dissertações

Quadrênio 2016 - 2013

Total de dissertações defendidas: 69

DISSERTAÇÕES DEFENDIDAS EM 2016

Total de dissertações defendidas: 18

Alexandra Valéria Linhares Figueiredo de Andrade Santos

Título: A consciência poética em Paulo Leminski

Orientadora: Anélia Montechiari Pietrani 

Páginas: 97

Resumo

Defensor da liberdade na linguagem, Paulo Leminski se apoiou na premissa de que “a poesia está em toda parte”. Criou textos que suscitam reflexões sobre o que é a poesia, defendendo a tese de que ela não serve para nada. Percebendo no desenvolver da escrita do poeta a paixão pela palavra e a consciência do dizer, esta pesquisa considera o poeta a partir da perspectiva de sua consciência poético-crítica. Nesse sentido, os estudos sobre poesia segundo Walter Benjamin, com destaque para a sua teorização sobre o pensamento dos românticos alemães de Jena, bem como os de Hugo Friedrich, Alfonso Berardinelli e Michael Hamburguer são os pontos de partida para a leitura de poemas de Leminski que refletem sobre o ato da escrita sob três pontos de vista: o da poesia marginal, o do próprio poema, e o de um tom intimista.

Bruna Cupello Araripe Pereira

Título: A expressão do aspecto de fases no Português: um novo olhar centrado em construções perifrásticas

Orientador: Marcia dos Santos Machado Vieira 

Páginas:138

Resumo

O Português é caracterizado por uma variedade sincrônica de estratégias a serviço da expressão de aspecto. Esta dissertação descreve esse fenômeno focalizando construções com verbos (semi)gramaticalizados, que marcam as fases inicial e final de um estado de coisas, tais como: começar/desatar/passar/pôr-se a Vinf (verbo no infinitivo) e acabar/deixar/parar/terminar de Vinf, entre outras possibilidades. E, com base no exame de constructos que atualizam tais construções e que foram identificados em diversas fontes de textos, estimamos uma rede construcional que exponha interrelações e desdobramentos entre os padrões detectados.

Na pesquisa, procuramos: (i) averiguar que forma(s) verbal(is) se aciona(m) com frequência na expressão dos aspectos inceptivo e terminativo e por quais motivações semânticas, discursivas e/ou pragmáticas, bem como as frequências type e token das construções perifrásticas; (ii) examinar o grau de gramaticalidade dos recursos verbais detectados nas perífrases empregadas para expressão de aspecto inceptivo e terminativo e destas também; (iii) verificar se construções com verbos (semi)auxiliares aspectuais teriam como característica a multifuncionalidade e as condições desta; (iv) investigar em que medida elementos do próprio contexto linguístico e/ou diferentes perspectivas de apreensão do evento em si poderiam acarretar alguma ambiguidade ou fluidez entre sentidos relacionados a essas noções aspectuais; (v) esboçar uma proposta de rede construcional que dê conta de descrever as microconstruções com verbos (semi)auxiliares aspectuais relacionadas ao corpus e até prever a formulação de microconstruções com menor grau de convencionalidade.
Pretendemos – a partir de um enfoque em que procuramos aliar uma abordagem construcionista (com base em GOLDBERG, 1995 e 2006, e TRAUGOTT E TROUSDALE,xi 2013, principalmente) a orientações funcionalistas tomadas desde o início desta trajetória como aporte teórico-metodológico (entre as quais, DIK, 1997) – propiciar um olhar minucioso sobre pareamentos de forma-sentido com os quais se alcança a expressão do aspecto gramatical na língua portuguesa, considerando, ainda, a perspectiva do conceptualizador na emissão de determinadas formas gramaticais e suas implicações para o nível do discurso.

Assim, recorremos à coleta e à busca de dados da expressão de aspecto gramatical, nas mais diversas fontes, nas modalidades expressivas fala e escrita e nas variedades brasileira e portuguesa. A amostra de 516 enunciados coletados foi submetida a um estudo qualitativo que procuramos desenvolver sob uma ótica funcional(-cognitiva). Somam-se a esses dados enunciados que reunimos, via ferramenta de busca na internet, para lidar com algumas questões que se impuseram no decorrer da análise do corpus.

Ao fim dessa dissertação, estimamos um esquema construcional e cognitivo subjacente à compatibilização de verbos os quais, ao longo do tempo, se rotinizaram como marcadores aspectuais (já canônicos e, ainda, não-canônicos) e, então, gramaticalizaram-se, tornando-se (semi)auxiliares aspectuais que podem ser acionados a compor o padrão abstrato da construção de aspecto inceptivo e terminativo em que opera verbo instrumental (V1) : [V1 (semi)auxiliar aspectual (não)finito + preposição + V2 infinitivo]. Tencionamos, em última instância, fornecer novos subsídios para a descrição de construções com verbos (semi)auxiliares do Português centrada em usos linguísticos e, ainda, proceder a uma análise crítica da contribuição que alcança por conta do referencial teórico-metodológico com que buscamos tratar do tema.

Carolina de Azevedo Turboli

Título: A travessia do narrador transforma o tempo em espaço: O céu não sabe dançar sozinho, de Ondjaki

Orientadora: Maria Teresa Salgado 

Páginas: 107

Resumo

O trabalho “A TRAVESSIA DO NARRADOR TRANSFORMA TEMPO EM ESPAÇO: ‘O CÉU NÃO SABE DANÇAR SOZINHO’, DE ONDJAKI” visa estudar o narrador-escritor da obra de Ondjaki analisando a Travessia escrita e afetiva que transforma Tempo em Espaço através do narrado. Em um primeiro momento, nos aproximamos do narrador e dos pilares narrativos que edificam a arquitetura do livro. Dividido em quatro partes simétricas, com vinte contos, procuramos os índices narrativos que regem a orquestração harmônica das estórias – o Encontro, o Afeto, a Narração, o Seguir – a partir de pensadores como Faria (2005), Campbell (2005), Frayze-Pereira (2005), Gumbrecht (2012), Padilha (2005), e a partir da própria obra de Ondjaki. Questões como o estranhamento, o espelhamento, o mistério, o duplo, a dança, a fruição e a repetição nos guiam durante a análise dos contos, deflagrando o momento da travessia contido em cada uma das partes do livro. A hipótese é a de que, a partir da vivência temporal, o narrador-escritor instaura um Espaço material onde pode guardar o tempo através da alquimia característica dos poetas, que encontram no Verbo uma luz atemporal na qual podem morar.

Elisa Andrade Costa

Título: Observador de nuvens que o vento leva: a presença da natureza nas crônicas de Rubem Braga

Orientador: Godofredo de Oliveira Neto 

Páginas: 106

Resumo

Esta pesquisa consistiu em analisar a presença reincidente da natureza nas crônicas de Rubem Braga. Para isso elegemos a categoria analítica de espaço dentro da qual exploramos essa reincidência, tanto no campo quanto na cidade, que age em grande parte dos textos, como mola propulsora à poética na prosa bragueana, característica máxima do autor. Como meio para tratar de toda a obra por uma parte dela, já considerada amadurecida por ser intermediária, escolhemos o livro Ai de ti, Copacabana (1955-1960) na qual pretendemos analisar possíveis variações de sentido dessa paisagem aos olhos do narrador, que às vezes aparece associada a uma nostalgia romântica, outras, à admiração da flora brasileira expressa, principalmente através do Rio de Janeiro, potência cultural da época, e de Cachoeiro de Itapemirim, terra natal do cronista. Através dessa análise, destacamos o valor da obra do cronista, que embora tenha se dedicado exclusivamente à crônica, inseriu-a na categoria de literatura.

Francyne França

Título: Sentidos no silêncio: o vazio em Galáxias, de Haroldo de Campos

Orientador: Ronaldes de Melo e Souza

Páginas: 97

Resumo

Com uma proposta de abolição dos limites entre poesia e prosa, Haroldo de Campos nos apresenta cinquenta fragmentos textuais, cada um dos quais compostos por sucessivos impulsos narrativos, cujos desfechos, no entanto, jamais se revelam. Em Galáxias, o texto é submetido à ação incessante de uma força desagregadora, que enfraquece os nexos lógicos, transformando o fo discursivo em uma trama verbivocovisual. O presente trabalho dedica-se a investigar a produção de sentido a partir desses vazios discursivos, que fazem o pêndulo da linguagem oscilar em direção à concretude das palavras. Com uma ostensiva e aliciadora textura sonora, os efeitos de Galáxias, paradoxalmente, são sentidos no silêncio. Comovendo o leitor pelo que diz, mas também – e sobretudo – pelo que falha em dizer, o texto se converte em coisa a ser experimentada, mais do que apenas compreendida. Um convite à participação, o vazio é o espaço pleno de prováveis, instância extralógica, centro ativo de uma rede de relações inesgotáveis.

Giselle Roza Accampora

Título: Intertextualidade, mito e simbologia nos contos maravilhosos de Marina Colasanti

Orientadora: Anélia Montechiari Pietrani 

Páginas:112

Resumo

Considerando a obra de Marina Colasanti pouco contemplada criticamente, porém de alta qualidade, ela constitui o objeto de estudo deste trabalho, tomando por corpus os seguintes livros de contos da autora: Uma ideia toda azul (1978), Doze reis e a moça no labirinto do vento (1978) e Entre a espada e a rosa (1992). Almeja-se explorar os contos maravilhosos da autora Marina Colasanti, adotando como elementos norteadores a tríade intertextualidade, mito e simbologia, tento em vista sua recorrência e importância para uma interpretação coerente dos contos, o que lhes confere uma unidade. Para tanto, traremos à luz Vladimir Propp, Tzvetan Todorov, Wolfgang Iser, dentre outros teóricos. Propomos mostrar a intertextualidade como peça fundamental para a compreensão dos contos maravilhosos da autora, já que Marina Colasanti resgata histórias do inconsciente coletivo (mitos, lendas e contos de fada tradicionais) para explorar questões que reflitam sobre o comportamento humano, fazendo o leitor se deparar com as grandes questões da vida: seus medos, desejos, angústias, limitações.

Gizelly Fernandes Maia dos Reis Soares

Título: A descrição prosódica de enunciados assertivos neutros e interrogativos totais maranhenses: as toadas de um povo

Orientadora: Cláudia de Souza Cunha 

Páginas:125

Resumo

O presente trabalho objetiva descrever a variação regional da entoação em enunciados assertivos neutros e em enunciados interrogativos do tipo questão total nos falares de sete municípios do Estado do Maranhão. A fim de conhecer as realizações melódicas das questões totais e das assertivas, fez-se uma descrição melódica de 350 assertivas e 140 interrogativas do tipo questão total, selecionados do corpus do projeto Atlas Linguístico do Brasil (projeto ALiB) que esboçam tais modalidades. Foram ouvidos quatro informantes por município, distribuídos equitativamente por duas faixas etárias – 18 a 30 anos e 50 a 65 anos. Optou-se por investigar as marcas regionais apresentadas por meio da variação da frequência fundamental, especialmente nos acentos pré-nuclear e nuclear. Para tanto, observou-se o comportamento da frequência fundamental no domínio do sintagma entoacional (I), nas sílabas indiscutivelmente relevantes no enunciado. Para a descrição entoacional dos diferentes municípios maranhenses, utilizamos os preceitos teóricos presentes no modelo autossegmental métrico, para a interpretação fonológica. Para análise acústica, empregaremos o programa computacional PRAAT, onde segmentamos e transcrevemos todas as sílabas dos enunciados coletados. Os comportamentos melódicos encontrados para os municípios do interior em nossa pesquisa dialogam com os comportamentos melódicos ocorrentes na capital, postulados por Cunha, Silva e Silvestre (2014) e concorrem para uma ampliação na descrição dos estudos prosódicos. Para acrescentar aos resultados encontrados, ainda investigamos o alinhamento do pico da F0 e elaboramos um teste de percepção com maranhenses. A partir de nossa análise, tanto para as assertivas quanto para as interrogativas, parece que descrever apenas a F0 não é o suficiente para mostrar as particularidades da capital e do interior. Por isso recorremos ao alinhamento e ao teste de percepção. No que diz respeito aos resultados, observamos que (i) a variação melódica entre as localidades analisadas, nas assertivas, ocorreu na diferença da sílaba em que começa a ocorrer a queda melódica em direção à última pós-tônica de I; (ii) para descrição do acento pré-nuclear das assertivas foi considerável observar a altura melódica das sílabas-chaves, onde ora encontramos o descrito por Silvestre (2011) para o Nordeste – H* –, ora encontramos – !H* -; (iii) para as interrogativas, o acento nuclear se mostrou mais passível de variação, pois ocorre o movimento ascendente final e também o movimento ascendente-descendente; (iv) o pico da F0 nas assertivas está mais comumente localizado na pré-tônica do acento nuclear com pico majoritariamente alinhado à esquerda, já nas interrogativas, à direita da tônica final; (v) pelos resultados de alinhamento do pico nas interrogativas, Imperatriz e São João dos Patos seriam as cidades do interior que possuiriam a prosódia mais parecida com a da capital; (vi) o teste de percepção reforçou a facilidade de reconhecimento por meio das interrogativas; os maranhenses reconhecem com muita facilidade a fala de São Luís, mas não apresentam a mesma facilidade para reconhecer oitivamente os municípios do interior. Com este estudo podemos concluir que a questão total é a modalidade que agrupa mais marcas de diferenciação prosódica entre os municípios. Contudo, não há tantas diferenças prosódicas entre interior e capital, pois os comportamentos de F0 que encontramos na capital também encontramos nos municípios do interior. O que há são características que ocorrem em determinado município que o aproximam da prosódia da capital, mas não é algo exclusivo de um município, pois ora em uma modalidade se aproximam da prosódia da capital e em outra se afastam.

