos testes Controle e Experimental. O confronto entre as atividades dos LD e as que foram elaboradas por nós permite constituir uma avaliação para formular estratégias de acesso ao conhecimento prévio e, com base nisso, pretendemos propor a melhoria da qualidade da leitura no ensino a partir da reorganização de cada eixo que envolve o processo de leitura – disposição do texto, apresentação de perguntas e produção de respostas – como ações que precisam estar relacionadas ao emprego do conhecimento prévio nas atividades, via acionamento de frames e de slots, e pela apresentação explícita dos objetivos de leitura e de aprendizado na escola.

Patrícia Affonso de Oliveira

Título da tese: A Recomposição com os afixoides de primeira posição: um continuum morfológico

Orientador(a): Carlos Alexandre Victorio Gonçalves

Ano da defesa: 2018

Páginas: 286

Resumo

Pretendemos, neste trabalho, fazer uma análise do processo morfológico conhecido como recomposição em português, focalizando os elementos de primeira posição, como, por exemplo, eco-, homo-, foto- tele-, bio-, euro-, petro- moto-. Procuramos mostrar que esse mecanismo de ampliação lexical compartilha propriedades da composição e da derivação, justificando, assim, a proposta de continuum defendida por autores como Kastovsky (2009), Gonçalves (2011a) e Gonçalves & Andrade (2012; 2016). Além disso, intentamos mapear os formativos que participam desse processo, nos dias de hoje, mostrando em que aspectos se assemelham a radicais e que propriedades compartilham com afixos. A recomposição é o processo pelo qual há um encurtamento de uma palavra, outrora composta (uma formação dita neoclássica), e um formativo, geralmente o de primeira posição, adquire o significado de todo o composto. O radical encurtado não preserva o sentido etimológico da forma-gatilho de onde se desprendeu e, semanticamente modificado, junta-se a uma forma linguística (na maioria das vezes livre), formando uma nova palavra, mas não mais com o significado que encontramos na formação neoclássica original. Pretendemos observar se o volume de formas presas, que se comportam como afixos, como eco-, é maior que o das formas potencialmente livres, como foto- que mais se assemelham a palavras.

Palavras-chave: Recomposição; afixoides; continuum morfológico.

Abstract

―In this work/paper/study, we intend to analyze the morphological process known as ―recomposição‖ in Portuguese, focusing on the elements of first position, such as, echo – homo – photo – tele – bio – euro – petro – moto-. We try to demonstrate that this mechanism of lexical enlargement shares properties of the composition and of the derivation, justifying, the proposal of continuum defended by authors as Kastovsky (2009), Gonçalves (2011th), and Gonçalves and Andrade (2012; 2016). Besides, we attempt to map the formatives that take partin this process, nowadays, showing in which aspects they resemble the roots and what properties share with affixes.‖ ―‘Recomposição‘ is the process in which there is a shortening of a word, formerly composed (a so-called neoclassical formation), and a formative one, generally of first position, acquires the meaning of the whole compound. The shortened root does not preserve the etymological sense of the trigger-form from which it has been detached, and, semantically modified, it joins a language form (often free), forming a new word, but no longer with the meaning we find in the original neoclassical formation. We intend to observe if the volume of fixed forms, which behave like affixes, is greater than the potentially free forms, which most resemble words‖

Key-words: “recomposição”; “afixoides”; continuum morphological.

Raquel Cristina de Souza e Souza

Título: A ficção juvenil brasileira em busca de identidade: a formação do campo e do leitor

Orientador: Rosa Maria de Carvalho Gens 

Páginas:460

Resumo

Nas últimas décadas, temos observado o surgimento de um campo literário juvenil autônomo, que conta cada vez mais com um sistema próprio de produção, circulação e consumo. Deste modo, cabe à universidade proceder à leitura crítica dessa produção, almejando destacar, em meio à enxurrada de títulos publicados para atender a escola e o mercado, aqueles que podem ter sua qualidade estética atestada. Acreditamos, porém, que essa crítica não deva se encastelar academicamente, mas contribuir para as reflexões acerca dos encontros e desencontros entre livros e leitores, especialmente aqueles em idade escolar. Por isso, esta tese se produz na confluência entre a crítica, a recepção e o ensino, partindo do pressuposto de que a ficção juvenil se define pelo duplo destinatário inscrito nos textos e paratextos: o jovem que lê (por prazer ou obrigação) e o adulto que legitima. Propomo-nos, assim, a situar o advento da literatura juvenil, em especial a narrativa de ficção, enquanto realidade editorial, escolar e literária, em um movimento mais amplo de transformações sociais. Apoiados nos conceitos de sistema literário de Antonio Candido (2000) e Zohar Shavit (1986) e campo literário de Pierre Bourdieu (1996, 2009), procuramos delinear os fatores extraliterários que levaram à formação, no nosso país, de um (sub)sistema literário juvenil autônomo. Para fundamentar teoricamente tanto as análises literárias do corpus quanto a interpretação dos dados sobre a recepção das obras por seus leitores-alvo, tomamos por base a Estética da Recepção (JAUSS, 1979) e a Teoria do Efeito (ISER, 1996). Do leitor virtual e teórico tentamos, pois, nos aproximar do leitor empírico, real. Seis narrativas de dois autores contemporâneos para jovens foram interpretadas por seus duplos destinatários (a pesquisadora e os jovens do segundo segmento do Ensino Fundamental com quem trabalha em uma instituição pública de Ensino Básico), de forma que pudéssemos tecer alguns comentários sobre a recepção individual das obras de Jorge Miguel Marinho, autor mais confortável com rótulo juvenil de sua produção, e Gustavo Bernardo, autor mais reticente em relação ao enquadramento de seus textos nesta categoria específica. A dupla leitura possibilitou, assim, que enveredássemos por dois caminhos distintos, porém complementares: o da crítica acadêmica, essencial para a legitimação dos autores e de suas produções no interior do campo juvenil, mas nem por isso menos importante para dar visibilidade a eles também fora do subsistema; e o da formação do leitor literário no segundo segmento do Ensino Fundamental, tendo em vista a negligência com que a universidade costuma olhar para a presença da leitura literária nesta etapa do ensino, por conta da marginalização da produção feita para jovens no meio acadêmico enquanto realidade literária.

Renato Martins e Silva

Título: Travessias, rupturas e transgressões: a experiência da morte na Literatura Portuguesa oitocentista

Orientador: Mônica do Nascimento Figueiredo 

Páginas:263

Resumo

A literatura é o espaço privilegiado que possibilita a experimentação da morte. Esta tese pretende, portanto, explorar contos fantásticos portugueses do século XIX que repercutiram a ficcionalização de experiências que tornavam possível problematizar os mistérios da morte. Os contos aqui estudados foram escritos por autores que têm sido marginalizados pelo esquecimento e é intuito deste trabalho também a atualização de seus nomes junto à nossa contemporaneidade. Iniciaremos nosso percurso apresentando algumas das principais teorias sobre o fantástico, com especial destaque aos estudos de Tzvetan Todorov acerca do fantástico oitocentista. Demonstraremos que, no decorrer da história da Humanidade, a relação do homem com a morte e os rituais que a cercavam foram passando por importantes transformações. A era vitoriana, em particular, modificou o modo como os indivíduos se relacionavam com a morte de forma mais significativa e, tais mudanças, reverberavam no texto literário. O homem vitoriano, mais incisivamente, passou a negar a morte, buscando nos avanços médicos e científicos um prolongamento de sua própria existência. Em outra frente, esse mesmo homem buscou experimentar ainda mais intensamente a morte, mas sem colocar-se em risco, apenas explorando o que haveria do outro lado por meio da literatura. Esse movimento social que se expandiu vigorosamente no século XIX, certamente, mantém-se contemporâneo. Seu expressivo desejo de escapar da morte e, na sua impossibilidade, negá-la ao propor um mundo paralelo no qual a sua inexorável aproximação não é o fim, mas uma transição, será identificado nas diferentes manifestações sobrenaturais presentes no corpus ficcional selecionado, composto por narrativas de Pinheiro Chagas, Álvaro do Carvalhal, Rebelo da Silva, Osório de Vasconcelos e Teófilo Braga.

Roberto de Andrade Lota

Título: A atualizade clássica nas trilogias trágicas de Adonias Filho e Autran Dourado

Orientador: Ronaldes de Melo e Souza 

Páginas:248

Resumo

A tese a Atualidade clássica nas trilogias trágicas de Adonias Filho e Autran Dourado estuda de que maneira Os Servos da morte, Memórias de Lázaro e Corpo vivo, do primeiro autor, e Lucas Procópio, um Cavalheiro de Antigamente e Ópera dos Mortos, do segundo, ratificam a construção de uma prosa de fortes valores trágicos na literatura brasileira. Para isso, observamos de que modo eles se valeram da crítica literária para não caírem diante do gigantesco legado grego, ao mesmo tempo que criam obras de arte verdadeiramente originais. Em nossa metodologia visitamos os românticos da Escola de Jena com o objetivo de descobrir ali as raízes do trágico que se converte de forma em sentido. Assim, somos capazes de compreender como os autores brasileiros que estudamos conseguiram representar pelo gênero narrativo uma potência do gênero dramático. Nossa metodologia também estudou os elementos da narrativa que serviam para a concretização de uma característica eidética. Após isso, nos valemos de um capítulo exegético para cada autor, a fim de nos dedicarmos mais detidamente às idiossincrasias de suas obras.

Simão Pedro dos Santos

Título: Dedos cravejados de brilhantes, chapéus de estrelas carregados: a épica dos cangaceiros na literatura de cordel

Orientador: Anélia Montechiari Pietrani 

Páginas:207

Resumo

A presente tese defende a ocorrência de uma matéria épica da literatura de cordel com ênfase no cangaço, a partir de uma memória oral como fundo para a memória escrita. Para a idealização mítica contemporânea aos cangaceiros, com rara exceção, usou-se a primeira pessoa do discurso. O processo de feitura desses textos era calcado em uma primeira pessoa a que chamamos de Eu épico, pelos motivos inerentes à conturbada trajetória das personagens. A ideia de fazê-los heróis, no entanto, se prolonga até os dias atuais, já com a isenção poética pertinente à distância no tempo. Nas narrativas épicas do cordel, há filetes espontâneos com as técnicas das narrativas clássicas como a invocação, a rememorização, a sobrenaturalidade, as façanhas inusitadas, mas ainda, e principalmente, há íntimo diálogo com textos medievais e ibéricos legados ao Nordeste no período colonial. Narrativas como as de Carlos Magno e outras são a essência da invenção e reinvenção dos heróis locais. Este estudo se fundamenta em textos de Anazildo Vasconcelos, Arnold Hauser, Eric Hobsbawm, Aglae Lima de Oliveira, Câmara Cascudo, Rui Facó, Jerusa Pires Ferreira, entre outros, que constituem o apoio teórico nos estudos do cordel épico. O corpus analisado se compõe de textos de Leandro Gomes de Barros e Francisco das Chagas Batista, pioneiros do cordel brasileiro, e se estende aos poetas contemporâneos, que igualmente abordaram a temática ora proposta.

Vítor de Moura Vivas

Título: Abordagem de padrões derivacionais nas marcas de modo-tempo-aspecto e número-pessoa: por uma visão gradiente da morfologia do português

Orientador: Carlos Alexandre Victorio Gonçalves 

Páginas:172

Resumo

Diversos autores discutem os processos morfológicos flexão e derivação como distintos de forma gradiente e não discreta. Dentre estes, utilizamos, na Tese, os aportes teóricos de Bybee (1985; 2010); Booij (1996; 2006); Manova (2005); González Torres (2010); Winter (2011); Piza (2001); Gonçalves (2005; 2011). Nossa abordagem é de base funcionalista-cognitivista, visto que nos fundamentamos em noções caras ao Cognitivismo como a gradiência.
Propomos que as marcas modo-tempo-aspectuais (MTA) e número-pessoais (NP) não devem ser entendidas como totalmente flexionais em português. Por mais que essas partículas apresentem mais características flexionais, atributos derivacionais também existem; desse modo, uma visão que considere uma separação gradiente entre flexão e derivação parece bastante adequada aos dados.
Demonstramos que as palavras morfologicamente estruturadas com elementos MTA e NP nem sempre são estáveis quanto à classe morfológica e ao significado fundamentando-nos em critérios como lexicalização categorial, instabilidade categorial, lexicalização semântica, improdutividade, não-obrigatoriedade, entre outros. Além disso, essas marcas, em alguns momentos, estão a serviço da expansão lexical. Isso evidencia a existência de padrões derivacionais instanciados por essas marcas que precisam ser descritos e abordados na morfologia do português. Acreditamos que, quando se trata de flexão verbal, a categorização por protótipos é mais efetiva que a categorização nos moldes clássicos (aristotélicos), visto que dá conta de quaisquer
dados produzidos na língua. Com a análise desses critérios apontados acima e de outros discutidos na Tese, evidenciamos que um olhar efetivo para os dados verbais do português indica que existem padrões derivacionais instanciados pelas marcas de MTA e NP. Na Tese, além de apresentar esses padrões derivacionais, evidenciamos as suas motivações formais e semânticas. Assim, objetivamos explicar, na forma e no significado, o que faz com que apenas algumas marcas instanciem padrões derivacionais.

Viviane Mendes de Moraes

Título: Entre as savanas de arizez e os horizontes da poesia: a multifacetada geopoética de Rui Knopfli

Orientador: Carmen Lúcia Tindó Ribeiro Secco e Ana Mafalda Leite 

Páginas: 250

Resumo

Nesta tese de doutorado busca-se evidenciar como o poeta moçambicano Rui Knopfli instaura uma nova geopoética nas Literaturas de Língua Portuguesa, em especial, na Literatura Moçambicana. Por meio da análise de sua Antologia poética (KNOPFLI, 2003), em que se reúnem poemas de todas as obras do autor, almeja-se traçar um perfil paisagístico-literário, verificando os afetos e atravessamentos de que se constituem a poesia de Knopfli, o poeta por si mesmo e seu olhar para o mundo. Passeia-se pelas estradas de seus versos, desvelando anseios, previsões, atritos, conflitos, ironias, hibridismo, cosmopolitismo, memória e também o exílio. Teóricos da poesia e da literatura, entre os quais: Michel Collot, Linda Hutcheon, Edward Said, Ramazani, Angel Rama, servirão de base para a análise e para a condução literária deste trabalho. Estudiosos da Cultura e Literatura Moçambicana e Africana, em geral, como Appiah, Césaire, Eugénio Lisboa, Francisco Noa, Ana Mafalda Leite, Rita Chaves, Luís Cabaço, entre outros, auxiliarão a guiar o olhar da tese em direção a questões relevantes para a literatura moçambicana e para o poeta estudado.