Julia Pinheiro Gomes

Título: Fernando Pessoa revisited: uma leitura de O Virgem Negra, de Mário Cesariny

Orientadora: Sofia Maria de Sousa Silva 

Páginas: 90

Resumo

Em Portugal, os movimentos do início do século XX tiveram, até certo ponto, um caráter vanguardista semelhante àquele das outras correntes europeias. No entanto, a influência da tradição parece ser também um elemento significativo desse momento da História da literatura portuguesa. É neste contexto que emerge uma das mais relevantes correntes do período, o Surrealismo. Cabe notar que, embora os autores surrealistas portugueses recorressem aos pressupostos franceses, eles mantinham um diálogo constante com a literatura de seu país. Lançando um olhar sobre a obra de um dos maiores expoentes do grupo, Mário Cesariny, observamos que ele faz parte de uma tradição moderna da poesia portuguesa. Neste cenário, fica clara a influência que a Geração de Orpheu e, principalmente, que Fernando Pessoa tiveram no autor. Dentre os diálogos estabelecidos com o autor de Mensagem, focalizamos uma obra menos conhecida, isto é, O Virgem Negra, que conta com três edições. Mais do que “louvar” e “simplificar”, neste livro, Cesariny cede o seu lugar de autor a Fernando Pessoa, o eu-lírico dos poemas. O poeta surrealista cria, então, um Pessoa, ora sexualizado e ora assexualizado, que reescreve sua biografia e desconstrói – por meio da paródia, da tradução, do comentário satírico e até mesmo da cópia – poemas consagrados. Além disso, fazendo as vezes de editor e objetivando possivelmente “explicar Fernando Pessoa às criancinhas naturais e estrangeiras”, como o subtítulo sugere, Cesariny insere na última parte do livro notas que visam aclarar o hermético texto pessoano. Buscaremos, portanto, analisar esse jogo de referências engenhosamente concebido por Mário Cesariny, observando como ele foi capaz de desmitificar Fernando Pessoa, considerado um dos maiores poetas portugueses de todos os tempos. Para tanto, proporemos uma leitura de alguns poemas do livro, procurando explicitar também questões relevantes para a sua compreensão, como a autoria, a citação, a heteronímia e o fingimento.

Juliana Magalhães Catta Preta de Santana

Título: Diagnose e ensino de pronomes: um estudo sobre a retomana anafórica do objeto direto de terceira pessoa no português brasileiro

Orientadora: Silvia Rodrigues Vieira 

Páginas: 206

Resumo

Esta pesquisa investiga a retomada anafórica do objeto direto de terceira pessoa como fenômeno gramatical variável no Português do Brasil e sua correlação com o ensino de pronomes no que concerne ao referido fenômeno. Para tanto, pauta-se no quadro teórico da Sociolinguística Variacionista (WEINREICH, LABOV & HERZOG, [1968] 2006; LABOV, [1972] 2008) e na Sociolinguística Educacional proposta por Bortoni-Ricardo (2004), além das contribuições de autores que têm desenvolvido discussões relevantes ao âmbito do ensino da Língua Portuguesa (cf. MARTINS; VIEIRA; TAVARES, 2014; VIEIRA, 2015, no prelo). Ao compreender o ambiente escolar, considera-se, aqui, especialmente relevante a atuação de três agentes: a orientação prevista no material didático; a mediação do professor; e a atividade de seus alunos. Assim, objetiva-se diagnosticar como se concretiza a integração e atuação dessa “tríade” no tratamento dispensado ao fenômeno linguístico em abordagem, a qual, julga-se, influencia mais diretamente o estudo da língua. Para tanto, foram realizadas três seções de análise: (i) análise do material didático utilizado pelas professoras em sala de aula, de forma a averiguar como este se comporta com relação à variedade existente no PB para o fenômeno linguístico em questão; (ii) análise de entrevista realizada por escrito com as referidas professoras, no intuito de alcançar sua compreensão sobre o espectro da variação e de normas de uso no PB; (iii) análise do corpus extraído de redações escolares corrigidas pelas mesmas professoras, de modo a compreender quais as estratégias de retomada encontradas na produção escrita dos seus estudantes e, ainda, verificar quais destas formas foram por elas corrigidas ou não e por que motivo. A partir da análise dos resultados obtidos, pode-se articular algumas reflexões para ensino, sobretudo no que tange à abordagem de fenômenos gramaticais variáveis, mais especificamente acerca das variantes do acusativo anafórico de terceira pessoa.

Karen Pereira Fernandes de Souza

Título: “Esposição de moveis| a qual se fechará brevemenre”: estudo de cláusulas relativas apositivas “desgarradas” em textos jornalísticos

Orientador: Violeta Virginia Rodrigues 

Páginas: 191

Resumo

Este estudo tem como objetivo investigar o uso das orações relativas apositivas “desgarradas” em textos de domínio jornalístico (notícia, editorial de jornal, artigo de opinião e anúncios) que foram publicados durante os séculos XIX, XX e XXI, disponíveis online na página eletrônica dos Projetos VARPORT, PEUL e PHPB.

Levando-se em conta a abordagem tradicional, tais orações são caracterizadas como “erro”, por não se encaixarem em nenhum título classificatório para orações no âmbito do período composto. Entretanto, como pesquisadores, devemos analisar a estrutura original construída pelo usuário da língua (perfeitamente compreendida pela comunidade de fala) e não ignorá-la por essa não se adequar aos rótulos da Gramática Tradicional.

Este trabalho está calcado nos preceitos do Funcionalismo Linguístico (que incluiu o nível pragmático na análise das orações) e do funcionalismo norteamericano (que rompeu com a dicotomia entre a Subordinação-Coordenação, propondo o contínuo Subordinação-Hipotaxe-Parataxe). Além disso, contou com pesquisas, cujo tema era o “desgarramento”, além de trabalhos que analisaram as orações adjetivas como um todo, pontuação e orações substantivas apositivas. Para localização e contagem de dados, utilizamos o programa AntConc e Word.

Os objetivos que pretendemos alcançar com esta dissertação são: (a) comprovar que existem cláusulas relativas apositivas “desgarradas” pelo quantitativo das ocorrências no domínio jornalístico do PB escrito dos séculos XIX, XX e XXI no Rio de Janeiro e comparar a frequência de uso dessas cláusulas ao comparar os séculos; (b) mostrar a relação forma-função semântica dessas estruturas; (c) mostrar a relação sintático-pragmática dessas cláusulas, graças à carga argumentativa presente nestes gêneros textuais; (d)8 mostrar a relação uso-monitoramento linguístico com a finalidade de observar se há estigma para o uso do “desgarramento” em textos de médio e alto grau de monitoramento linguístico.

As cláusulas ora analisadas eram e são empregadas na modalidade escrita, pois, dos 1.883 textos, obtiveram-se trinta e oito dados, comprovando a existência do fenômeno na língua escrita. Além disso, verificou-se que gêneros não argumentativos também podem promover o uso dessas estruturas; que essas cláusulas são importantes no processo de argumentação ao focalizar ideias e partes do texto; que o “desgarramento” não sofre estigma, uma vez que só apareceu em textos de monitoramento linguístico elevado.

Karilene da Silva Xavier

Título: A variação do rótico na música popular brasileira: de 1902 a 1960

Orientadores: Carolina Ribeiro Serra e Cláudia de Souza Cunha 

Páginas:148

Resumo

Nesta dissertação, estuda-se o processo de variação do rótico, em coda externa, a partir de canções gravadas entre 1902 e 1940 por nove intérpretes do gênero masculino, cariocas, disponibilizadas pelo Instituto Moreira Salles. A análise dos dados de um dos intérpretes, Vicente Celestino, foi estendida até 1960. Os objetivos são os seguintes: 1) recuperar as pronúncias do rótico na música; 2) capturar o processo gradual de diferenciação da realização do segmento; 3) verificar se os intérpretes seguiam normas de canto da época ou imprimiam às canções características próprias; 4) investigar a atuação do tempo para o fenômeno e 5) observar a atuação de fatores linguísticos e sociais. Para alcançar os objetivos estabelecidos, utiliza-se do aparato teórico-metodológico da Sociolinguística Quantitativa, e as etapas metodológicas compreendem: 1) seleção das canções, audição e transcrição fonética; 2) análise estatística dos dados e 3) interpretação dos resultados. Os resultados gerais obtidos a partir de 2858 dados coletados entre 1902 e 1940 são os seguintes: 1) o tepe é a realização predominante, alcançando 68,3% do total de dados 2) a vibrante anterior múltipla – a realização padrão para a linguagem dos meios de comunicação – ocorreu em um percentual inferior do que se esperava, 14,8%; 3) as fricativas, velar e glotal, ocorreram em um percentual inexpressivo, 1,3% e 4) o percentual de supressão foi de 15,5%. Os resultados a partir dos dados de Vicente Celestino revelam sua preferência por vibrantes, simples ou múltipla, por toda a sequência temporal e diferenças significativas entre sua fala cantada e espontânea.

Ludwig Ferreira Araujo

Título: Escritas de um mundo perdido: o Discurso oficial e a Ficção em A estranha nação de Rafael Mendes, de Moacyr Scliar

Orientador: Alcmeno Bastos 

Páginas: 103

Resumo

O objetivo do presente trabalho é, em um primeiro momento, demonstrar como através do artificio da metaficção historiográfica se consegue trazer à tona dados ocultados pela memória oficial, já que a escrita literária possibilita que se repense e se reconstrua a memória coletiva de maneira mais democrática. Pensa-se isso a partir da obra A estranha nação de Rafael Mendes porque a mesma retrata períodos de opressão na própria constituição do povo brasileiro, que bem pode ser entendida como a opressão pela qual o povo e, principalmente, a intelectualidade brasileira passaram no período ditatorial pós-golpe de 1964. Em um segundo momento, esta pesquisa analisa de que forma o romance de Moacyr Scliar abre espaço para outras obras de prestígio que se valem da metaficção historiográfica, se não para contarem outras versões da história antes reprimida pelo regime ditatorial, para abrirem espaço para outras versões da própria história oficial brasileira; além, claro, de situar A estranha nação de Rafael Mendes como obra central na ficção do próprio Moacyr Scliar.

Natasha Furlan Felizi

Título:A face antropofágica de Herberto Helder

Orientador: Jorge Fernandes da Silveira 

Páginas: 103

Resumo

Os pontos de contato entre a poética de Herberto Helder e a dos autores com os quais dialoga foram lidos por diversos críticos como a criação de uma tradição própria. Ao criar essa “tradição”, Herberto Helder subverte as noções genealógicas implicadas em uma leitura historicista da produção literária, que associaria os autores ao momento histórico em que produziram sua obra, estabelecendo relações de continuidade ou ruptura com escolas e autores de períodos anteriores. Uma das estratégias de Helder para a criação deste cânone próprio é o motivo da antropofagia, presente em sua obra tanto pelo recurso à temática do canibalismo, da carne e da boca, quanto pela atitude antropofágica em relação a textos de outros autores e expressões vernaculares de Portugal ou do Brasil. Este trabalho identifica alguns pontos de articulação desta postura com a Antropofagia brasileira criada por Oswald de Andrade. Três aspectos da antropofagia oswaldiana – o matriarcado, o canibalismo e textos indígenas e africanos – são utilizados para o exame da obra de Helder:a presença das imagens da mãe e da mulher, o motivo do canibalismo e as apropriações de textos alheios e os poemas ameríndios “mudados para o português”.

Natasha Gonçalves Otsuka

Título: “Somos um povo de caminhos salgados”: memória e máquina em Valter Hugo Mãe

Orientadora: Ângela Beatriz de Carvalho Faria 

Páginas: 106

Resumo

O romance de Valter Hugo Mãe, a máquina de fazer espanhóis (2011), corpus literário da pesquisa que será desenvolvida neste trabalho, é constituído a partir de dois movimentos: a emergência do passado no presente, com a evocação da memória da ditadura salazarista, e um olhar para o futuro, a partir da reinserção de Portugal em um novo panorama cultural e político europeu. Neste trabalho, buscamos investigar como os resquícios do fascismo permanecem ecoando na sociedade portuguesa, com destaque para as estratégias e os elementos utilizados para recriar um Portugal doutrinado, com base na metáfora do asilo como espaço de cerceamento. A máquina, mencionada no título, sugere uma representação alegórica da repressão portuguesa e da consequente desumanização. Adicionalmente, estudaremos, com base em obras de Adorno (2012), Arendt (2015), Bakhtin (1988), Benjamin (1987), Hutcheon (1991), Lourenço (1988), Rosas (2001), Sartre (1970), além de outros críticos e teóricos, o romance como forma, com os diferentes subgêneros abarcados na obra contemporânea, os diálogos intertextuais, entre outros temas.

Pedro Paulo Machado Nascimento Gloria

Título: A dialética do caos: uma interpretação de O cão e os caluandas de Pepetela

Orientadora: Maria Teresa Salgado Guimarães da Silva 

Páginas: 89

Resumo

Muitos equívocos se cometem em relação à dialética quando utilizada como justificativa de uma única doutrina ou visão de mundo. Isso não constitui dialética, visto que, nesse caso, não se distingue contrários para diálogo, síntese ou superação, mas para combate e posterior vitória de um deles, identificado com o bem. A partir desse ponto de vista pseudo-dialético, maniqueísta por excelência, toda a realidade é julgada com base nos padrões determinados pela doutrina “correta”: é nesse âmbito que interpretamos O Cão e os caluandas de Pepetela como uma narrativa que provoca o questionamento dessa pseudo-dialética que, na verdade, busca submeter o real a uma variedade de dualismos. Esse questionamento se dá por um modo dialético de se lidar com o real que, na obra, se revela pelos relatos feitos da presença de um cão andarilho pela cidade de Luanda. Este simboliza o caos, porém não como um valor meramente negativo, mas como aquilo que permite a criação do novo e do inesperado para além de qualquer dualismo intransigente. O caos suscitado nos personagens pela chegada desse cão acaba por refutar dogmas pessoais e sociais fundamentados numa visão de mundo maniqueísta.

Priscila Francisca dos Santos

Título: Da região da Costa Verde ao Noroeste Fluminense: a prosódia dos enunciados interrogativos totais do Rio de Janeiro

Orientadora: Cláudia de Souza Cunha 

Páginas: 117

Resumo

A presente pesquisa visa oferecer uma contribuição aos estudos de prosódia dialetal do português do Brasil. Para isso, apresenta uma descrição da entoação de enunciados interrogativos do tipo questão total representantes dos falares fluminenses a fim de delinear o perfil prosódico de cada localidade. O corpus utilizado na feitura deste trabalho é composto por 364 frases, todas retiradas de gravações digitalizadas feitas para o Atlas Linguístico do Brasil. À exceção da capital carioca, todos os 14 municípios que constituem ponto de inquérito no estado do Rio de Janeiro foram contemplados neste estudo. Ouviram-se quatro informantes em cada cidade, dois homens e duas mulheres, distribuídos equitativamente por duas faixas etárias: 18-30 anos e 50-65 anos. A análise dos dados foi feita com o auxílio do programa computacional Praat. Os resultados vão ao encontro dos padrões melódicos descritos por Moraes (2008) e por Silva (2011) para a capital do Rio de Janeiro. O acento pré- nuclear caracterizou-se por uma proeminência localizada, em geral, na primeira sílaba tônica. Para as análises referentes ao acento nuclear, os enunciados foram divididos em três grupos: i) acento nuclear finalizado por palavra paroxítona plena; ii) acento nuclear finalizado por palavra paroxítona com postônica ensurdecida; e iii) acento nuclear finalizado por palavra oxítona. No primeiro grupo, houve a predominância do padrão final circunflexo, cujo pico se encontra alinhado à direita da sílaba acentuada. Nos demais, constatou-se, na maior parte dos casos, um movimento ascendente localizado na sílaba tônica. Os resultados encontrados apontam para a grande produtividade da estratégia de acomodação denominada truncamento, uma vez que o padrão circunflexo, representativo da questão total no estado analisado, sofreu alterações melódicas diante de palavras nucleares oxítonas ou paroxítonas com postônicas ensurdecidas. Esse comportamento dá indícios de que o Português do Brasil costuma privilegiar o texto ao promover ajustamentos da melodia.