TESES DEFENDIDAS EM 2014

Total de teses defendidas: 25

Alexandre Xavier Lima

Título: Descrição da ortografia portuguesa: a inserção do princípio etimológico na prescrição e na prática gráficas oitocentistas

Orientador: Afranio Gonçalves Barbosa Páginas: 525

Resumo

Descrevemos a ortografia portuguesa do último quartel do século XIX da variedade brasileira. Tomamos como recorte a inserção do princípio etimológico, tanto na prescrição de regras, quanto na prática gráfica. Para essa descrição, avaliamos o conteúdo grafo-normativo das principais gramáticas brasileiras dos últimos 30 anos do século XIX. Dentre os gramáticos, destacamos Sotero dos Reis (1871), Silva Junior & Andrade (1877), Julio Ribeiro (1881), Alfredo Gomes (1897) e João Ribeiro (1888 e 1894). Procuramos identificar o repertório de grafemas etimológicos, bem como os tipos de regras empregados para a sistematização do uso de cada grafema. Também analisamos as seções noticias e folhetim do periódico Gazeta de Noticias (1877-78). Nesses textos, identificamos os grafemas etimológicos utilizados pelos redatores oitocentistas e apuramos como cada grafema se insere na prática gráfica, tendo em vista seu uso, sua fundamentação e a abertura à variação gráfica. Controlamos a diversidade (palavras diferentes com cada grafema) e a recorrência (recorrência da mesma palavra com um grafema). Por fim, comparamos as normas gráficas (subjetiva e objetiva) verificando se aquilo que os gramáticos prescrevem, em termos gráficos é realmente praticado pelos redatores considerados modelares para a época. Do cotejo das normas subjetiva e objetiva é possível associar a frequência de cada grafema à eficácia de cada regra, ou ainda, a inconsistência e a raridade do uso podem significar a mútua implicação entre norma subjetiva e objetiva. Com esse trabalho, demonstramos em que medida um valor de erudição gráfica serve de parâmetro para a construção de normas coexistentes no período da elaboração da ortografia portuguesa.

Ana María Lea-Plaza Illanes

Título: O romance de formação chileno e brasileiro da primeira metade do século XX: narrativas para uma revolução

Orientador: Ronaldes de Melo e Souza e Patrício Lizama Améstica Páginas:227

Resumo

A tese é um estudo sobre o Romance de Formação brasileiro e chileno da primeira metade do século XX. O seu objetivo é responder à pergunta sobre como este gênero inicialmente europeu se transforma e se renova ao surgir nesses novos contextos, configurados por pelo menos duas ordens sociais: a ordem oligárquica (ou República Parlamentar, no caso do Chile; República Velha, no caso do Brasil) e a chamada ordem das classes médias. Particularmente, o que nos interessa é descobrir quais são as novas propostas de formação que surgem de textos centrados em personagens que fazem parte da nova configuração social que se está elaborando: pequeno-burgueses em decadência, negros em processo de emergência, campesinos, mulheres etc. Para isso, partimos de uma fundamentação histórica do Romance de Formação que tenta oferecer uma visão dinâmica, cambiante e não dogmática deste gênero que não se restringe, como a crítica conservadora quis propor em diferentes fases da sua história, a um relato bem-sucedido de inserção social burguesa, masculina e europeia. No nosso corpus brasileiro estão as seguintes obras: O Ateneu, Memórias sentimentais de João Miramar, Angústia/Infância, O Moleque Ricardo e Perto do coração selvagem. Já no que diz respeito ao Chile, estudamos: Martín Rivas (Alberto Blest Gana), Alsino (Pedro Prado), Escritura de Raimundo Contreras (Pablo de Rokha) Punta de rieles (Manuel Rojas) e Soñaba y amaba el adolescente Perces (María Carolina Geel).

Ana Paula Victoriano Belchor

Título: A morfologia prosódica circunscritiva aplicada ao truncamento no português brasileiro

Orientador: Carlos Alexandre Victório Gonçalves 

Páginas: 217

Resumo

Na presente tese, realiza-se a análise do truncamento no português brasileiro, processo não-concatenativo de formação de palavras que consiste no encurtamento de uma base, tal como em ‘depressão’ > ‘deprê’ e ‘estrangeiro’ > ‘estrânja’, por exemplo. Uma vez que as sequências apagadas são muito diversificadas e não podem, desse modo, ser tomadas como afixos, a regularidade do processo torna-se evidente nas próprias formas truncadas, que se mostram morfoprosodicamente uniformes. A Morfologia Prosódica Circunscritiva foi modelo teórico utilizado na descrição do fenômeno, em virtude de proporcionar a união entre expedientes morfológicos e prosódicos, necessária para justificar o formato dos truncamentos pertencentes ao corpus, que podem ser (a) constituídos das duas primeiras sílabas da palavra-matriz, como ‘refrí’ (‘refrigerante’) e ‘belê’ (‘beleza’); (b) do morfema integral que compõe a borda esquerda da base, tal como ‘odônto’ (‘odontologia’) e ‘nêuro’ (‘neurologista’); ou, ainda, (c) do radical (ou não) da palavra-matriz, acrescido da vogal (-a), como em ‘flágra’ (‘flagrante’) e ‘cáfa’ (‘cafajeste’). Os dados que integram o corpus analisado distribuem-se em três padrões de formação distintos, acima representados em (a), (b) e (c), devido ao fato de cada grupo de dados apresentar características diferentes quanto aos parâmetros que regem o funcionamento da Morfologia Prosódica Circunscritiva, a saber: a circunscrição do input, que delimita a porção deste a ser aproveitada na forma truncada; e o formato do molde, responsável pela formação de um tipo específico de pé no output, que garante uma tonicidade típica a cada padrão. Os três padrões estruturais pesquisados, na tese denominados ‘refri’, ‘odônto’ e ‘flágra’, são, portanto, descritos individualmente, de acordo com as especificações de circunscrição e molde que asseguram as marcas formais de cada padrão.

Anderson Costa Xavier

Título: Machado de Assis: o pensador poético

Orientador: Adauri Silva Bastos 

Páginas: 159

Resumo

A produção literária de Machado de Assis é marcada pelo binômio literatura e filosofia. A partir de uma interpretação hermenêutica, propomos uma leitura comparativa entre a teoria do Humanitismo e os romances Memórias póstumas de Brás Cubas e Quincas Borba. Isso posto, observamos o rendimento estético da obra, menos como atenuante para as dores da vida do que como aspecto potencializado justamente pela entrega a especulações sobre o que fazemos sobre a Terra.

Bruno Cavalcanti Lima

Título: Realização fonética de acrônimos no português brasileiro: uma abordagem morfofonológica através da teoria da otimalidade

Orientador: Carlos Alexandre Gonçalves 

Páginas: 214

Resumo

Dentre os processos conhecidos como não-concatenativos ou nãolineares, Gonçalves (2004) cita a Siglagem, que consiste na combinação das iniciais de um nome composto ou de uma expressão. Nos termos de Abreu (2009), as siglas podem ser alfabetismos, ou seja, siglas cuja pronúncia é feita de forma soletrada, como ocorre em FMI (‘Fundo Monetário Internacional’), ou acrônimos, isto é, siglas cuja sequência de letras permite a pronúncia de uma palavra normal, tal como em USP (‘Universidade de São Paulo’). Nesta tese, analisa-se a realização fonética dos acrônimos constituídos por duas (IG: ‘Internet Grátis’), três (PUC: ‘Pontifícia Universidade Católica’) e quatro letras (ENEM: ‘Exame Nacional do Ensino Médio’); alfabetismos, portanto, não serão contemplados na análise. O principal objetivo do trabalho é a comprovação de que os acrônimos são, de fato, palavras da língua, visto que se submetem aos diversos padrões fonológicos pelos quais qualquer outra palavra da língua se submete. Delimitam-se, além disso, características morfológicas e fonológicas do processo. A análise dá-se por meio da Teoria da Otimalidade (McCARTHY & PRINCE, 1993; PRINCE & SMOLENSKY, 1993), modelo paralelista que trabalha com a avaliação de formas a partir de uma hierarquização de restrições, que objetiva, por sua vez, checar possíveis candidatos a output.

Carla da Silva Nunes

Título:A ordenação do clítico “se” em complexos verbais nas produções escritas do Brasil e de Portugal nos séculos XIX e XX segundo a perspectiva sociolinguística

Orientador: Silvia Rodrigues Vieira 

Páginas:285

Resumo

Esta pesquisa trata do tema da colocação do clítico “se” em estruturas verbais complexas nas amostras brasileira e europeia. Para tanto, vale-se de corpus da modalidade escrita extraído de editoriais, notícias e anúncios produzidos nos séculos XIX e XX. Com base no aporte teóricometodológico da sociolinguística laboviana, desenvolve-se o tratamento estatístico dos dados provido pelo pacote de programas Goldvarb-X. Investigam-se, então, as trajetórias dos diferentes tipos de “se”, como ponto de partida para se atestar as possíveis semelhanças e diferenças entre as escritas brasileira e a europeia. Além disso, verifica-se se o comportamento dos dados reflete a existência de uma regra variável em cada uma das variedades. Assim, analisam-se os possíveis condicionamentos linguísticos e extralinguísticos favorecedores das variantes cl V1 V2 (se pode fazer), V1-cl V2 (pode-se fazer), V1 cl V2 (pode se fazer) e V1V2-cl (pode fazer-se).
Observa-se que a modalidade escrita, por vezes, aproxima as normas brasileira e europeia quanto ao fenômeno da ordem, como no contexto de início absoluto de período/oração, em se que recusa a próclise a V1 nas duas amostras, e aos complexos participiais, que não registram qualquer dado de ênclise a V2. Os padrões cultos escritos brasileiro e europeu aproximam-se, especificamente, no caso do indeterminador, nos dois séculos em questão. Por outro lado, o uso do reflexivo parece ser a questão central na diferenciação entre as duas normas estudadas.
Enquanto os brasileiros parecem vincular as suas escolhas aos tipos de “se”, em que o reflexivo tende a figurar adjacente a V2 (inclusive em próclise) e o indeterminador adjacente a V1, os europeus o fazem de forma mais suave e parecem relacionar suas escolhas também à forma do verbo principal e à presença de “proclisador”, especialmente com o indeterminador, mas distante de valores categóricos, de modo que se atesta nesse contexto uma regra efetivamente variável. A atuação do “proclisador” com o reflexivo é branda também no PE, mesmo assim, um pouco mais efetiva do que no PB. Ao final do século XX, as diferenças evidenciam-se ainda mais quando se registra o aumento da próclise a V2 no Brasil. No PE a variante nem sequer é legítima/natural, e por isso, não empregada. Quanto à análise da avaliação das variantes, com base nos questionários, as tendências apontadas podem ser confirmadas.

Cíntia Machado de Campos Almeida

Título: Viagens de fora para dentro: profanações e vagamundagens de Luís Carlos Patraquim

Orientador: Carmen Lúcia Tindó Ribeiro Secco 

Páginas:274

Resumo

Interpretação da obra poética de Luís Carlos Patraquim, expoente da literatura moçambicana contemporânea. Reflete-se acerca da paisagem, que no início de sua trajetória lírica, era captada de fora para dentro: o olhar poético partia dos contornos físicos de seus redores para então alcançar suas possíveis dimensões simbólicas – lugares íntimos, suscitados pelas memórias. No decorrer de três décadas e meia de carreira literária e oito livros de poesia publicados, o olhar do poeta entranhou-se corpo adentro. Partindo da pele, passou a mirar, gradativamente, a carne, o sangue, os ossos, os brônquios até alcançar o inconsciente, cuja dimensão metafísica, metaforizada pelo escuro, empreendeu uma busca pelas origens do ato de criação poética. Em contrapartida, à proporção que minimalizava suas referências paisagísticas, Patraquim expandia suas referências intertextuais: o poeta, que se lança à literatura em 1980 estabelecendo diálogos, em sua maioria, restritos a nomes representativos da poesia em língua portuguesa, paulatinamente amplia suas possibilidades dialógicas, universalizando-as. Defende-se a hipótese de que o poeta moçambicano, livro a livro, interioriza sua percepção de mundo, na medida em que alarga os percursos simbólico e intertextual de sua poesia. Aborda-se a paisagem como instância reflexiva de desejos, memórias e afetos e discorre-se acerca dos múltiplos sentidos deste conceito na escrita lírica de Patraquim. Discute-se as profanações da poesia patraquimiana, segundo Giorgio Agamben. As bases metodológicas desta tese articulam a literatura com a história, a geografia e a sociologia.

Fernanda Antunes Gomes da Costa

Título:Paula Tavares e a poética dos sentidos

Orientador: Carmen Lúcia Tindó Ribeiro Secco 

Páginas:185

Resumo

Este estudo tem como meta principal a leitura crítica da obra poética de Paula Tavares, importante representante da literatura angolana de língua portuguesa na contemporaneidade, reconhecida, principalmente, pelo valor estético de sua poesia. Serão analisadas as seis obras poéticas dessa poetisa, com o objetivo de flagrar, por entre imagens e palavras, os frutos amargos de um lirismo que (re)visita Angola, a partir da experiência do sujeito poético com o mundo que o cerca. Os sentidos e a percepção estão presentes em metáforas dos poemas da escritora e revelam como as impressões da vida se perpetuam na pele dos seus versos. Sendo assim, será discutida a relação entre a percepção, o presente e a memória; entre os sentidos, o amor e a poesia. Contudo, a originalidade da tese está, justamente, na seguinte indagação: “Qual é o sentido da ‘poética dos sentidos’ para essa poetisa?” A percepção se manifesta corporal e intelectualmente na poesia de Paula Tavares e, por isso, não será evidenciada apenas a presença da sensibilidade do corpo no seu texto poético. O propósito do estudo é entender a percepção como caminho para aquilo que a poesia dessa autora angolana deseja trazer à tona. A percepção como possibilidade de trajetória poética, de percurso lírico. Para fundamentar a pesquisa, serão convocados diversos teóricos, ensaístas, estudiosos das literaturas africanas e o filósofo Maurice Merleau-Ponty, que sustentará o fio da nossa reflexão.

Gilberto Araújo de Vasconcelos Júnior

Título:O poema em prosa no Brasil (1883-1898): origens e consolidação

Orientador: Antonio Carlos Secchin 

Páginas:301

Resumo

A tese estuda as origens e a consolidação do poema em prosa no Brasil, no período compreendido entre 1883, data de publicação em jornal das primeiras “canções sem metro”, de Raul Pompeia, e 1898, ano da morte de Cruz e Sousa, responsável pela reconfiguração do gênero. Embora apenas no Simbolismo o gênero tenha-se estabelecido, seja pela sistematização teórica, ou pela propagação de ocorrências, identificam-se em nosso Romantismo obras prefiguradoras dessa prática, brevemente analisadas na tese para investigar em que medida (não) lograram executar o projeto de rasura dos gêneros literários. Visa-se ainda diferenciar tais obras românticas de outras coetâneas que, não obstante empenhadas em diluir fronteiras, não ultrapassaram o domínio da prosa poética.