Rafaela Cardeal

Título: Visita ao Museu de tudo, de João Cabral de Melo Neto

Orientadora: Eucanaã de Nazareno Ferraz 

Páginas: 121

Resumo

A dissertação tem como objeto de interpretação o livro Museu de tudo, de João Cabral de Melo Neto. Propõe-se, com tal recorte, uma leitura que faça uso da metáfora do título como instrumento de aproximação crítica. O estudo procura demonstrar que o livro, entendido como museu, preconiza o objetivo teórico primordial da poética cabralina: dar a ver. Com a visita ao livro-museu verificamos, ainda, a exposição das ideias fixas que compõem o universo poético de João Cabral.

Stephanie Valle de Souza

Título: A posição do sujeito em cartas dos séculos XIX e XX: um estudo, além de linguístico, social

Orientadora: Silvia Regina de Oliveira Cavalcante 

Páginas:120

Resumo

O presente trabalho estuda a emergência da gramática do português brasileiro, a partir da análise da ordem do sujeito (ordem Sujeito-verbo e ordem Verbo-sujeito) em sentenças finitas. Na história do português, podemos considerar a existência de três gramáticas: (i) a primeira chamada de Português Clássico que é caracterizada por ser uma gramática V2 em que a primeira posição pode ser qualquer elemento topicalizado à esquerda do verbo; (ii) a segunda chamada de Português Europeu que é caracterizada por ter uma ordem SVO em que o elemento à esquerda do verbo é um sujeito, porém, essa ordem ocorre pela proeminência do sujeito e por fatores discursivos (Cavalcante, Galves e Paixão de Sousa, 2010); (iii) e, por fim, a terceira chamada de Português Brasileiro que é caracterizada por ter uma ordem SVO rígida e uma ordem VS restrita às constrições inacusativas (Berlinck, 1998; Tarallo, 1993). A partir do exposto, pretendemos (i) observar se já no século XIX encontramos uma ordem SV rígida e uma ordem VS motivada pelos verbos inacusativos, propriedades características do Português Brasileiro e (ii) analisar os padrões sociais (posição social, geração, século, dentre outros) que possam interferir para que haja a motivação de uma ordem SV ou VS. Portanto, além de observarmos fatores linguísticos, que implicariam na presença de uma ordem SV ou de uma ordem VS e vice-versa, estão sendo observados também fatores sociais que implicariam na presença dessas diferentes gramáticas, existindo, dessa forma, gramáticas em competição (Kroch, 1989).

Para tanto, utilizamos a teoria da análise linguística gerativa, mais especificamente, a teoria de princípios e parâmetros (Chomsky, 1986) e os modelos teóricos de mudança, intitulados teoria da mudança linguística (Weinreich, Labov e Herzog, 1968) e competição de gramáticas (Kroch, 1989). O corpus é composto por 170 cartas pessoais da família Pedreira Ferraz Magalhães, escritas entre os séculos XIX e XX (no período compreendido entre os anos de 1876 a 1948), trocadas entre os integrantes da família, a saber: 15 cartas escritas pelo pai da primeira geração, João Pedreira do Couto Ferraz (secretário do supremo tribunal por mais de 50 anos, nascido em 1826), 11 cartas escritas pelos pais da segunda geração, Jerônimo de Castro Abreu Magalhães (engenheiro civil, nascido em 1851) e Zélia Pedreira Abreu Magalhães (esposa de Jerônimo, nascida em 1857), 5 cartas escritas pela irmã de Zélia Pedreira, Maria Teresa de Jesus Bulhões Pedreira (viscondessa de Duprat, nascida em 1863) e 139 cartas escritas pelos oito filhos de Zélia e Jerônimo, pertencentes a terceira geração. A amostra pertence ao site do Corpus Compartilhado Diacrônico: (http://www.letras.ufrj.br/laborhistorico), desenvolvido pela equipe do LaborHistórico.

Os resultados mostram: (i) que o percentual de ordem SV aumenta ao passar do tempo enquanto que a ordem VS diminui em relação ao tempo e em relação à geração, evidenciando a emergência de uma gramática do Português Brasileiro; (ii) um percentual de ordem VS com construções inacusativas aumentando em relação ao tempo e diminuição de ordem VS com construções transitivas em relação ao tempo; (iii) por fim, mostram que o missivista mais velho apresenta já uma gramática do Português Brasileiro. Porém, a presença da ordem VS com verbos transitivos nesse missivista é maior em relação às produções VS com transitivos dos remetentes “mais novos”, devido ao processo de competição de gramáticas em que formas inovadoras e formas conservadoras competem entre si. Os missivistas “mais novos” apresentam uma ordem SV rígida mais produtiva e uma ordem VS motivada por construções inacusativas.

DISSERTAÇÕES DEFENDIDAS EM 2015

Total de dissertações defendidas: 26

Adriana Souza de Oliveira

Título: Angola, Brasil e Portugal: espaços em trânsito em Nação Crioula

Orientadora: Maria Teresa Salgado 

Páginas: 116

Resumo

A presente dissertação pretende fazer uma leitura da obra Nação Crioula, do escritor angolano José Eduardo Agualusa, considerando como interesse principal a dilatação de fronteiras entre ficção e história proposta pela obra, que tem como subtítulo “a correspondência secreta de Fradique Mendes”. Caracterizada como uma narrativa de base epistolar, a trama reúne 26 cartas, que trazem imagens ficcionalizadas da vida social luandense em diálogo com Pernambuco, Recife, Rio de Janeiro, Lisboa e Paris, no período datado de 1868 a 1888. Em Nação Crioula, o período retratado recobra, de forma incisiva, a intensificação do combate ao tráfico negreiro, um momento histórico de grande significação para os espaços físicos revisitados na diegese. Esses espaços funcionam como eo entre a perspectiva histórica daqueles que vivenciaram a esfera de instabilidade que marcou o fim do século XIX e a realidade ficcional proposta por Agualusa, além de servirem como pano de fundo para a história de amor, vivida pelos personagens Fradique Mendes e Ana Olímpia. Com isso, a obra surge no cenário das literaturas africanas de língua portuguesa com uma releitura do passado colonial e reflete o desejo do autor de descortinar, aos olhos do público leitor, a existência de um diálogo intercultural que irá moldar, de modo contundente, a composição identitária das nações (re)significadas na obra: Angola, Brasil e Portugal configuram-se, assim, como “espaços em trânsito”.

Alexandre Silva Damascena

Título: A literatura a partir do território: a relação entre forma e conteúdo em Ferréz

Orientador: Adauri Silva Bastos 

Páginas:102

Resumo

Nosso trabalho consistiu em pesquisar a relação entre literatura e território, com ênfase na tensão entre forma e conteúdo nos textos ficcionais de Ferréz. Sua obra, denominada como literatura marginal, muitas vezes é apontada como relato confessional, em desacordo com o pensamento do próprio autor, que diz usar o território não como matriz a ser reproduzida de maneira naturalista, e sim como meio de valorização do lugar de origem e fonte de estímulo à singularização. Para realizar nossa proposta investigativa, lançamos mão de uma fundamentação teórica que condiz com sua ficção e nos possibilitou esquadrinhar seus romances Capão pecado (2000), Manual prático do ódio (2003) e Deus foi almoçar (2012). Entre os teóricos que ofereceram essa base, encontram-se Jacques Rancière (que trata da relação entre política e literatura), Gaston Bachelard (com sua abordagem da poética do espaço), Tzvetan Todorov (acerca das estruturas narrativas), além de Wolfgang Iser e Luiz Costa Lima (para lançar luz sobre o importante aspecto da recepção literária).

Alice Eugenia Santos Vieira

Título: Memória e testemunho: ruínas e ecos de um império português desfeito em O esplendor de Portugal, de António Lobo Antunes

Orientador: Luci Ruas Pereira 

Páginas:144

Resumo

Este estudo busca demonstrar como o romance O esplendor de Portugal, de António Lobo Antunes, revela uma realidade portuguesa ocultada e que somente após a Revolução dos Cravos pode emergir: o arruinamento do império português ultramarino e as suas consequências. Tal arruinamento nos leva a questionar que esplendor é este. Através dos fragmentos, das ruínas desse império e da relação entre memória e esquecimento estabelecida pelos testemunhos das personagens (e um pouco do próprio autor), analisamos como António Lobo Antunes lança pequenos fachos de luz sobre um momento escuro na história de sua nação. Valemo-nos das ideias de estudiosos sobre a escrita do trauma para revelar que as ruínas não são apenas sociais, mas principalmente pessoais. É através dessa questão que a análise das personagens nos permite enxergar além dos papéis sociais por elas desempenhados, como também compreender como viveram os dois grupos de portugueses / angolanos que havia nesse período: os que permaneceram em África durante a guerra civil e os retornados. É possível concluir que tal esplendor é somente irônico, posto que há muito se perdeu.

Aline de Almeida Rodrigues

Título: A arquitetura narrativa de Um Amor Feliz, de David Mourão-Ferreira

Orientador: Teresa Cristina Cerdeira 

Páginas: 115

Resumo

Na crítica de David Mourão-Ferreira, observa-se um consenso de que a leitura dos escritos davidianos pressupõe refletir sobre uma variada teia de imagens e de escritas em um mesmo texto. Neste trabalho de pesquisa, buscamos desvendar a arquitetura narrativa de seu único romance, Um Amor Feliz, centrando-nos em aspectos que consideramos fundamentais para a compreensão da obra: a reflexão da escrita sobre si mesma e a escrita de Eros. O trabalho divide-se em dois capítulos: no primeiro, dedicado à poética de construção do romance, versamos sobre a pluralidade do romance davidiano no qual se observa a reflexão sobre a cidade, sobre a arte, sobre a própria obra em suas relações autobiográficas. No segundo capítulo, em que se privilegiam as personagens femininas, observamos a construção de Y como estátua movente e como símbolo da Beleza e da Arte; a sobreposição das imagens da mãe, da amante e da mulher, referindo a marca edipiana do romance; refletimos ainda sobre o lugar da função da interlocutora, primeira destinatária do romance. Valorizamos enfim as categorias de interpretação e composição ditadas pela própria obra em seu exercício de metaficção.

Beatriz Soares Cardoso

Título: O tecelão, a tecedura e o tecido: dobras da linguagem e da história em contos de João Paulo Borges Coelho

Orientadora: Carmen Lúcia Tindó Ribeiro Secco 

Páginas: 139

Resumo

O presente trabalho orienta-se para o estudo da variação das formas do complemento verbal acusativo de 2ª pessoa do singular no período de um século: 1880 a 1980. Na perspectiva tradicional de “uniformidade de tratamento”, o pronome acusativo original de 2ª pessoa seria apenas o clítico te, no entanto, outras estratégias também são possíveis no português brasileiro, como o pronome você, os clíticos lhe e o/a e, até mesmo, o objeto nulo Ø. Dessa maneira, levantamos todas as formas variantes do complemento em questão, com o objetivo de investigar os fatores de natureza linguística e extralinguística que estariam influenciando no uso das diferentes estratégias acusativas. Para tanto, utilizamos um corpus constituído por 521 cartas pessoais escritas no referido período e trocadas por indivíduos oriundos do Rio de Janeiro. Como aparato teórico-metodológico, utilizamos a Sociolinguística histórica (ROMAINE, 1982; CONDE SILVESTRE, 2007; HERNÀNDEX-CAMPOY & CONDE SILVESTRE, 2012), para o tratamento dos dados históricos. Em síntese, esta dissertação constatou que, dentre todas as formas acusativas de 2ª pessoa do singular, o clítico te foi o mais empregado em todos os subsistemas tratamentais de sujeito (tu, você e tu~você) e ao longo de todo o século, revelando, assim, que a função acusativa se mostra como um contexto de resistência à inserção da forma gramaticalizada você. Ainda observamos que os clíticos de 3ª pessoa o/a foram a segunda estratégia mais utilizada e que o você-acusativo começou a surgir no 2º período (1906-1930).

Bruna Gois Pavão Ferreira

Título: Construção relacional: estado, mudança e resultado

Orientadora: Marcia dos Santos Machado Vieira 

Páginas: 136

Resumo

Com base em pressupostos teórico-metodológicos das abordagens funcionalista, construcionista e cognitivista (BYBEE, 2003, 2010; GOLDBERG, 1995, 2003, 2013; HALLIDAY, 1994; TAYLOR, 1995; TRAUGOTT & TROUSDALE, 2013; dentre outros), esta pesquisa focaliza o uso da construção relacional em contos literários do Português Brasileiro: mais precisamente de construções de estado ou mudança de estado, resultativas ou não.
A construção relacional é formada, em geral, por sujeito, verbo relacional e predicativo e apresenta uma destas relações de sentido entre os termos da construção: atributiva ou caracterizadora, qualificativa, identificadora, equativa etc. A partir da construção relacional, é possível distinguir alguns subtipos: construção de estado, que não pressupõe processo anterior e não envolve dinamicidade; construção de mudança de estado, que já pressupõe processo anterior e envolve dinamicidade; construção habitual, que indica um estado habitual ao longo de um determinado tempo; construção resultativa, em que há uma mudança de estado que envolve resultado. A análise baseiase em 806 dados desse tipo de construção, com ser, estar, ficar, andar, viver e virar em 60 textos narrativos. Dentre os problemas relativos à caracterização morfossintática e semântica da construção com os verbos relacionais em estudo e à descrição funcional das predicações em que eles ocorrem, examinam-se aspectos como: (i) a estruturação mais frequente das predicações nominais do corpus – seus constituintes e a ordem destes; (ii) a natureza do sintagma sujeito dessas predicações; (iii) a configuração dos sintagmas predicativos sobre os quais os verbos relacionais operam gramaticalmente;11 (iv) o estatuto semântico de cada ocorrência das formas verbais em estudo, procurando detectar semelhanças e diferenças entre suas instâncias de uso; (v) o estatuto funcional das predicações nominais que tais formas verbais integram. Com isso, os dados foram analisados de acordo com os seguintes parâmetros: (i) verbo relacional em questão; (ii) tipo de construção relacional; (iii) grau de animacidade do sujeito; (iv) predicativo restritivo ou não restritivo; (v) papel temático do sujeito; (vi) tipo de predicação nominal; (vii) estrutura sintagmática do predicativo; (viii) tipo de processo relacional; (ix) tipologia do estado de coisas representado pela predicação; (x) estado aspectual da predicação; (xi) ordem dos termos da construção; (xii) polaridade negativa ou positiva; (xiii) plano discursivo.
A partir da análise dos dados segundo esses parâmetros, é possível identificar que os resultados não só consolidam a hipótese de prototipicidade da construção relacional no gênero em estudo, como também permitem destacar as nuances de sentido decorrentes da influência do verbo relacional sobre a construção em que se insere, além de detectar outros verbos que podem assumir função relacional em determinada construção, com base no estudo de seus aspectos sintáticos, semânticos e discursivos.