Iracy Conceição de Souza

Título:A experiência poética com o indizível: Ana Luísa Amaral, João Maimona e Salgado Maranhão.

Orientador: Ângela Beatriz de Carvalho Faria Páginas:215

Resumo

Esse trabalho visa à leitura das obras de três poetas da Lusofonia — Ana Luisa Amaral (Portugal), João Maimona (Angola) e Salgado Maranhão (Brasil) para perceber como os poetas, artesãos das palavras, antecipam as descobertas das ciências do homem e como a poesia, sendo uma construção significante, gira em torno do vazio. Procura-se mostrar que os poemas são expressões da virtualidade de um mundo hipotético, um fenômeno inesperado, o escândalo da enunciação, visto que este se define mais pela libertação de virtualidades, pela imaginação que tudo revoluciona, desarruma, interroga, do que por um estreitamento de plenitude intelectiva. Jacques Lacan constata que o dizer dos poetas escapa à razão, apontando não só para a existência de uma Outra cena — o Inconsciente —, mas também para o real, como impossível de ser simbolizado.

Manuela Colamarco Pereira Gomes

Título: Referenciação e construção de sentido nas fábulas de Monteiro Lobato e Esopo

Orientador: Leonor Werneck dos Santos 

Páginas:188

Resumo

Esta pesquisa observa, à luz da Linguística de Texto, de que modo a referenciação constitui elemento basilar na construção de sentido de fábulas, um gênero textual predominantemente narrativo. A análise de dez fábulas de Monteiro Lobato em contraponto a dez fábulas de Esopo investiga o papel da referenciação na construção de sentido das narrativas pela avaliação crítica dos objetos de discurso envolvidos no projeto de dizer, representados pelo material linguístico do texto (expressões referenciais e pistas textuais). Antes, porém, procede-se a uma revisão teórica do processo da referenciação e propõe-se uma revisão da classificação, principalmente em relação ao conceito da introdução referencial. Ainda, as estratégias de referenciação e as expressões referenciais nominais, identificadas nas fábulas nacionais e nas versões clássicas, são submetidas a análises qualitativa e quantitativa com vistas à observação de padrões de uso nos textos de cada um dos autores. Nas narrativas de Esopo, a preferência pelas anáforas pronominais e a utilização de expressões referenciais nominais menos marcadas semanticamente constroem um simulacro de neutralidade, levando o leitor a identificar como verdade absoluta a moralidade. Já nas narrativas de Monteiro Lobato, as anáforas recategorizadoras predominam, e a avaliação dos elementos representados por expressões referenciais nominais é constante e explícita. Com isso, o leitor observa uma tomada de posição por parte do narrador, colocando-se de forma crítica diante do que lê. Finalmente, transpõese a metodologia de análise do processo da referenciação nas fábulas para o estudo da Língua Portuguesa na educação básica, a partir da confecção de materiais didáticos.

Marcelo José Fonseca Fernandes

Título:O conto simbolista no Brasil seguido de antologia comentada

Orientador: Sérgio Fuzeira Martagão Gesteira Páginas:306

Resumo

A presente tese estuda a ocorrência e propõe uma antologia do conto simbolista no Brasil, levantando as causas de sua omissão nos manuais de Educação Básica e da pouca atenção pela crítica especializada. Ao examinarmos a produção finissecular em prosa curta, encontramos notáveis autores que estagnaram suas obras em primeira e única edição e que jamais tiveram seus contos reproduzidos no todo ou em parte, em qualquer seleta de Literatura Brasileira, como Nestor Victor, Lima Campos, Rocha Pombo e Alberto Rangel, além de Gonzaga Duque, Oscar Rosas, Virgílio Várzea, Medeiros e Albuquerque, Gastão Cruls, Xavier Marques e o quase desconhecido Galpi (Galdino Pinheiro).
Assim, abordamos as críticas pouco receptivas do advento do Simbolismo e suas paráfrases na contemporaneidade, bem como a problemática da periodização literária que situa a estética de Cruz e Sousa entre as estreitas balizas de 1893-1902.
Portanto, através das onze narrativas consignadas e organizadas sob forma de antologia comentada, pretende-se resgatar estes autores e trazer à luz narrativas acentuadamente simbolistas, caracterizadas pela forte andamento poético, estilo dúctil, descrições pictóricas e cromáticas, de ricos recursos estilísticos, e armadas sobre uma fabulação peculiar e notável.

Marcos Estevão Gomes Pasche

Título:A improvável encruzilhada: neoclassicismo e modernidade em Alexei Bueno, Glauco Mattoso e Ivan Junqueira

Orientador: Sérgio Fuzeira Martagão Gesteira 

Páginas:119

Resumo

A tese A improvável encruzilhada: neoclassicismo e modernidade em Alexei Bueno, Glauco Mattoso e Ivan Junqueira estuda a obra desses três poetas brasileiros contemporâneos com o objetivo de identificar de que maneira a poesia neoclássica é recebida pela crítica literária atual, em algumas de suas modalidades – a jornalística, a universitária e a que atua nos prêmios literários, por exemplo. A pesquisa, dividida em duas partes, procura demonstrar, em seu início, que o classicismo não é um termo de significado artístico absolutamente uniforme, e sua variedade se confirma nos momentos em que é retomado ao longo da história da arte. Em seguida, a tese analisa como os estilos literários brasileiros caracterizados como neoclássicos são avaliados por historiadores e críticos, e, após a análise, constata que, por consequência da ideologia vanguardista, a poesia tradicionalista feita depois do Modernismo é interpretada como retrógrada. Por se manter na atualidade, esse tipo de interpretação permite relativizar as teses afirmadoras da pluralidade pós-modernista e contemporânea. Na segunda parte, a tese estuda especificamente as obras poéticas de Ivan Junqueira, Alexei Bueno e Glauco Mattoso, destacando suas particularidades artísticas, realçando o que neles é tradicional e moderno, afirmando, por fim, que suas poéticas dão ao conceito de contemporaneidade um significado problemático e inovador.

Mariana Conde Moraes Arcuri

Título: A presença da imagem nos contos de Joaquim Cardozo

Orientador: Godofredo de Oliveira Neto 

Páginas:106

Resumo

Medianamente conhecido como poeta, Joaquim Cardozo é quase absolutamente desconhecido em sua pequena, porém vigorosa e única, produção ficcional. Os doze contos escritos por Cardozo foram reunidos pelo próprio para publicação em volume, a se chamar Água de chincho, mas permaneceram inéditos em livro por mais de 25 anos após sua morte, em 1978. Seus contos quase todos indicam relatos de experiências pessoais, respiram uma atmosfera de vivência particular, não apenas por apresentarem uma narrativa de primeira pessoa, mas, sobretudo, por contarem com um narrador que comumente embute no texto um tom de veracidade e incute a idéia de se tratar de um episódio ocorrido de fato. O tratamento essencialmente narrativo conferido a certos contos, além da frequência significativa de trechos assaz descritivos, por vezes os torna semelhantes a simples crônicas sobre paisagens e acontecimentos aleatórios. No entanto, a narrativa escapa ao clima de desenvolvimento de um relato mero – e aí Cardozo se mostra bruxo oportuno, ajuntando sentidos, memória, sonhos, tensão e desarranjos psíquicos em imagens reiteradas. São exatamente seus contos e suas imagens, profundamente vinculados ao sonho, ao fantástico e ao sobrenatural, que buscamos analisar neste trabalho, bem como a forma pela qual esse mesmo elemento maravilhoso se insere na prosa cardoziana.