Daiane Crivelaro de Azevedo

Título:Tradição e cultura: a (des)ordem como cicatriz na literatura de Raduan Nassar

Orientador: Anélia Montechiari Pietrani 

Páginas:148

Resumo

O nosso trabalho concentra-se na literatura produzida por Raduan Nassar, que abarca o romance Lavoura arcaica, a novela Um copo de cólera e a reunião de contos Menina a caminho e outros textos, com o objetivo de encontrar o espaço ocupado pelo escritor na literatura brasileira. Procuramos, então, compreender a complexidade das obras a partir da cicatriz como marca da escrita e dos narradores nassarianos, de modo a entender como a tradição e a ruptura se dão através das vozes que resultam do silêncio. A estrutura lacunar das narrativas, os arquétipos e os consequentes contra-arquétipos característicos dos narradores e a concepção de razão foram os norteadores da nossa pesquisa. Como elo, a marca da ruptura, presente nesses três tópicos, foi analisada como tradição, que, mascarada pela sua contradição ao assumir-se como tradição e ruptura simultaneamente, deixa sua cicatriz, no corpo dos personagens e no do texto, fazendo da sua (in)visibilidade o grito não dito da literatura. Autores cuja leitura a respeito dos eixos ruptura e razão se atualiza a partir dos conflitos modernos, tais como Octavio Paz e Hannah Arendt, foram utilizados como fundamento teórico. Diante da cicatriz literária ocupada por Raduan Nassar, o nosso trabalho inclina-se ao estudo das demais cicatrizes de sua escrita, buscando compreendê-la como espaço nassariano na literatura brasileira.

Eloisa Beatriz de Sousa Ciarelli

Título:Estratégias patêmicas em crônicas de Martha Medeiros

Orientadora: Lúcia Helena Martins Gouvêa 

Páginas:89

Resumo

Este trabalho visa a analisar algumas estratégias patêmicas presentes em crônicas escritas pela autora Martha Medeiros, observando sua produtividade nos textos da cronista nas esferas qualitativa e quantitativa. Busca-se comprovar uma maior frequência de atos delocutivos, bem como a presença dos comportamentos elocutivo e alocutivo de maneira significativa. Busca-se, também, verificar a abundância do léxico das emoções ao longo dos textos, principalmente no que concerne ao uso dos substantivos. A partir dessa análise, pretende-se, então, comprovar que o gênero crônica, seria eminentemente marcado pela emoção. Para tanto, o trabalho conta com um corpus de 70 crônicas publicadas semanalmente na revista O Globo, do Jornal O Globo, do Rio de Janeiro, entre os anos de 2010 e 2014. A pesquisa é baseada na teoria Semiolinguística do Discurso, de Patrick Charaudeau, a qual se ocupa em entender a linguagem como o meio de significar a relação que se estabelece entre os parceiros do ato de linguagem. Além da visão de Charaudeau sobre pathos como um efeito visado, conta-se com o tratamento de Plantin, às estratégias de patemização, segundo o qual os termos patemizantes são distribuídos entre uma designação direta e uma designação indireta das emoções. No presente trabalho, procura-se ressaltar a importância dos estudos relativos ao pathos, principalmente quando se deseja persuadir pelo discurso.

Evelin Azambuja Augusto

Título: A expressão da modalidade em peças cariocas: uma análise diacrônica

Orientador: Maria Eugênia Lammoglia Duarte 

Páginas:106

Resumo

Meu objetivo principal é analisar como as formas de expressão de modalidade (epistêmica e não-epistêmica) se comportam ao longo do tempo no Português Brasileiro. Para isso, foram analisadas peças de teatro escritas no Rio de Janeiro, distribuídas ao longo de sete períodos dos séculos XIX e XX. Entre as diversas formas de expressar essa categoria, focalizo os verbos auxiliares modais, os predicadores verbais e predicadores adjetivais, esses dois últimos tipos favorecedores de estruturas com um sujeito expletivo nulo. Como o português brasileiro prefere sujeitos referenciais expressos, minha hipótese era a de que o uso de auxiliares aumentaria ao longo do tempo. Como base teórica, utilizo o modelo de estudo da variação e mudança proposto por Weinreich, Labov e Herzog (2006 [1968]), associado à Teoria de Princípios e Parâmetros (Chomsky, 1981). Os resultados apontam que, embora predominantes desde a primeira sincronia, os auxiliares tendem a crescer; que os predicadores adjetivais ocorrem em número muito reduzido; e que os predicadores verbais descritos nas gramáticas aparecem de modo parcimonioso no texto das peças até o ano de 1955, dando lugar a duas formas verbais inovadoras, que permitem o alçamento de um constituinte para a posição do sujeito expletivo, na segunda metade do século XX. Foi possível constatar, ao lado da implementação de sujeitos referenciais, uma clara preferência por sujeitos expressos de 1ª. e 2ª. pessoas, o que leva à confirmação parcial de minha hipótese principal.

Gabriela Costa Mourão

Título: O sujeito referencial em peças portuguesas: uma análise diacrônica

Orientadora: Maria Eugênia Lammoglia Duarte 

Páginas:104

Resumo

O objetivo principal deste trabalho é analisar o comportamento do sujeito pronominal de referência definida nas três pessoas do discurso no Português Europeu (PE) numa perspectiva diacrônica e comparar os resultados com os obtidos por Duarte (1993) para o Português Brasileiro (PB). Para isso, foram utilizadas peças de teatro portuguesas distribuídas por sete períodos de tempo ao longo dos séculos XIX e XX. A hipótese que norteou este trabalho foi a de que, diferentemente do PB, o PE apresentaria regularidade na representação de seus sujeitos nas três pessoas gramaticais, com preferência pelos nulos, por se tratar de uma língua de sujeito nulo consistente (Roberts e Holmberg, 2010). A base teórica utilizada foi a associação do modelo de estudo da variação e mudança, proposto por Weinreich, Labov e Herzog (2006 [1968]), com a teoria linguística de Princípios e Parâmetros de Chomsky (1981). Os resultados confirmam nossa hipótese de que o PE prefere representar seus sujeitos com o pronome nulo nas três pessoas gramaticais. A análise quantitativa aponta alguns contextos que favorecem um pronome expresso, entre os quais o papel do participante que assume a primeira pessoa no diálogo, o preenchimento de Spec de CP, a menor acessibilidade do antecedente do sujeito e os traços semânticos [+hum/+esp] do referente. Por fim, a comparação do comportamento da representação dos sujeitos do PE com os do PB ao longo do tempo permitiu confirmar que, no que diz respeito à representação do sujeito referencial, PE e PB são sistemas distintos.

Helena Maria de Souza Costa Arruda

Título:O sujeito feminino e suas representações na construção do romance brasileiro

Orientador: Godofredo de Oliveira Neto 

Páginas:143

Resumo

Ao elegermos o tema O sujeito feminino e suas representações na construção do romance brasileiro, procuramos analisar distintas vertentes do universo ficcional das personagens femininas centrais de quatro grandes romances da Literatura Brasileira: Lucíola (1862), de José de Alencar, Dom Casmurro (1899), de Machado de Assis, Ópera dos mortos (1967), de Autran Dourado e Amores exilados (2011), de Godofredo de Oliveira Neto. Se por um lado, embasamos nossa pesquisa na estética da recepção da obra de arte, que tem nos teóricos Wolfang Iser e Luiz Costa Lima alguns de seus representantes, por outro, procuramos analisar o leitmov dos autores ao criarem personagens tão densas, conferindo-lhes um peso que parece extrapolar o mundo fictício e ganhar o mundo real por meio de múltiplos e complexos narradores. Para tanto, este estudo caminha em várias direções, encontrando eco nas teorias do filósofo Gaston Bachelard no que respeita a questões referentes ao imaginário – já que o texto ficcional faz parte da ação imaginante do leitor – e à espacialidade – tendo em vista o trânsito frequente das personagens femininas centrais em seus constantes deslocamentos em busca de seus eus totalizantes, pois, fragmentados, encontram nos seus duplos suas principais caracterizações. Portanto, o recorte que delineamos nesta pesquisa tem uma perspectiva fenomenológica de interpretação da obra de arte, seguindo também a proposição autraniana de leitura, através da qual o leitor lançará mão de um universo simbólico em conformidade com sua postura interpretativa. Assim, esta investigação procura trazer à tona representações que simbolizam o sujeito feminino, tais como: questões concernentes ao sentimento amoroso, ao duplo e a constituição identitária, ao enigma do olhar, à maternidade em sua tragicidade e, por fim, ao exílio e suas relações topoanalíticas – topofóbicas e topofílicas – de acordo com o micro, o macro e o heterocosmo de cada personagem.

Juliana da Costa Santos

Título: O comportamento das estratégias de relativização na escrita culta jornalística brasileira

Orientador: Silvia Rodrigues Vieira 

Páginas:185

Resumo

O trabalho, vinculado à Teoria da Variação e Mudança, analisa o estatuto da regra referente às estratégias de relativização em textos escritos do Jornal O Globo, a fim de identificar e descrever os fatores que favorecem e restringem a realização da variante padrão (o livro de que eu preciso) e das não padrão cortadora (o livro que eu preciso) e copiadora (o livro que eu preciso dele).

A pesquisa conta com um corpus composto por 165 textos de diversos gêneros textuais publicados no Jornal O Globo durante o período de janeiro a outubro de 2012. Além disso, realiza um estudo comparativo das estratégias de relativização na fala e escrita cultas brasileiras, com base em resultados de outras pesquisas, a fim de observar o comportamento do fenômeno em diferentes modalidades da língua. Por fim, a investigação descreve os juízos de valor do revisor/jornalista do Jornal O Globo, na coluna Autocrítica, para observar a influência da avaliação subjetiva das variantes pelo usuário da língua no fenômeno em estudo.

Dentre os principais resultados da pesquisa, observou-se que, na escrita culta do PB, os dados do grupo das preposicionadas apresentaram o uso semicategórico da variante padrão,porque, apenas em contextos específicos – apenas nos anúncios – a variante cortadora foi raramente registrada. Em relação à fala culta brasileira, verificou-se que a variante preferencial é a cortadora e que o fenômeno se realiza, em alguns corpora, ora como regra variável (cf.TARALLO, 1983; CORRÊA, 1998 e VALE, 2014), ora semicategórica (cf. PEREIRA, 2014). Finalmente, em relação à avaliação subjetiva das variantes, os resultados evidenciaram que a variante padrão constitui um estereótipo linguístico positivo, enquanto as variantes não padrão cortadora e copiadora são estereotipadas negativamente pelo revisor/jornalista.

Jupira Maria Ribeiro de Paula

Título: Erotismo e transcendência nos “Quatro sonetos de meditação”, de Vinicius de Moraes

Orientador: Adauri Silva Bastos 

Páginas:132

Resumo

Este trabalho se dedica à análise dos “Quatro sonetos de meditação”, de Vinicius de Moraes. Para desenvolver a pesquisa, escolhemos como ponto de partida os pensamentos de Georges Bataille, Herbert Marcuse e Octavio Paz acerca de um erotismo poético e/ou uma poética erótica. Tendocomo fundamentação teórica os estudos do gênero poético em questão, buscamos o desenvolvimento de uma abordagem que privilegiasse a reflexão acerca da adoção e consequente transgressão das formas fixas do soneto por parte do poeta moderno. Nesse campo, as investigações inauguradas por Cruz Filho, Agostinho de Campos e Olavo Bilac foram uma base valiosa. No que diz respeito à lírica moderna, recorremos principalmente a escritos dos críticos Hugo Friedrich e Alfonso Berardinelli. Assim, pudemos esmiuçar os sonetos sobretudo no que tange a seus processos de elaboração estrutural, que se mostram alheios à descontinuidade humana e irmanados às pulsões destrutivo­criativas da lírica de seu tempo. A escolha do ​ corpus ​ se pautou pela felicidade com que o poeta carioca entrelaça temas transcendentais –como a morte, o amor carnal, o eterno feminino e a natureza telúrica –a um cuidadoso trabalho formal.

Laís Naufel Fayer Vaz

Título: Tão secreta como o tecido da água: um estudo sobre Glória de Sant’Anna

Orientadora: Carmen Lúcia Tindó Ribeiro Secco 

Páginas: 113

Resumo

Glória de Sant’Anna, cidadã portuguesa, encontrou em Moçambique a inspiração para sua poesia, que ainda é pouco estudada. A poética da autora é composta por temáticas que ultrapassam os limites espaciais e encurtam as distâncias que separam os seres. Em poemas que buscam no silêncio sua melhor expressão, a imagem do mar surge como um encontro entre o eu lírico e a natureza. Ler a obra de Glória de Sant’Anna é fazer um mergulho profundo no íntimo da poesia e, ao voltar à superfície, sentir-se tocado por suas palavras e silêncios, já que o mar nada mais é do que metáfora do humano, na poética da autora. Este trabalho busca pensar a obra de Glória a partir dos símbolos que a compõem, como o exílio, o sentimento de desterritorialização, a metalinguagem e, sobretudo, cada poema, a partir da ideia de “prazer do texto”, conforme Roland Barthes. Além desse teórico, serão consultados Octavio Paz, Gaston Bachelard, Michel Collot. Também serão citados, além de outros autores, alguns textos de opinião do escritor Mia Couto, na medida em que estes efetuam importantes reflexões sobre a cultura e a sociedade moçambicanas.

Lais Peres Rodrigues

Título: Euclides da Cunha: poeta do entrelugar

Orientadora: Anélia Montechiari Pietrani 

Páginas:117

Resumo

Euclides da Cunha: poeta do entrelugar parte do princípio de que, apesar da popularidade conferida a esse autor fluminense, em virtude da publicação d’Os sertões e de sua morte trágica, seus poemas continuam praticamente desconhecidos. Este estudo tem como meta principal a leitura analítica e crítica dos poemas de Euclides da Cunha, com o propósito de identificá-lo como um conciliador de contrários, que, muitas vezes, busca uma espécie de equilíbrio entre partes opostas, tomando como suporte teórico o estudo de Ronaldes de Melo e Souza, intitulado A geopoética de Euclides da Cunha. O presente trabalho defende o valor que o próprio poeta fornecia a sua produção, ao publicar diversos poemas de sua autoria em veículos de grande circulação da época, e discute que a grande quantidade de temas euclidianos é causa de um diálogo rico ligado a diversas vertentes poéticas ao redor do mundo, como a byroniana, hugoana e baudelairiana, por exemplo.

Letícia Fionda Campos

Título: Operadores argumentativos: uma marca de subjetividade em textos midiáticos

Orientadora: Lúcia Helena Martins Gouvêa

Páginas:172

Resumo

Esta pesquisa tem por objetivo estudar o tema “modalização” por intermédio dos operadores argumentativos restritivos e concessivos nos gêneros textuais “notícia” e “reportagem”. Serão investigadas as motivações semântico-discursivas para o seu uso e os contextos morfossintáticos em que ocorrem, utilizando textos publicados no jornal “O Globo” e no jornal “Extra”, em março de 2009. Considerando tais operadores como modalizadores, este trabalho analisará o seu emprego no que concerne à estratégia semânticodiscursiva (manutenção, antecipação e suspense) que é utilizada com cada tipo de operador e o contexto morfossintático no qual ele está inserido. Para tanto, esta dissertação contará, principalmente, com duas linhas teóricas que nortearão a análise: a Semiolinguística do Discurso, de Patrick Charaudeau, e a Semântica Argumentativa, de Oswald Ducrot, esta em sua primeira e segunda fases. Como fundamentação teórica, serão utilizados os seguintes conceitos: Contrato de comunicação, Modos de organização do discurso e Modalização (Patrick Charaudeau, 1992, 2008); Operadores argumentativos e Polifonia (Oswald Ducrot, 1976, 1987), além de Estratégias Argumentativas, trabalho elaborado por Eduardo Guimarães (1987) a partir da teoria de Oswald Ducrot. No que diz respeito ao método de análise, serão utilizadas as abordagens qualitativa – na medida em que se identificam os diferentes empregos dos operadores referidos – e quantitativa – na medida em que se trabalha com o percentual de ocorrências dos operadores.

Luma da Silva Miranda

Título: Análise da entoação do português do Brasil segundo o modelo IPO

Orientadora: João Antônio de Moraes 

Páginas:161

Resumo

O presente trabalho consiste em um estudo fonético-experimental da entoação do português do Brasil que utiliza o método de ressíntese e estilização da curva de F0 em uma abordagem perceptiva baseada no modelo IPO. O objetivo desta pesquisa é descrever um grupo de contornos melódicos em termos de movimentos melódicos relevantes perceptivamente que se combinam para formar os padrões melódicos estilizados. Para proceder à realização deste trabalho, foi selecionado um corpus de 8 contornos melódicos do PB, a saber: asserção, questão total, ordem, desafio, pedido, sugestão, questão parcial e exclamação, e gravado por 4 informantes do Rio de Janeiro. O programa PRAAT foi utilizado para estilizar as curvas de F0 em duas fases: na primeira, as curvas melódicas dos contornos foram simplificadas em termos de linhas retas com o menor número de pontos de inflexão; na segunda, mudanças graduais foram adicionadas aos contornos para testar hipóteses sobre seu reconhecimento perceptivo com o objetivo de propor uma estandardização de cada contorno melódico analisado. Testes de percepção foram aplicados para validar os contornos melódicos estilizados em relação a sua igualdade e aceitabilidade perceptiva. Constatou-se que os contornos melódicos do PB com a curva melódica simplificada são avaliados pelos ouvintes como idênticos aos originais e que algumas modificações produzidas no processo de estandardização são responsáveis pela identificação do valor funcional dos contornos. Finalmente, a descrição dos contornos melódicos através da abordagem IPO proporciona uma classificação detalhada do componente fonético da entoação que identifica os movimentos melódicos relevantes perceptualmente ligados ao seu valor funcional.

Maria Coelho Araripe de Paula Gomes

Título: Sobre carregar água na peneira ou o protagonismo da infância em Guimarães Rosa

Orientadora: Rosa Maria de Carvalho Gens 

Páginas: 104

Resumo

O interesse em pesquisar a questão do protagonismo da infância como veiculador de discursos a priori “não infantis” parte de indagações teóricas acerca das especificidades expressivas da Literatura infantil e juvenil, especialmente a presença da protagonista criança. Levantando hipóteses sobre a sua necessidade em obras voltadas para jovens leitores, chegou-se a um desdobramento deste foco: que sentidos são gerados quando um autor faz da criança porta-voz de sua mundividência? Em se tratando de uma obra de tamanha complexidade, e não sendo especificamente direcionada ao público jovem, salta aos olhos a importância das personagens crianças nas narrativas rosianas. Sejam elas centrais ou figuras passantes, a obra de Rosa está impregnada de infância. E do questionamento inicial chegamos à pergunta central desta dissertação: que sentidos adquire a infância na literatura de Guimarães Rosa? Partindo da ideia da infância que extrapola a mera representação nesta ou naquela personagem, mas interpretando-a como símbolo, o que se propõe é, através de um estudo de análise comparativa, traçar o percurso existencial desta infância protagonista, defendendo-a como potência vital para que o homem se coloque em estado de viagem. Entende-se que é através das crianças de Rosa, principalmente, que se instaura o olhar inaugural sobre as coisas; o olhar marginal que se torna central na elaboração da experiência humana, refundada pela imaginação. Assim, tendo como corpus Campo Geral (1956) e Primeiras estórias (1962), o trabalho visa explorar as potencialidades das protagonistas infantis de Guimarães Rosa, naquilo que elas apresentam de convergências e especificidades, tendo em Miguilim o símbolo da infância rosiana, cuja potência reinventiva reverbera de diferentes maneiras nos demais meninos e meninas de Primeiras estórias, apontando de todo modo, a presença protagonista do olhar da infância sobre o mundo, revelador da condição movente do homem.

Mariana Emygdio de Negreiros

Título: Morte e vida como personagem-recurso na obra de Clarice Lispector

Orientadora: Anélia Montechiari Pietrani 

Páginas: 124

Resumo

A leitura de textos escritos por Clarice Lispector revela a presença de imagens de vida e de morte. Tal presença não deve ser entendida como insistência ou coincidência. A extensa fortuna crítica existente sobre a autora pouco se dedica a essas imagens e ao porquê de figurarem ali, ainda que não tenham passado despercebidas pelos estudiosos. Em Clarice, essas imagens extrapolam o plano da obviedade, do fatalismo. Isso quer dizer que, ao utilizá-las, a autora não se detém à morte como sinônimo de fim de toda vida ou à vida que invariavelmente conduz à morte. A presente dissertação vale-se da importância que tais imagens têm, principalmente pelo fato de serem convocadas a participarem dos textos nos quais estão e por agirem sobre o desencadeamento dos próprios textos e sobre as personagens. Interpretamo-las, por tais aspectos, como personagem-recurso na obra clariciana. Abordamos contextos nos quais essas imagens eclodem com mais potência, sendo eles: a presença da água, a experiência da náusea e o estar-se diante de elementos do desconforto, como a gruta, a caverna, o grotesco e o estranho. Buscamos no texto clariciano, ainda, os elementos trágicos em dois planos: o da tradição grega como gênero literário e o da catástrofe. Para este trabalho, foram utilizados livros de Clarice Lispector como A paixão segundo G.H., O lustre, A hora da estrela, dentre outros. A base teórica é formada por nomes como Platão, Sigmund Freud, Gaston Bachelard, Edgar Morin e por estudiosos de Clarice Lispector, dentre os quais destacam-se: Benedito Nunes, Evando Nascimento, Lucia Helena, Nádia Batella Gotlib, Olga de Sá e Vilma Arêas. Contemplamos também textos literários, como A náusea, de Jean-Paul Sartre, e Seis personagens à procura de um autor, de Luigi Pirandello.

Priscila da Silva Campos

Título: O exílio em A confissão da leoa

Orientadora: Maria Teresa Salgado Guimaraes da Silva 

Páginas: 162

Resumo

O trabalho dedica-se analisar a condição do exílio, a partir da leitura de: A confissão da leoa (2012), do escritor moçambicano Mia Couto. Abordar esse tema, como uma das grandes questões da atualidade, é pensar a própria circunstância do homem no mundo. Diante das situações subumanas, geradas por regimes totalitários, pela violência, pela guerra, pelo choque entre culturas, o sujeito é obrigado a migrar de um lugar a outro e vivenciar a sensação de desenraizamento. Entretanto, o exílio não se limita apenas pelo viés geográfico imposto ou voluntário; acrescenta-se, também, o sentido existencial, isto é, ruptura ocorrida interiormente no sujeito, em decorrência do trauma, resultando a sensação de estar “fora do lugar”. Essa experiência constitui o problema de muitos indivíduos contemporâneos que, dentro de seu próprio país/ lar, sofrem a ausência e o isolamento. No intuito de discutir as conseqüências do exílio no romance de Mia Couto, o estudo propõe o diálogo com reflexões de Edward Said, que aponta os diversos aspectos do exílio, definindo-o como uma “fratura incurável”; de Todorov, que destaca o desdobramento do totalitarismo; e também de Camus, que, em sua produção literária, mostra a incomunicabilidade entre os indivíduos. Nota-se, nestes pensadores e em tantos outros, a presença do desconforto e do vazio no homem. Dessa forma, nossa pesquisa pretende investigar a experiência do exílio nos personagens do romance citado, observando o processo da memória, ao retrabalhar as lembranças dos protagonistas, e do discurso, ao possibilitar a emergência e elaboração de questões conflitantes.

Rafael da Silva Mendes

Título: Em memória do esquecimento: ambivalência e imaginação na obra de Dante Milano

Orientador: Sérgio Fuzeira Martagão Gesteira 

Páginas: 151

Resumo

A obra poética do carioca Dante Milano (1899-1991) é ainda pouco lembrada nos meios literários e pouquíssimo explorada no meio acadêmico, o que vai de encontro à sua relevância enquanto expressão artística singularíssima. “Nada, nos seus versos, se assemelha profundamente ao que foi escrito entre nós nestes vinte e trinta anos. E nada os aproxima das formas e das receitas cuja sobrevivência justificou a revolução modernista.”, diria Sérgio Buarque de Holanda em 1949, um ano após o lançamento de Poesias, único livro publicado por Milano. A partir da lição de ambivalência do filósofo Gaston Bachelard sobre a imaginação material e dinâmica, desdobramos uma série de tensões harmônicas na obra do poeta – ascese e catábase, lirismo e antilirismo, tradição e modernidade, lírica tradicional e lírica moderna, forma e conteúdo, pensamento e emoção, classicismo e romantismo, sonho e realidade – que, conjugadas, dão-nos a chave de sua singularidade, segundo cremos. Assim, chega-se à tensão fundamental desta poética: a dinâmica entre o eterno e o transitório, que assume feição específica no duelo harmônico entre a memória e o esquecimento.

Rodrigo Lopes da Fonte Ferreira

Título: Autofagia do fictício: desdobramento do narrador e do narratário pelo controle do imaginário em Mastigando humanos, de Santiago Nazarian

Orientador: Adauri Silva Bastos 

Páginas: 120

Resumo

Ao abordar o choque dos três organismos da performance narrativa (autor, texto e leitor), a partir do desdobramento das figuras do narrador e do narratário em, respectivamente, personagem principal e emulação de leitor externo hipotético, o romance Mastigando humanos se configura como metaficção, propício a intervenções tanto externas quanto internas. Narrador e personagem, narratário e leitor externo hipotético são reflexos da coexistência de dois mundos que se aproximam e se repelem. A partir de tais premissas, a presente dissertação se apoia na Estética da Recepção e na ideia de controle do imaginário desenvolvida por Luiz Costa Lima para investigar as contingências do real e do ficcional em ocorrência paralela no universo criado pelo narrador e pelo narratário do romance de Santiago Nazarian. Entre nossos objetivos, destaca-se o exame das estratégias discursivas e do processo de identificação entre o narratário e os demais elementos narrativos, assim como das razões que estimulam, na esfera do fictício, narrador e narratário a se desdobrarem e trocarem de posição em prol da criação de um efeito.

Rogério Rocha Athayde

Título: Quantos rabos tem a sereia? Uma proposta de leitura para “O outro pé da sereia”, de Mia Couto

Orientadora: Maria Teresa Salgado Guimarães da Silva 

Páginas: 182

Resumo

A análise que esta dissertação se atreve a fazer parte da leitura do papel exercido pelo personagem Mwadia. Mia Couto esclarece que seu nome quer dizer canoa em língua sinhungwé. E assim ela é o transporte entre mundos distantes: o mundano e o sagrado, o presente e o passado, o moderno e o tradicional. Mwadia é quem conduz a imagem da santa, feita sereia; é quem entra em transe para encontrar os ancestrais, é quem se torna o fluido contato para os vivos e os mortos. No trabalho que ora se apresenta, há de se procurar mostrar como a água é mais que um elemento secundário de “O outro pé da sereia”, mais que simples ambiente e cenário em que são encenados os dramas da narrativa; mas é talvez o personagem central da trama, capaz de trazer consigo tanto os temas necessários para o pensamento sobre a nação moçambicana quanto sobre a difícil tarefa de existirmos como humanos.

Victor Andrade da Silva Rosa

Título: Religações: a dicção moderna de Cecília Meireles, Sophia de Mello Breyner Andersen e Vinicius de Moraes

Orientador: Eucanaã Ferraz 

Páginas:117

Resumo

Este trabalho se propõe estudar e compreender a dicção moderna de Cecília Meireles, Sophia de Mello Breyner Andresen e Vinicius de Moraes. Para tal objetivo, iniciou-se esta reflexão com a teoria proposta por Hugo Friedrich em sua obra Estrutura da lírica moderna, a partir da qual o teórico descreve e estabelece conceitos, apontando para uma unidade formada por artistas do final do século XIX e início do século XX. Contudo, suas generalizações, em alguma medida, deixam de lado outras possibilidades e dicções poéticas. Diante disso, ao serem considerados os três poetas estudados, verifica-se que não pertencem a essa unidade prototípica descrita pelo alemão. Nesse ponto, a pesquisa se harmoniza com o discurso de Alfonso Berardinelli que, em sua obra Da poesia à prosa, sugere lacunas deixadas por Friedrich a serem preenchidas. Assim, buscou-se mostrar que as obras de Vinicius de Moraes, Cecilia Meireles e Sophia de Mello Breyner Andresen residem justamente nessas lacunas. A partir dessa coincidência e com base nesses teóricos, é estabelecida uma comparação entre os poetas. Assim, acredita-se identificar com maior clareza as características modernas não prototípicas do trio de autores selecionados.