Máxima de Oliveira Gonçalves

Título:Desejo, interdito e transgressão na poética de Cruz e Souza

Orientador: Godofredo de Oliveira Neto 

Páginas:162

Resumo

Desejo, interdito e transgressão na poética de Cruz e Sousa defende a tese de que a obra do poeta catarinense esteve, desde seus primeiros livros, permeada por uma recorrente eroticidade. Em Broquéis, os versos exprimem o desejo por mulheres, em sua maioria, brancas e inacessíveis. No entanto, ao longo de sua produção literária, esse desejo por musas europeias e distantes vai aos poucos sendo substituído por mulheres de descendência africana, acessíveis e de intensa sensualidade. Talvez o poeta tenha escrito os seus mais belos versos inspirado nessas deusas de ébano.
O erotismo em Cruz e Sousa fundamenta-se também no modo infrator de utilizar recursos melódicos e visuais, criando, assim, uma linguagem poética original. Outra especificidade desse viés transgressor do poeta encontra-se na quebra da estrutura sintática, acarretando numa aparente desordem formal que irá, todavia, por meio de uma linguagem concentrada em si mesma e de uma musicalidade singular, permitir-lhe maior liberdade expressiva. O uso de tais procedimentos o aproximará de poetas decadentistas franceses, especialmente de Charles Baudelaire – cuja estrutura poética, de intensa força sonora, se distanciava da ordem lógica e objetiva – concedendo-lhe importante papel na lírica do Modernismo brasileiro. Os reflexos da experimentação com a linguagem de Cruz e Sousa incidem, ainda hoje, em poetas afrodescendentes da literatura nacional, legitimando, assim, mais uma vez, a grandeza de sua obra.

Nubia Graciella Mendes Mothé

Título:Notícias de além-mar: variação e mudança no uso de infinitivo gerundivo no português europeu ao longo do século XX

Orientador: Afranio Gonçalves Barbosa 

Páginas:117

Resumo

Esta tese investiga, diacrônica e diatopicamente no Português Europeu (PE), a variação entre as formas nominais que indicam aspecto progressivo em Língua Portuguesa: o gerúndio e a construção a + infinitivo, chamada de infinitivo gerundivo. Usando os pressupostos teóricos da Sociolinguística Histórica de base laboviana, o objetivo central desta tese foi encontrar fatores que condicionaram o avanço do infinitivo gerundivo em terras lusas, buscando observar, ao alcance do nosso corpus de análise, como essa construção se distribui ao longo do tempo (século XX) e do espaço do território lusitano. Pretendia-se, também, confirmar se essas regiões de Portugal antes apontadas como mais conservadoras quanto ao uso do gerúndio permanecem com tal comportamento e, se sim, em que medida e circunstâncias.
Os resultados obtidos sugerem que o avanço do infinitivo gerundivo no PE foi mais significativo em três diferentes fases ao longo do século XX: na virada da década de 1920 para 1930; depois, na virada da década de 1950 para 1960; e ao fim do século XX, entre as décadas de 1980 e 1990. Tal avanço, ainda segundo nossos dados, teria se dado de forma mais expressiva nas construções perifrásticas formadas pelos verbos auxiliares estar, andar, ficar e continuar + a + infinitivo. Outro resultado bastante relevante desta pesquisa sinaliza que o infinitivo gerundivo tem sido usado, ao menos nas notícias dos jornais do século XX utilizadas como corpus, de forma indistinta em todas as cinco regiões de Portugal estudadas, o que pode indicar tanto uma padronização desse gênero textual quanto uma generalização da variante inovadora mesmo nas regiões frequentemente apontadas como conservadoras.
Ademais, para além do estudo de cunho variacionista, uma parte essencial da tese diz respeito à própria construção do corpus de análise, composto por notícias de jornais portugueses do século XX provenientes das cinco regiões de Portugal estudadas (Norte, Centro, Lisboa, Alentejo e Algarve). Esse material inédito, levantado diretamente dos arquivos portugueses durante estágio no exterior, composto a partir de edições de periódicos da imprensa nacional e da imprensa regional portuguesas de cada uma das décadas do século XX, é riquíssimo não somente para este trabalho, mas para posteriores investigações acerca dos mais variados temas, tais como língua, literatura e sócio-história lusitanas.

Rafael Santana Gomes

Título: Lições do Esfinge Gorda

Orientador: Teresa Cristina Cerdeira 

Páginas:315

Resumo

A proposta desta tese é a de ler as narrativas Princípio, A Confissão de Lúcio e Céu em Fogo de Mário de Sá-Carneiro a partir do conceito de educação às avessas. Ao proclamar a autonomia da arte, a geração de Orpheu rejeitava o pensamento oitocentista que entrelaça educação e literatura, e que caracteriza o projeto tanto da estética romântica quanto da realista. Promulgando a ideia da autorreferencialidade da arte, o Modernismo português – na contramão da grande tradição do século XIX – rechaça, com veemência, a noção de que o artista seria aquele que tem uma missão social a cumprir. No entanto, ao produzirem uma literatura que visava a romper com uma vertente marcadamente engajada por meio de gestos rebeldes e iconoclastas, os de Orpheu acabaram por propagar o anseio por uma nova pauta de valores autênticos, contribuindo, a seu modo, para a renovação das consciências. Herdeiro das reformulações éticas e estéticas do movimento finissecular – ao qual a sua tertúlia literária declaradamente se filia –, Mário de Sá-Carneiro constrói na sua obra um mundo onírico e abstrato, assinalado pela quebra da lógica e da racionalidade científica, propondo, desta forma, um novo e perverso conceito de educação, que se inscreve no avesso do modelo anterior.

Rhea Sílvia Willmer

Título: Ana Luísa Amaral e Ana Cristina Cesar: modos de pensar o feminino na poesia contemporânea em português

Orientador: Jorge Fernandes da Silveira e Rosa Maria Martelo Fernandes Pereira Páginas:153

Resumo

Ana Cristina Cesar (1952-1983) e Ana Luísa Amaral (1957) problematizam a subjetivação no feminino a partir da tradição literária, enquanto Ana Cristina Cesar, de certa forma, apropria-se de um lugar na tradição Modernista brasileira, escrevendo como nenhuma mulher modernista chegou a escrever, Ana Luísa Amaral prefere retomar a tradição e subvertê-la, evitando colocar-se ao lado dessa tradição. Pretendemos, a partir disso, observar como a questão da revisão da tradição erudita se apresenta na poesia a partir de um olhar no feminino.

 

Rosângela Gomes Ferreira

Título:Um tipo de consteução XYZ: nova proposta de análise

Orientador: Maria Lucia Leitão de Almeida 

Páginas:195

Resumo

Esta tese se propõe a estudar o angulador “um tipo de”, que, por sua vez, instancia possibilidades da construção XYZ. Para a abordagem desse tema, lançaremos mão dos pressupostos da Linguística Cognitivista, (LAKOFF (1987), mais especificamente da Teoria dos Espaços Mentais (FAUCONNIER (1985, 1994, 1997), FAUCONNIER & TURNER (2002), TURNER (1997)) e estudos recentes de Bybee (2010). Os anguladores são elementos que flexibilizam as fronteiras entre os itens escopados, apontando para a subjetividade do falante, indicando, na linguagem, processos que acontecem em nossas mentes e que não podemos nem ver nem ouvir. Os principais reconhecimentos desta tese são: 1) a necessidade de se fazer um recorte para estudar a categoria dos anguladores; 2) a construção específica na língua que é instanciada pelo angulador em análise, no caso, a XYZ; 3) as diversas estruturas léxico-gramaticais e os tipos de redes de integração conceptual ativados por tal construção; e 4) o fato de essas construções apresentarem o mesmo mapeamento conceptual, mas com níveis de complexidade distintos, provenientes do nível de abstratização que elas apresentam. As duas principais contribuições desta tese são a comprovação, com base em um fenômeno da língua portuguesa, de que realmente não há distinção entre os diversos níveis da gramática, premissa básica em Linguística Cognitiva, e a sugestão de que os anguladores analógicos apontam para a perspectivização do falante, confirmando a ideia de língua como atividade constitutiva, visto que é um espaço de criação e recriação da realidade.