Victor Augusto Corrêa Azevedo

Título: Nos escombros da memória: reconstrução de identidades em Teoria geral do esquecimento, de Agualusa

Orientadora: Carmen Lúcia Tindó Ribeiro Secco 

Páginas: 136

Resumo

No pós-independência, Angola viu algumas de suas utopias transformadas, em grande parte, em distopias, em razão do esvaziamento do projeto político e da incapacidade de articulação entre tradição e modernidade, num panorama de aporismo e de paroxismo descrente. Hannah Arendt (2013) afirmava que só podemos transformar em experiência o sofrimento vivido na própria existência se lhe dermos publicidade, o que é fundamental para garantir a preservação da tradição e da própria vida. A “escrita de si” e o “testemunho” adquiriram uma dimensão pública necessária para o estabelecimento das relações sociais. E é na literatura, instrumento de afirmação da nacionalidade, que a experiência servirá de aparato arqueológico do memorialismo para mergulhar num universo de histórias balizadas por um código que legitima tanto uma sociedade atomizada como a decorrente desintegração humana. Considerando as circunstâncias de um mundo que fez por implodir as balizas que davam plausibilidade e ressonância crítica à noção de Estado-nação, o presente trabalho busca identificar, por meio da análise do romance Teoria geral do esquecimento, do escritor angolano José Eduardo Agualusa, publicado no Brasil em 2012, os índices que auxiliarão no deciframento do que seriam os “escombros da memória”, expressão inspirada na noção de “escombro”, formulada por Homi K. Bhabha (2002). O que também se pretende é uma leitura das questões identitárias apresentadas no romance, contemporaneamente, e que parecem escapar do escopo memorialístico, em termos pelos quais a noção de angolanidade precisaria ser reformulada.

Wellington Alves Toledo

Título: Mensagem: a vitalidade um discurso envelhecido

Orientadora: Gumercinda Nascimento Gonda 

Páginas:135

Resumo

Nosso trabalho se propõe a reconhecer na Mensagem uma formulação do discurso épico a partir de um caráter formal e de uma postura ideológica própria da modernidade literária. Assim, ao depreendermos que Fernando Pessoa parte de um passado histórico vazio, mas ainda instaurado na consciência cultural da nação portuguesa, buscamos elucidar que é justamente nessa nova proposta discursiva que reside a vitalidade de sua poética. Obra sui generis dentro do cenário literário ocidental, o poema é o único livro devidamente editado e publicado pelo poeta português e, embora seja sobejamente estudada pela crítica e leitores, tanto lusófonos quanto de outras línguas, a épica pessoana apresenta uma problemática muito drástica em sua construção formal se comparada com as teorias aristotélicas e supraaristotélicas dos estudos épicos, pois, mesmo que o poeta português tenha partido de uma matéria épica caríssima na literatura portuguesa, a ascensão do Império Ultramarino, o livro inverte o seu relato, equacionando-se a partir dos mitos representativos, segundo a seleção pessoal do próprio poeta, promovendo um (re)encontro transcendental com a hegemonia imperialista através da figura mítica de D. Sebastião, suscitando um alavancamento histórico-futuro da nação em um plano que ultrapassa o espaço e o tempo. A escolha do corpus se pauta pela grande possibilidade de contrastes observáveis entre o livro de Fernando Pessoa e os postulados levantados por autores que centraram nas epopeias homéricas os moldes estilísticos e formais da construção épica, levando um não reconhecimento da épica moderna na épica clássica e vice versa. Porém, pautando-nos nas considerações estéticas de Hegel, que embora também não reconheça a realização do fenômeno épico na modernidade, mas que considera que a epicidade na escrita atual se encontra no universo particular da própria obra, como objeto de análise, concentraremos nossos estudos a partir dos caracteres intrínsecos e singulares que constituem a epopeia pessoana, vislumbrando nela uma construção que deambula pelo épico, pelo lírico, pelo dramático, em suma, pelo que a obra em si dialoga com a escrita moderna.

DISSERTAÇÕES DEFENDIDAS EM 2014

Total de dissertações defendidas: 24

Ana Maria Vasconcelos Martins de Castro

Título: Pedro e Paula: um mergulho no “plasma fértil” da escrita em abismo de Helder Macedo

Orientadora: Teresa Cristina Cerdeira da Silva 

Páginas: 96

Resumo

Ler o romance Pedro e Paula de Helder Macedo é reconhecer na sua principal personagem feminina o centro em torno do qual gravitam os demais personagens. Corpo amoroso e solar, Paula é a personagem de eleição do narrador-autor que, assumidamente parcial, estabelece com ela uma ligação afetiva e quase – ousaríamos desde já anunciar – erótica, de tal modo que também sinuosamente o leitor se vê mergulhado no terreno dos afetos e da sensorialidade. Em torno de Paula se organiza a escrita do romance e também a leitura aqui proposta. Esta dissertação, que pretende percorrer os desdobramentos de uma escrita em abismo do autor Helder Macedo, trabalhará sobre as articulações intertextuais que a composição ficcional desta personagem evidencia, ao fazer-se ela própria um mosaico de referências culturais, composta que é de pedaços de outros discursos, de outros corpos, tal um “plasma fértil”, para usar a metáfora do seu autor. Ilsa, de Casablanca, Maria Eduarda, de Eça de Queirós, Capitu, de Machado de Assis, serão apenas algumas dessas referências nas relações triádicas da trama ficcional de Pedro e Paula. Linguagem erotizada, aqui também se confundem corpo e discurso, ambos desejosos e desejantes, porque inscritos naquilo a que se pode chamar de aventura prazerosa da literatura.

Bruno Santoro da Silva

Título:A Poesia da Ironia e a Política do Riso: humores e rumores de Brecht e(m) Mia Couto

Orientadora: Maria Teresa Salgado 

Páginas:96

Resumo

Este trabalho estuda a utilização do humor e da ironia como um dos recursos na construção das personagens. Em seu teatro épico, Brecht opta várias vezes por elaborar personagens ricas em humor e ironia, como em sua Ópera dos Três Vinténs – assim intitulada por se poder encená-la com apenas três vinténs –, na qual há um empresário dono de uma tropa de mendigos, devidamente registrados e com direitos trabalhistas assistidos, e um gângster, bígamo, procurado por toda a polícia britânica, que será elevado ao posto de Capitão pela própria rainha da Inglaterra. A plateia não é convidada a se reconhecer com os tipos em cena, mas, sim, a refletir sobre as situações em que se encontram as personagens. Reflexão também é o que propõe Mia Couto em seu romance O Último voo do Flamingo. Na cidade fictícia de Tizangara, em Moçambique, os soldados, enviados em missão de paz pela ONU, após a guerra civil, explodem, restando apenas o capacete azul e o falo dos mesmos. O inusitado órgão “sobrevivente” é o condutor para o riso, num romance em que o mote é a morte, velada, por sua vez, por uma ironia intensa. A ironia é a ‘terceira margem’ na qual Mia Couto e Brecht desembarcam e empregam o humor social para lembrar que as mudanças são necessárias. Reconhecer as mazelas e rir das mesmas já indicaria um caminho viável para a transformação.

Camila Duarte de Souza

Título: Eu te amo, eu lhe adoro, eu quero você:a variação das formas de acusativo de 2ª pessoa em cartas pessoais (1880-1980)

Orientadora: Célia Regina dos Santos Lopes 

Páginas: 156

Resumo

O presente trabalho orienta-se para o estudo da variação das formas do complemento verbal acusativo de 2ª pessoa do singular no período de um século: 1880 a 1980. Na perspectiva tradicional de “uniformidade de tratamento”, o pronome acusativo original de 2ª pessoa seria apenas o clítico te, no entanto, outras estratégias também são possíveis no português brasileiro, como o pronome você, os clíticos lhe e o/a e, até mesmo, o objeto nulo Ø. Dessa maneira, levantamos todas as formas variantes do complemento em questão, com o objetivo de investigar os fatores de natureza linguística e extralinguística que estariam influenciando no uso das diferentes estratégias acusativas. Para tanto, utilizamos um corpus constituído por 521 cartas pessoais escritas no referido período e trocadas por indivíduos oriundos do Rio de Janeiro. Como aparato teórico-metodológico, utilizamos a Sociolinguística histórica (ROMAINE, 1982; CONDE SILVESTRE, 2007; HERNÀNDEX-CAMPOY & CONDE SILVESTRE, 2012), para o tratamento dos dados históricos. Em síntese, esta dissertação constatou que, dentre todas as formas acusativas de 2ª pessoa do singular, o clítico te foi o mais empregado em todos os subsistemas tratamentais de sujeito (tu, você e tu~você) e ao longo de todo o século, revelando, assim, que a função acusativa se mostra como um contexto de resistência à inserção da forma gramaticalizada você. Ainda observamos que os clíticos de 3ª pessoa o/a foram a segunda estratégia mais utilizada e que o você-acusativo começou a surgir no 2º período (1906-1930).

Carlos Eduardo Nunes Garcia

Título: As construções de topicalização e de deslocamento à esquerda na fala de brasileiros e portugueses

Orientadora: Mônica Tavares Orsini 

Páginas: 128

Resumo

Este trabalho investiga as estratégias de topicalização e de deslocamento à esquerda na fala de brasileiros e portugueses. Topicalização e deslocamento à esquerda são estratégias de construção de tópico marcado em que o tópico – um constituinte externo, à esquerda da sentença – estabelece correferencialidade com um elemento no comentário. Na topicalização, exemplificada em (1) “[esta história]i você conta ___i lá dentro”, o tópico é retomado por uma categoria vazia; no deslocamento à esquerda, exemplificado em (2) “[a moça que trabalha lá em casa]i elai é de Queimados, né?”, há vinculação do tópico a um pronome ou a um constituinte de igual valor. A pesquisa, fundamentada em estudos anteriores (cf. VASCO, 1999 e 2006; ORSINI & VASCO, 2007; PAULA, 2012), tem como aporte teórico a associação do modelo de estudo da mudança descrito por Weinreich, Labov e Herzog (1968) à Teoria de Princípios e Parâmetros (cf. CHOMSKY, 1981), que sustenta as hipóteses arroladas e a seleção dos grupos de fatores estruturais. Os dados foram coletados de 36 entrevistas que integram o acervo sonoro do Projeto Concordância, distribuídos por faixa-etária, gênero, grau de escolaridade e origem do informante. Objetiva-se, assim, (i) averiguar a frequência e o comportamento estrutural das referidas construções, numa perspectiva interlinguística e (ii) observar o grau de interferência do nível de letramento na frequência e em eventuais restrições impostas por cada sistema às construções de deslocamento à esquerda e de topicalização na gramática da fala de brasileiros e portugueses, visto que, segundo Duarte, Cyrino e Kato (2000), o PB passa por mudanças no que diz respeito à marcação dos Parâmetros do Sujeito Nulo e do Objeto Nulo, comportamento não observado na gramática da fala do PE. Estas diferenças paramétricas estão correlacionadas às ocorrências de topicalização e de deslocamento à esquerda em cada sistema. Os resultados, gerados a partir da variável grau de letramento, mostram que se, por um lado, o PB não possui restrições estruturais às ocorrências das construções estudadas, confirmando resultados de estudos anteriores sobre o tema, o PE as apresenta, uma evidência de que, no que tange à tipologia das línguas (cf. LI & THOMPSON, 1976), estes sistemas parecem se situar em pontos distintos deste continuum.

Carlos Palacios

Título:Ficção, realismo e verdade: caminhos da literatura brasileira no século XXI

Orientador: Godofredo de Oliveira Neto 

Páginas:80

Resumo

O trabalho busca discutir as relações que a literatura brasileira do século XXI estabelece com o tema da verdade e do realismo. Para isso, parte de uma análise comparativa entre dois romances que seguem caminhos opostos: Eles Eram Muitos Cavalos (2001), de Luiz Ruffato, o qual se caracteriza como uma obra de caráter mais realista e compromissada com uma verdade social; e Menino Oculto (2005), de Godofredo de Oliveira Neto, que, tendo o falso como elemento articulador de sua narrativa, possui uma relação mais questionadora com o real e a verdade. Após essa etapa, o estudo se debruça sobre o romance Barco a Seco (2001), de Rubens Figueiredo, que se constitui justamente a partir da tensão entre esses diferentes caminhos da ficção literária: a busca pelo real, pelo verdadeiro; e o desejo de criação, de transformação.

Carolina Salgado Lacerda Medeiros

Título:Ter/haver + particípio passado: um caso de mudança no português arcaico

Orientadora: Sílvia Regina de Oliveira Cavalcante 

Páginas:157

Resumo

O presente trabalho apresenta um estudo diacrônico acerca das estruturas compostas formadas com ter e haver + particípio passado em Português. O estudo investiga como e em que contextos tais estruturas passaram de construções transitivas-predicativas a construções de tempo composto perfectivo, tratando a mudança de ter e haver de verbos plenos a auxiliares como um caso de gramaticalização, com base no quadro de Roberts & Roussou (2003). O interesse pelo estudo se deve ao fato de existir, em Português Arcaico (PA), dois tipos de construções com particípio: (1) construções transitivas-predicativas formadas por ter e haver, que funcionam como verbos plenos, mais um PTP que se comporta como um adjetivo, concordando em gênero e número com o complemento direto de ter/haver, que, após um processo de mudança, dão origem à (2) construções de tempo composto perfectivo formadas por ter e haver, que funcionam como auxiliares, mais um PTP verbal. Com o intuito de investigar a formação deste segundo tipo de construção, neste trabalho procuramos identificar os contextos que levaram à mudança de ter/haver de verbos plenos à auxiliares, descrevendo o processo de gramaticalização pelo qual passaram, bem como descrever os contextos linguísticos que atuaram na passagem do PTP de adjetivo a verbo. A partir de textos portugueses dos séculos 13 ao 16 e de uma perspectiva teórica formal sobre o processo de gramaticalização (ROBERTS & ROUSSOU 2003), esta Dissertação mostra que o processo de mudança que culminou na emergência dos tempos compostos em Português envolve um processo de simplificação estrutural. Trabalhamos com a hipótese de que as construções de ter/haver + PTP sofrem a perda de uma operação de movimento sintático, a partir do que são reanalisadas como construções de tempo composto. A partir disto, ter e haver são gramaticalizados em auxiliares e o PTP é reanalisado como um verbo. Os resultados sugerem, com base na análise de elementos morfossintáticos tais como a presença ou ausência de marcas flexionais de concordância entre o PTP e o complemento e a fixação da ordem, que tal mudança tenha ocorrido já no século 13.

Darville Lizis Souza Moreth

Título:Tragédia no sertão: os retirantes e a seca n’O Quinze, de Rachel de Queiroz

Orientador: Adauri Silva Bastos 

Páginas:213

Resumo

Na década de 1930, a literatura brasileira intensificou a perspectivação das mazelas nacionais. Sobretudo no Nordeste, muitos escritores primaram por criar ficções não idealizadas do país, nas quais a miséria se destacou como tema e o pobre cresceu como personagem. Entendemos que O Quinze, de Rachel de Queiroz (1930), foi o primeiro romance em que os elementos essenciais do chamado romance nordestino apareceram verdadeiramente. Na dita década, os nordestinos invadiram a literatura nacional, legando-lhe uma maneira brusca e ao mesmo tempo sensível de tratar de temas delicados e indesejados como fome, seca e miséria. Em nossa dissertação, analisaremos a narrativa de estreia da autora cearense como constructo a um só tempo formal e político, resultante do trabalho com a linguagem e da atenção às dimensões históricas da realidade em que se situa. Assim, poderemos articular o esquadrinhamento do texto com uma visão mais ampla do processo de emergência e afirmação do chamado “romance nordestino de 30”. Se por um lado os nordestinos retirantes migraram em massa para o Sul do país, por outro sua história e sua literatura nos marcariam para sempre.

Fernanda Villares Vianna Barreto

Título:A concordância verbal de 3ª pessoa do plural no português europeu

Orientadora: Silvia Rodrigues Vieira 

Páginas:125

Resumo

O objetivo do presente trabalho é descrever os padrões de concordância verbal de 3ª pessoa do plural do Português Europeu, a fim de verificar se a regra atuante é de natureza categórica, semicategórica ou variável (cf. LABOV, 2003), levando-se em consideração entrevistas orais realizadas com informantes das seguintes localidades de Portugal: Oeiras, Cacém e Funchal.

O corpus, disponibilizado pelo Projeto Padrões de concordância em variedades africanas, brasileiras e europeias do Português (ALFAL 21), conta com 18 entrevistas de cada uma das localidades, organizadas segundo sexo, escolaridade e faixa etária de cada informante, além de uma amostra complementar formada por 12 entrevistas. O trabalho conta com o aporte da Teoria da Variação e Mudança (WEINREICH; LABOV; HERZOG, 1968; LABOV, 1972, 1994, 2001, 2003), para determinar não só o estatuto da regra, mas também os contextos envolvidos na realização ou não da marca de pluralidade. Para o tratamento estatístico dos dados, utilizou-se o pacote de programas Goldvarb-X. Realizou-se ainda, em uma subamostra com 9 informantes de Oeiras e 9 informantes de Funchal, a descrição fonética das terminações dos verbos de 3ª pessoa do plural com baixa saliência fônica, para testar os contextos em que ocorre perda da marca de concordância.

Considerando a totalidade dos dados, obteve-se o resultado de 2,2% de não marcação de plural, o que indica que o fenômeno da concordância verbal no PE se configura como uma regra semicategórica. Quantitativa e qualitativamente, os dados de não concordância no Português Europeu – de praticamente todos os estratos sociais controlados – são muito particulares e limitam-se a contextos muito específicos, preferencialmente com sujeitos pospostos, com referentes inanimados, representados na oração pelo relativo “que”, com verbos de baixa saliência fônica, inacusativos ou copulativos, e, por vezes, influenciados pelo contexto fonético seguinte, iniciado por som vocálico ou nasal.

Filipe Bitencourt Manzoni

Título: Quatro poetas quatro cidades: Adriano Espínola, Arnaldo Antunes, Caio Meira e Nicolas Behr

Orientador: Eucanaã Ferraz 

Páginas:117

Resumo

Nosso trabalho se propõe a mapear as imagens da cidade na poesia contemporânea brasileira a partir de um recorte de quatro poetas: Adriano Espínola, Arnaldo Antunes, Caio Meira e Nicolas Behr. Buscamos um mapeamento imagético e formal, tentando mostrar algumas das estratégias e traços recorrentes na abordagem da cidade, bem como as implicações das priorizações do urbano empreendidas por cada autor. A escolha do corpus se pauta pela grande possibilidade de contrastes observáveis entre as obras dos autores, tomados sempre em uma estrutura dialogal e comparativa sob a qual percorremos questões que passam pelo urbanismo, pelas atualizações feitas à concepção de cidade, pelas renegociações empreendidas entre o sujeito e o urbano e pela filosofia da linguagem, na medida em que a cidade pouco a pouco torna-se indistinta de uma corrente linguística urbana.

Gabriel Ferreira de Andrade

Título:No palco…ruína em família

Orientador: Anélia Montechiari Pietrani 

Páginas:174

Resumo

A família tradicional é composta por pai, mãe e filhos que se encontram em um laço de afetividade constituído a partir do encontro nupcial entre os cônjuges. Sobre essa instituição, recaem os preceitos éticos que devem ser fundamentados na educação do indivíduo que, no seio do lar, é submetido desde o ventre materno à legislação moral, formadora de um homem íntegro em sociedade e respeitado em sua digna moralidade. A associação desses princípios à concepção de família se constitui através dos dogmas religiosos, que consideram família um sistema sagrado. Diante dessa concepção tradicional e sacra, Nelson Rodrigues encena, em suas peças, as ruínas deflagradas nas relações sem afeto desses “entes queridos”. Acerca disso, suas produções são representações teatrais em que são desveladas as máscaras morais através de personagens em crise com seus conflitos interno e externo. São figuras cênicas multifacetadas em suas representatividades ambivalentes de um teatro, cuja fatalidade do trágico e a irreverência do cômico atribuem às peças de Nelson Rodrigues um caráter tragicômico. Esse caráter é manifestado no duplo contraditório de uma trama cambiante entre o drama da falência de famílias rasuradas em suas intimidades conturbadas pela miséria de personalidades cênicas desnorteadas entre a intensidade do amor e o mal-estar da irritação. A tragicomédia no teatro de Nelson Rodrigues é revelada na exacerbação das marcas trágicas, principalmente, por meio de seu teatro desagradável, no qual o dramaturgo põe em cena o caos e o desespero de indivíduos que habitam o mesmo ambiente, mas não se suportam em convivência. Na desmesura de suas ações cênicas, alcançam as personagens de Nelson Rodrigues o nível do patético, ridículo e hilariante em tramas que tornam jocoso o homem de aparência sublime em estado de decadência, drama e piada no esvaecimento de famílias em ruínas. Assim sendo, tomaremos para análise dessa questão, as peças do teatro desagradável de Nelson Rodrigues, com especial destaque a Álbum de família (1945), Anjo negro (1946) e Doroteia (1949) e apoiando-nos nos estudos de Flora Sussekind, Ronaldo Lima Lins, Victor Hugo Adler Pereira, Ângela Leite Lopes, Sábato Magaldi e Ruy Castro.

 

José Augusto de Oliveira Pires

Título:O Estatuto Morfológico do formativo -dromo no Português Brasileiro

Orientador: Alexandre Victorio Gonçalves 

Páginas: 108

Resumo

O formativo -dromo é proveniente do grego e tem como significado “ação de correr, lugar para corrida, corrida” (HOUAISS, 2009). Na língua grega, o formativo em questão era um elemento composicional. No atual estágio da língua, sobretudo na variedade brasileira, a partícula -dromo vem sendo amplamente utilizada na formação de novas palavras; no entanto, as mesmas não remetem ao significado dicionarizado. Em decorrência disso, aliado ao fato de o formativo em questão não possuir uma descrição detalhada, apropriada e pormenorizada na língua, apesar de referenciado em estudos como Laroca (2005) e Gonçalves (2011), que também apontam para a natureza derivacional de -dromo, o presente trabalho tem por objetivo principal comprovar o estatuto sufixal de -ódromo. Por isso, ponderamos que as formações mais novas com o formativo em questão (a) possuem uma diferença no estatuto morfológico da partícula, que deixa de ser um elemento de composição para ser visto comoum elemento de derivação – uma mudança de radical para afixo e (b) passam a incorporar a vogal média baixa [Ɔ], sendo, pois, -ódromo e não mais -dromo. Além disso, como forma de obtermos uma descrição ainda mais satisfatória, basear-nos-emos nos trabalhos propostos por Gonçalves (2011a) e Gonçalves 11 & Andrade (2012), assim como na Teoria da Morfologia Construcional de Booij (2005, 2010), visando a descrever e a representar o formativo -ódromo por intermédio de esquemas construcionais propostos pelo autor e, posteriormente, adaptados para o português em Gonçalves & Almeida (2013)

Julia Kubrusly Bornstein

Título: Floriano Cambará: narração e ruptura em O tempo e o vento de Erico Verissimo

Orientadora: Maria da Glória Bordini 

Páginas: 122

Resumo

Floriano Cambará, personagem e narrador de O tempo e o vento de Erico Verissimo, constitui peça principal de análise nesta dissertação, a arquitetura da trilogia, bem como o amadurecimento do personagem como escritor serão profundamente analisados. Embora o foco seja dado principalmente ao volume final do romance, O arquipélago, não deixaremos de lado as duas primeiras partes, O continente e O retrato, imprescindíveis para a compreensão e completude da obra. O fato de Floriano Cambará, alter ego confesso de Erico Verissimo, ser o narrador da obra que estamos lendo, é algo que descobrimos apenas ao final da narrativa, papel que se justifica devido a sua posição única no romance. Personagem inteiramente desencaixado, ele busca encontrar seu lugar na engrenagem de que faz parte, Santa Fé e o Rio Grande do Sul e, por este motivo, percorre um longo e árduo caminho no interior de si mesmo. Tencionamos demonstrar que a escrita do romance O tempo e o vento contribui para a evolução do personagem, tanto como escritor, quanto como indivíduo. Analisaremos sua trajetória atentando, principalmente, para os conflitos internos e externos, como a auto aceitação e a relação com seu pai, além do modo como enxerga a historiografia clássica, desmitificando o passado e, assim, iluminando e compreendendo o presente. O personagem coloca-se como crítico da realidade, dando voz a um novo ponto de vista que privilegia parte excluída da História. Pretendemos elucidar seu trabalho de escrita, o amadurecimento do personagem e o modo como lida com a perspectiva histórica existente.

Juliana Oliveira dos Santos

Título:O enunciador e o enunciatário na revista Megazine: uma abordagem semiótica

Orientadora: Regina Souza Gomes

Páginas:208

Resumo

O presente trabalho procura identificar o perfil do jovem de hoje retratado no discurso da revista Megazine, utilizando-se da Teoria Semiótica de linha francesa. Para tanto, são analisadas as relações estabelecidas entre enunciador e enunciatário e as estratégias discursivas usadas para direcionar a interpretação, bem como procedimentos semânticos como a tematização e a figurativização e sua implicação na construção de efeitos de sentidodiscursivos e na identidade do pathos da revista. Também são analisadas as modulações afetivas presentes no discurso e decorrentes das relações entre sujeitos e entre sujeitos e objetos, mostrando o que mobiliza esse sujeito que sente e como o faz. Os procedimentos acima elencados permitem identificar determinada imagem do jovem retratado na revista, delineando seu perfil e contribuindo para criar e reforçar certas visões ideológicas de como é o comportamento desse público nos dias de hoje, bem como suas principais atividades e interesses.

Karine Oliveira Bastos

Título: Trabalhando fora, estudando e cuidando da família: o desregramento de cláusulas hipocráticas circunstanciais e seu status no ensino

Orientadoras: Mônica Maria Rio Nobre e Violeta Virginia Rodriges Páginas:157

Resumo

O presente trabalho pretende investigar, com base nos pressupostos da teoria funcionalista de Halliday (1985), Matthiessen e Thompson (1988) e Decat (1993, 1999, 2001a, 2001b, 2004, 2008a, 2008b, 2009a, 2009b, 2010, 2011), o uso da hipotaxe circunstancial no discurso escrito do português produzido no âmbito escolar, especificamente, em turmas de Ensino Médio da modalidade de Educação de Jovens e Adultos (EJA). O foco do estudo é voltado para as cláusulas hipotáticas circunstanciais denominadas desgarradas. Instituído por Decat (1999), o rótulo desgarramento se refere a um fenômeno bastante frequente na língua cujo entendimento exige romper com uma visão estanque das categorias, tal como propõe o exemplo: “Parei no tempo, parecia que eu estava dormindo. Passando humilhação quando trabalhava na casa dos outros. Minha mãe sempre disse para eu voltar a estudar, trabalhar de carteira assinada e me formar”. Exemplos como este não encontram, no tratamento tradicional, uma análise que dê conta do seu real funcionamento nos discursos em que se inserem, justamente pelo fato de a Gramática Tradicional (GT) apresentar somente um enfoque formal, com base, na maioria das vezes, na língua escrita e no nível sentencial; somese a isso o fato de a Nomenclatura Gramatical Brasileira (NGB) não tratar de certas relações adverbiais – caso do exemplo em destaque. Assim, este estudo propõe uma caracterização um pouco mais ampla do desgarramento que envolve a hipotaxe circunstancial, investigando, para isso, o tipo de relação que emerge entre as cláusulas, bem como sua posição, sua forma e até mesmo a perspectiva discursiva em que estão inseridas. Em última instância, busca-se somar reflexões sobre as práticas de produção textual e análise linguística inseridas no ensino de língua materna. No decorrer da pesquisa, foram analisados 825 textos, dentre os quais foram encontradas 113 cláusulas hipotáticas circunstanciais denominadas desgarradas. Das relações que envolvem a combinação de cláusulas, a causalidade revelou-se a mais frequente. Verificamos, portanto, que a hipótese central desta pesquisa – relacionada à importância do desgarramento de cláusulas hipotáticas circunstanciais para o desenvolvimento da argumentação – foi alcançada.

Mariana Marques de Oliveira

Título:Carta e corpo ou a carta-corpo no romance Em nome da terra, de Vergílio Ferreira

Orientadora: Luci Ruas Pereira 

Páginas:105

Resumo

Na fortuna crítica de Vergílio Ferreira observa-se unissonamente a afirmação de que a linguagem é tema de obsessiva reflexão do autor, atravessando sua ficção, sua obra ensaística e os seus diários. Partindo dessa premissa, o presente trabalho tem como objetivo investigar a reflexão sobre a linguagem no que diz respeito ao lugar da escrita na obra ficcional Em nome da terra (1990), de Vergílio Ferreira, sobretudo a partir de três aspectos: a escrita da memória, a erótica e a metaficcional. Para a sua leitura, o percurso do estudo divide-se em três capítulos: no primeiro, dedicado à escrita a partir da memória, analisamos por que e como a escritura se torna questão primordial para o protagonista João, também escritor e narrador do romance. Em seguida, no segundo capítulo, que se refere ao discurso amoroso, estudamos de que modo a escrita epistolar – gênero essencialmente comunicativo que emerge neste romance com a sua impossibilidade comunicativa – pode ser mote para a construção de uma escrita erótica voltada para o missivista. Por fim ao se observar que a estrutura do romance problematiza o ato de escrever no momento de seu processo, investigamos o caráter metaficcional do romance, isto é, de que maneira o discurso amoroso e narcísico possibilita a reflexão sobre a escritura. Desse modo, é possível observar na obra de Vergílio Ferreira – autor muitas vezes limitadamente pesquisado sob o viés existencialista – que a reflexão de cunho existencial está envolvida na e pela linguagem.