Roberto Costa Assumpção

Título: A dialética do bem e do mal em Grande Sertão: Veredas

Orientador: Ronaldes de Melo e Souza 

Páginas:147

Resumo

Este trabalho propõe-se a interpretar Grande Sertão: Veredas – na perspectiva do discurso narrativo – como um jogo de forças antagônicas. A dialética do bem e do mal mostra características que o romance apresenta e como se utiliza de elementos poéticos, míticos, religiosos e narrativos para criar este mundo amplo e particular, onde forças contraditórias formam um todo homogêneo. O título da Tese dá a justa medida da imaginação poética que o universo rosiano demanda, pois “tudo é e não é”. Dessa forma o trabalho se divide em cinco partes: o narrador, inspirações do narrador, o mal encarnado, o mal e o pacto e os adversários do mal. Capítulos que procuram demonstrar como esta dialética de bem e mal perpassa o romance sob vários aspectos, indicando que o imbricamento entre as forças maléficas e divinas constituem o caminho rumo à sabedoria: travessia. Nossa hipótese postula que nos vários planos estruturais da obra coexistem oposições, conflitos e reversibilidade entre as potências do bem e do mal. E tais oposições determinam que uma perspectiva sábia está no conhecimento de que estas oposições devem coexistir e auxiliar na caminhada das veredas da existência.

Simone Cristina Manso Escobar

Título: Abel Botelho – escritor “de entre tempos”: literatura e artes plásticas em diálogo

Orientador: Luci Ruas Pereira 

Páginas:227

Resumo

Esta pesquisa propõe a leitura de dois romances do escritor Abel Botelho: O Barão de Lavos (1891), e O Livro de Alda (1898). As duas obras analisadas integram a série intitulada Patologia Social, que ainda conta com mais três romances: Amanhã (1901), Fatal Dilema (1907) e Próspero Fortuna (1910). Abel Botelho foi um escritor que produziu sua obra, essencialmente, no último quartel do século XIX, período conhecido como fin-de-siècle. As constantes referências à arte, seja ao clássico grego, seja ao clássico renascentista e ao barroco, observadas ao longo dos romances; certos vestígios de cariz romântico, em parte herdados de Camilo Castelo Branco, em parte das próprias tendências neorromânticas finisseculares, ao lado de sua evidente filiação ao naturalismo, transformam-no num escritor que, ao contrário de certa crítica, que o vê como ortodoxo, fazem de Abel Botelho um escritor que não se fixa apenas em uma escola literária. Nesta tese objetiva-se a análise e interpretação dos romances O Barão de Lavos e O livro de Alda pelo viés estético, propondo refletir sobre o diálogo entre as duas formas artísticas presentes nos textos – a literatura e a pintura –, ambas produtoras de imagens, e sobre o modo como os tendências artísticas fin-de-siècle nelas se manifestam. Ao ponto de permitir que seja considerado um escritor de “entre tempos”, em quem se reconhece a filiação ao realismo-naturalismo com incursões significativas pelo decadentismoexpressionismo.

Simone Sant'Anna

Título: Polifonia e metáfora no discurso de Dilma Rousseff: a construção do ethos

Orientador: Aparecida Lino Pauliukonis 

Páginas:132

Resumo

A presente pesquisa enfoca o emprego de recursos da polifonia e da metáfora no discurso oficial de Dilma Rousseff como uma importante e produtiva estratégia argumentativa para a construção de sua imagem (ethos) como primeira mulher eleita presidente do Brasil. Tradicionalmente tratadas como figuras de linguagem ou meros recursos estilísticos, as estruturas metafóricas passam a ser consideradas hoje importantes instrumentos cognitivos da linguagem corrente e um dos meios mais frequentes de expansão semântica dos itens lexicais. Assim, a metáfora passa a ser vista como fenômeno conceitual e importante modelo cognitivo de apreensão da realidade. A presente perspectiva pretende, assim, uma nova abordagem da metáfora e dos conceitos de dialogismo e polifonia propostos por Bakhtin (1995), ao investigar o caráter argumentativo e a função discursiva que os efeitos de sentido de seu emprego acarretam. Com base nos princípios da Análise do Discurso e nos conceitos de ethos, pathos da Nova Retórica, das noções de dialogismo e polifonia bakhtinianos e de metáfora conceptual da Linguística Cognitiva, realizou-se uma análise dos trechos nos quais as ocorrências metafóricas apresentam função retórico-argumentativa, responsável pela construção de imagens (ethé) da Presidente Dilma, capazes de convencer o auditório visado (pathos) do universo de seus eleitores. O corpus foi constituído por ocorrências em 48 discursos políticos oficiais sobre temas diversos proferidos pela presidente Dilma Rousseff, durante o primeiro semestre de 2011, primeiro ano de seu governo, obtidos no site do planalto http:∕∕www2.planalto.gov.br. O arcabouço teórico utilizado conta com contribuições da Teoria Semiolinguística de Charaudeau (2008), dos conceitos de ethos prévio e ethos discursivo de Maingueneau e Amossy (2008; 2011), da Semântica argumentativa de Anscombre e Ducrot (1997) e da visão da metáfora conceptual, a partir das propostas de Lakoff & Johnson (2002). Os resultados da análise apontam que a escolha polifônica e metafórica está diretamente relacionada ao propósito argumentativo do sujeito enunciador, constituindo-se sua análise uma proposta bastante produtiva para o tratamento do texto argumentativo.

Veronica Prudente Costa

Título: Muraida: a tradição literária de viagens em questão

Orientador: Jorge Fernandes da Silveira 

Páginas:158

Resumo

Em 1785, o militar português Henrique João Wilkens, que estava a serviço da Coroa portuguesa nas Comissões de Demarcação dos Limites nos ―sertões‖ amazônicos, escreve o poema Muhuraida ou Triumpho da fé na bem fundada Esperança da enteira Conversão, e reconciliação da Grande, e feróz Nação do Gentio Muhúra, no quartel da Vila de Ega, atual cidade de Tefé- AM. Muraida é o primeiro texto poético, com estrutura épica, escrito em Língua Portuguesa, sobre um tema relativo ao território que hoje se configura como amazônico, e através desse épico podemos vislumbrar uma das faces dessa empreitada colonial. A etnia Mura, qualificada como ―abominável‖, ―feroz‖ e ―indomável‖ é o objeto do ―triunfo da fé‖ celebrado no poema de Wilkens. Privilegiando as ideias de Eduardo Lourenço sobre a colonização portuguesa no Ocidente, estabelecemos um contraponto entre o colonizador e o colonizado, privilegiando a imagem construída sobre o índio Mura, a partir do olhar do colonizador e a construção imagística que o colonizador fez sobre a Amazônia. Discutimos o conceito de literatura de viagens e levantamos a hipótese de que Muraida pode ser inserida nesta vertente do cânone lusitano, a partir das tensões, convergências e divergências entre este épico e o mais importante texto de viagens da Literatura Portuguesa, Os Lusíadas, de Camões. A partir dessa leitura comparada e das tensões analisadas, defendemos que Muraida, assim como Os Lusíadas, configura-se como o olhar e a voz do colonizador, ainda que pretensamente desenvolva perspectivas da voz do Outro.