Natália Rocha Oliveira Tomaz

Título: A formação do ethos popular do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva

Orientadora: Lúcia Helena Martins Gouvêa 

Páginas:209

Resumo

Esta pesquisa tem por objetivo analisar de que forma o ethos do expresidente Luiz Inácio Lula da Silva era construído em seus discursos proferidos durante os dois mandatos de governo – 2002 a 2010. Para tanto, contará, primordialmente, com as contribuições da Semiolinguística do Discurso, de Patrick Charaudeau, com os apontamentos de Dominique Maingueneau a respeito da cenografia e de sua importância para a enunciação, e com os estudos desenvolvidos por Ruth Amossy sobre as modalidades argumentativas. Privilegiou-se, neste trabalho, o discurso improvisado para que se pudesse verificar a existência de ethé oriundos da própria personalidade do ex-presidente, e não que fossem fruto do discurso produzido por uma equipe redatora. Uma verificação quantitativa e qualitativa das ocorrências desses ethé permitiu compreender os processos envolvidos na formação da imagem do ex-presidente.

Nilzelaine Silva dos Anjos

Título: Filhos de uma pátria híbrida nas linhas da ironia de João Melo

Orientadora: Maria Teresa Salgado 

Páginas: 99

Resumo

A presente dissertação tem como objetivo captar, na obra Filhos da Pátria, os aspectos do hibridismo cultural e da ironia na Angola recriada pelo escritor João Melo. É evidente a capacidade, desenvolvida pelos processos de hibridação, de formar novos valores culturais em uma sociedade. Entretanto, esses valores podem ser dúbios, questionáveis e instáveis, deixando espaços para variadas formas de ironia. Esse caráter irônico que emerge de um contexto híbrido é revelado através de fatores históricos, sociais e culturais inseridos nos contos de Melo. Investiga-se como a hibridação pode revelar facetas irônicas, através das divergências e dubiedades que o texto sinaliza ao mapear os cenários angolanos. Os contos em questão suscitam reflexões sobre a diversidade na formação da atual literatura de Angola. A variedade de práticas culturais, políticas e sociais, a mistura de gêneros textuais e a multiplicidade de personagens e espaços são observadas, como elementos que reforçam o caráter ambíguo e conflitante (por isso irônico), na formação da sociedade reinventada pela escrita desse autor angolano.

Pamela Maria do Rosário Mota

Título:Entre as “veias finas” da escrita: metáforas do sangue na poética de Paula Tavares

Orientadora: Carmen Lucia Tindó Ribeiro Secco 

Páginas:136

Resumo

A palavra da poetisa Paula Tavares assinala, em Angola, o início de uma escrita transgressora que valoriza a mulher detentora de desejos, ao inserir, na lírica, o apelo erótico do corpo feminino, refletindo sobre o papel social da mulher angolana. Sua linguagem se aprofunda em questões sobre as tradições e os ciclos da vida e, para tanto, o texto da poetisa defende a desordem dos fatos ao trabalhar com o recurso da memória, em um movimento de trazer de volta, não para reescrever, mas tentar poeticamente reconstituir. A poética de Paula Tavares é configurada a partir do limite da linguagem, gerando violência no ato da escrita. A violência da qual estamos tratando é aquela capaz de questionar a realidade ou a própria criação artística. Essa violência poética também é usada para discorrer sobre a violência do trauma, remanescente das guerras em Angola. Poetizar de maneira precisa e cortante os estilhaços é uma maneira de transubstanciar o horror em sua constituição estética, tecendo afetos que ressignifiquem os traumas, de modo a refletir sobre os cacos deixados pelo pós-independência. Logo, a escrita de Paula Tavares provoca possibilidades de mudanças devido à insatisfação com o mundo presente, desalinhando-nos, provocando-nos afetos. Entendemos afeto como forças que estimulam a nossa reflexão, fazendo-nos sair de uma certa ordem. Nesta investigação sobre os afetos, um fato não poderia passar despercebido: a imagem recorrente do elemento sangue nos poemas da poetisa angolana. Nesta dissertação, propomos pesquisar em que medida as metáforas do sangue refletem sobre o feminino, as tradições, as cicatrizes da guerra e a própria constituição estética.

Pátrícia Affonso de Oliveira

Título:O Estatuto Morfológico dos formativos Eco- e Homo- no Português Brasileiro

Orientadora: Carmen Lucia Tindó Ribeiro Secco 

Páginas:107

Resumo

Os elementos morfológicos eco- e homo- são oriundos do grego e significam, respectivamente, “casa, habitat” e “semelhante, igual a” (CUNHA, 2010; HOUAISS, 2009). Atualmente, os formativos eco- e homo- vêm sendo amplamente utilizados para formar novas palavras, mas não mais com o significado que encontramos no dicionário etimológico: eco- aparece associado aos significados de “ecológico” e “reciclagem”, típicos de palavras como „ecologia‟ e „ecológico‟, e homo-, ao significado de “gay”, numa clara referência à palavra „homossexual‟. Esses elementos morfológicos carecem de descrição minuciosa e apropriada, já que os poucos trabalhos que descrevem muito brevemente eco- e homo- se limitam a falar sobre sua etimologia e/ou a classificá-lo ora como radical (BECHARA 2004), ora como afixoide (OLIVEIRA & GONÇALVES, 2011), ora como pseudoprefixo (CUNHA & CINTRA, 2001). A falta de consenso entre os estudiosos sobre a que categoria pertencem esses elementos se dá justamente pelo fato de eco- e homo- apresentarem características tanto de radical quanto de afixo. Usamos a morfologia construcional de Booij (2005, 2010) para fazer a análise dos formativos eco- e homo- e também para averiguar o posicionamento dos nossos formativos ao longo do continuum derivação-composição proposto por Kastovsky (2009) e Gonçalves (2011a). Para essa última questão, serão utilizados, como parâmetros, os critérios empíricos apresentados em Gonçalves (2011a) e em Gonçalves & Andrade (2012).

Priscila Wandalsen Mendonça de Castro

Título:Entre a cruz e a cama: o erótico como encontro na poética de Murilo Mendes

Orientador: Sergio Martagão Gesteira 

Páginas:80

Resumo

O presente trabalho aborda o erotismo na obra de Murilo Mendes e discute de que maneira esta questão é construída na imagem poética desse autor conciliador de contrários, tendo como corpus literário o livro Poesia em pânico publicado em 1937. Busca-se defender que Murilo Mendes, em oposição ao cristianismo descrito por Bataille, resgata, através do erotismo, o sentido original da palavra religião (do latim religare, religar), uma vez que não rejeita a impureza, mas dela se alimenta, de modo a compor uma poética em que as imagens de cama e a cruz se conciliem.

Sarah Pinto de Holanda

Título:Um caminho à liberdade: o legado de Pagu.

Orientadora: Elódia Carvalho de Formiga Xavier 

Páginas:144

Resumo

A intensa trajetória de vida, paixão e engajamento político de Pagu a transformou numa espécie de mito. Apesar da popularidade que lhe foi conferida em virtude da vida atribulada que protagonizou, sendo produzidos alguns títulos que se dedicaram a sua biografia, a obra literária de Patrícia Galvão continua praticamente desconhecida. Sua vida multifacetada é refletida em sua produção artística. Pagu criou poemas ilustrados, escreveu romances, contos policiais e poesias; além de uma série de artigos e ensaios que estão espalhados pelos vários jornais nos quais colaborou por décadas. O presente trabalho busca percorrer a trajetória de sua vida-literatura, debruçando-se em seus textos mais reveladores até a publicação de Parque Industrial, obra aprofundada nesta dissertação. Nosso ponto de partida é a análise de diversos textos que desvendam sua intrigante biografia; são analisados depoimentos, reportagens e sua autobiografia intitulada Paixão Pagu. A seguir, nos debruçamos sobre a primeira obra literária de Patrícia, Álbum de Pagu: Vida, Paixão e Morte, uma pequena autobiografia ilustrada, de 1929. Um texto marcadamente antropofágico que reúne linguagem verbal e não-verbal em várias doses de ironia e sensualidade. O primeiro exercício politicamente engajado se dá com as contribuições para o jornal O Homem do povo, de 1931, no qual assina vários artigos e compõe charges, vinhetas e uma história em quadrinho. Em 1933, Pagu lança Parque Industrial, o primeiro romance proletário brasileiro. Observamos que a irreverência e audácia da escritora antropofágica permanecem nesta obra que é marcada por um forte engajamento político, pois denuncia os cancros da burguesia capitalista; e por uma profunda experimentação estética, ao se aproximar dos movimentos de vanguarda europeia. Tais predicados fazem do romance de Patrícia Galvão uma importante obra do Modernismo Brasileiro.

Thaís Seabra Leite

Título:O personagem como metáfora e a arquitetura imaginante de Autran Dourado

Orientador: Ronaldes de Melo e Souza 

Páginas:131

Resumo

A presente dissertação de mestrado consiste no estudo acerca do personagem em dois romances de Autran Dourado, Ópera dos Mortos e Os sinos da agonia. Para o escritor mineiro, o personagem é metáfora em ação, concepção que encontra afinidade nos estudos bachelardianos sobre a imaginação material e dinâmica. Verificamos, ainda, que o personagem é elaborado a partir de técnicas neobarrocas de artificialização e apresenta três configurações principais: metáfora do corpo, metáfora textual – o personagem como metáfora de outros personagens da mesma trama – e metáfora intertextual.

Thiago Laurentino de Oliveira

Título:Entre o linguístico e o social: Complementos Dativos de 2ª pessoa em Cartas Cariocas (1880-1980)

Orientador: Ronaldes de Melo e Souza 

Páginas: 131

Resumo

A gramaticalização do pronome você desencadeou, no português brasileiro (PB) uma forte variação na representação da 2ª pessoa do singular, visto que o paradigma do antigo pronome tu não desapareceu. Essa variação na posição de sujeito tem sido amplamente estudada (cf. MACHADO, 2006; RUMEU, 2008, 2013), cabendo às investigações futuras analisar outras posições sintáticas da sentença. Nesta dissertação, investigamos as diferentes formas pelas quais o complemento dativo pode manifestar-se, em 2ª pessoa: através dos clíticos te e lhe, dos sintagmas preposicionados a ti, para ti, a você e para você, e ainda do objeto nulo (sem realização fonética). Chamamos de dativo o argumento interno dos verbos de dois ou três lugares com papel semântico de alvo ou fonte e substituível por lhe. Neste estudo, buscamos identificar fatores linguísticos e extralinguísticos que atuaram no (des)favorecimento de cada variante dativa durante a inserção do você no sistema do PB, por volta dos anos 1930 (cf. DUARTE, 1995). Além disso, descrevemos também a combinação do clítico te com o sujeito você em construções como “Você leu o livro que eu te dei?”. Tal combinação, interpretada tradicionalmente como “ruptura” da uniformidade de tratamento, é uma construção amplamente aceita e sem estigma social no PB atual (BRITO, 2001). O corpus constitui-se de 318 cartas particulares escritas por cariocas e fluminenses no período de um século (1880-1980). Como aparato teórico-metodológico, conciliamos os pressupostos da sociolinguística variacionista laboviana (WEINREICH, LABOV & HERZOG, 1968; LABOV, 1994) com a sociolinguística histórica (CONDE SILVESTRE, 2007; HERNÀNDEX-CAMPOY & CONDE SILVESTRE, 2012). Utilizamos o programa estatístico GOLDVARB-X como ferramenta para a análise quantitativa dos dados. Os resultados gerais deste estudo revelam que: o clítico te é a variante dativa mais recorrente na escrita carioca/fluminense do período analisado, independentemente do tratamento na posição de sujeito (você ou tu); o clítico lhe confere caráter de formalidade, marcando baixo grau de intimidade entre os interlocutores; as formas preposicionadas registram baixa frequência de uso, havendo a substituição das formas a ti e para ti por a você e para você ao longo do tempo; os subgêneros de carta particular, o núcleo social dos missivistas e o grau de domínio sobre os modelos de escrita são fatores que condicionam o uso das variantes.

Vivian Borges Paixão

Título: A prosódia das interrogativas totais na fala carioca: fala espontânea versus leitura

Orientadores: Dinah Callou e Dolors Font-Rotchés 

Páginas: 141

Resumo

O trabalho tem por objetivo analisar a prosódia das interrogativas totais – perguntas cuja estrutura assemelha-se à de declarativas, que podem ser respondidas com “sim” ou “não” –, comparando duas amostras de fala do Rio de Janeiro: uma de fala espontânea (FE) e uma de leitura (LE). O corpus consiste em (i) gravações de um jogo das personagens e (ii) na leitura, dias depois, dos diálogos entre os participantes do jogo pelos mesmos indivíduos. Os enunciados que compõem as duas partes do corpus contêm, portanto, o mesmo conteúdo proposicional, de maneira que qualquer diferença prosódica existente entre eles se deve unicamente à diferença entre FE e LE. A análise acústica e realização de testes de percepção baseou-se no Método de Análise Melódica da Fala de Cantero & Font-Rotchés (2009). Na pesquisa, observou-se que tanto as interrogativas espontâneas quanto as lidas confirmam a tendência geral de um padrão circunflexo para as perguntas no Rio de Janeiro, conforme descreve a literatura, embora na LE haja mais oscilações micromelódicas ao longo do contorno. Verificou-se que na FE houve maior predomínio do padrão de inflexão final ascendente-descendente, com menor ocorrência dos padrões alternativos. Além disso, nos dados de LE, a média de subida no acento nuclear foi maior do que na FE, revelando uma subida melódica mais saliente na leitura; e o padrão descendente, característico de assertivas ou perguntas parciais, minoritário em ambas as amostras, é um pouco mais recorrente na FE. Observou-se ainda que a ocorrência de contornos que fogem ao padrão estabelecido para as interrogativas está relacionada, geralmente, à expressão de atitudes ou situações pragmático-discursivas bastante específicas.

DISSERTAÇÕES DEFENDIDAS EM 2013

Dissertações de 2013