Vinicius Maciel de Oliveira

Título: Análise de construções de movimento no português brasileiro

Orientador: Marcia dos Santos Machado Vieira 

Páginas:145

Resumo

Objetivo desta tese é o de analisar construções de movimento do português que se estruturam em torno do verbo ir. Com base na hipótese de que esse verbo forma com o complemento preposicionado e o sujeito uma construção gramatical, tal como propõe Goldberg (1995), investigam-se (i) as propriedades morfossintáticas e semânticas que envolvem toda a construção e os elementos que dela participam; (ii) a relação entre as instâncias de uso, ou contextos de uso, e a emergência de construções com ir, de modo que se demonstre que a construção analisada é uma instanciação de uma construção maior de movimento; (iii) os processos semânticos, identificados neste estudo como metaforização e metonimização, que permitem observar graus distintos de extensão semântica dos elementos constituintes da construção; e (iv) o nível de fusão entre os itens da construção, para que se verifiquem diferentes tons de lexicalidade.
Para a descrição das propriedades morfossintáticas e semânticas, verificam-se aspectos sobre o sujeito, como animacidade e controle, sobre a preposição, buscando-se estabelecer diferenças, sobretudo semânticas, entre o uso de a, para e em, sobre o sintagma nominal projetado pela preposição, pautando-se num continuum que vai de locativos prototípicos, como casa, fazenda até elementos que não fazem referência, sequer indireta, a locativos, como é o caso dos itens loucura e falência e sobre o próprio verbo ir, que será analisado tendo em vistas suas flexões, seus usos em contextos de movimento bem genérico e em contextos de processos recorrentes que, segundo Bybee (2010), se tornam hábitos.
Para a explicação da emergência de construções de movimento com ir, buscam-se orientações em Goldberg (1995) sobre o conceito de construção gramatical e como processos de ordem cognitiva podem levar a tal emergência. Avalia-se, também, a pertinência dos pressupostos de Bybee (2010) e de Dik (1997), acerca de contextos discursivos. A primeira colabora teoricamente, no que concerne ao já citado de unidades pré-fabricadas, cujo conceito dialoga, sobremaneira, com o de idiomaticidade. O segundo autor fundamenta esta tese no que diz respeito às definições de predicado e predicação.
Sob a hipótese de que ir não sofre os efeitos do processo de gramaticalização por inteiro, já que não é possível descrever tal item verbal sob a concepção de um cline Léxico > Gramática, a pesquisa busca evidências para demonstrar que esse verbo passa por estágios iniciais de gramaticalização, nos quais se observa processos de extensão semântica que caminham para uma subjetivação/abstratividade.
Com a finalidade de testar níveis distintos de lexicalidade, a partir da observação do grau de fusão entre os itens da construção, recorre-se a fontes como Brinton e Traugott (2005), sobre os princípios fundamentais da lexicalização e as propriedades que fazem jus a uma abordagem em interface à gramaticalização; e Zuluaga (1975) e Esteves (2012), acerca de parâmetros de checagem de uma estrutura lexicalizada.
Diante dessas análises empreendidas, percebe-se a participação de ir em uma construção de movimento que decodifica eventos gerais e costumeiros, o que pode gerar o desgaste específico da construção e fazendo com que ela se associe a contextos bem abrangentes. Por ser um verbo de orientação dêitica, como define Vilela (1992), as construções analisadas sempre exibirão um movimento de aproximação ao espaço, físico ou não, do interlocutor. O grau de referencialidade desses movimentos sofrem interferências, de acordo com os níveis de expansão semântica e de fusão entre os integrantes da construção.

Vivian de Oliveira Quandt

Título: A lateral palatal no português do Brasil e no português europeu

Orientador: Silvia Figueiredo Brandão e João Antônio de Moraes 

Páginas:215

Resumo

Objetivo desta tese é o de analisar construções de movimento do português que se estruturam em torno do verbo ir. Com base na hipótese de que esse verbo forma com o complemento preposicionado e o sujeito uma construção gramatical, tal como propõe Goldberg (1995), investigam-se (i) as propriedades morfossintáticas e semânticas que envolvem toda a construção e os elementos que dela participam; (ii) a relação entre as instâncias de uso, ou contextos de uso, e a emergência de construções com ir, de modo que se demonstre que a construção analisada é uma instanciação de uma construção maior de movimento; (iii) os processos semânticos, identificados neste estudo como metaforização e metonimização, que permitem observar graus distintos de extensão semântica dos elementos constituintes da construção; e (iv) o nível de fusão entre os itens da construção, para que se verifiquem diferentes tons de lexicalidade. Para a descrição das propriedades morfossintáticas e semânticas, verificam-se aspectos sobre o sujeito, como animacidade e controle, sobre a preposição, buscando-se estabelecer diferenças, sobretudo semânticas, entre o uso de a, para e em, sobre o sintagma nominal projetado pela preposição, pautando-se num continuum que vai de locativos prototípicos, como casa, fazenda até elementos que não fazem referência, sequer indireta, a locativos, como é o caso dos itens loucura e falência e sobre o próprio verbo ir, que será analisado tendo em vistas suas flexões, seus usos em contextos de movimento bem genérico e em contextos de processos recorrentes que, segundo Bybee (2010), se tornam hábitos. Para a explicação da emergência de construções de movimento com ir, buscam-se orientações em Goldberg (1995) sobre o conceito de construção gramatical e como processos de ordem cognitiva podem levar a tal emergência. Avalia-se, também, a pertinência dos pressupostos de Bybee (2010) e de Dik (1997), acerca de contextos discursivos. A primeira colabora teoricamente, no que concerne ao já citado de unidades pré-fabricadas, cujo conceito dialoga, sobremaneira, com o de idiomaticidade. O segundo autor fundamenta esta tese no que diz respeito às definições de predicado e predicação. Sob a hipótese de que ir não sofre os efeitos do processo de gramaticalização por inteiro, já que não é possível descrever tal item verbal sob a concepção de um cline Léxico > Gramática, a pesquisa busca evidências para demonstrar que esse verbo passa por estágios iniciais de gramaticalização, nos quais se observa processos de extensão semântica que caminham para uma subjetivação/abstratividade. Com a finalidade de testar níveis distintos de lexicalidade, a partir da observação do grau de fusão entre os itens da construção, recorre-se a fontes como Brinton e Traugott (2005), sobre os princípios fundamentais da lexicalização e as propriedades que fazem jus a uma abordagem em interface à gramaticalização; e Zuluaga (1975) e Esteves (2012), acerca de parâmetros de checagem de uma estrutura lexicalizada.
Diante dessas análises empreendidas, percebe-se a participação de ir em uma construção de movimento que decodifica eventos gerais e costumeiros, o que pode gerar o desgaste específico da construção e fazendo com que ela se associe a contextos bem abrangentes. Por ser um verbo de orientação dêitica, como define Vilela (1992), as construções analisadas sempre exibirão um movimento de aproximação ao espaço, físico ou não, do interlocutor. O grau de referencialidade desses movimentos sofrem interferências, de acordo com os níveis de expansão semântica e de fusão entre os integrantes da construção.